Indiferença


Sérgio de Almeida Correia,

Tirando os habituais comentários e os textos indignados de meia dúzia de articulistas encartados, o que torna tudo mais real e ao mesmo tempo assustador é a indiferença com que tudo isto é visto pelo cidadão comum. Como algo normal e corriqueiro. Porque o pagamento de comissões, a troca de favores, a agilização de procedimentos e a facilitação de negócios duvidosos está institucionalizada. Como se não houvesse vida depois de amanhã. Como se esta pessegada dos “vistos gold”, patrocinada pelo Presidente da República e o Governo, fosse uma coisa normal num Estado de direito respeitável. Como se o significado da diplomacia económica fosse vender apartamentos de cento e tal mil euros por mais de quinhentos mil e repartir o remanescente em comissões entre portugueses e intermediários chineses. Como se isto fosse uma actividade respeitável. Como se pudesse haver seriedade no limbo. Como se o trigo e o joio se tivessem por milagre reunido para constituírem a nossa natureza. Como se mil milhões, dos quais seguramente trinta a quarenta por cento foram para o pagamento de “comissões”, valessem o escândalo, a imagem de abandalhamento que fica das instituições, a credibilidade e a reputação do Estado. Como se tudo isto fossem coisas menores.

 

De um povo de indiferentes resignados só se pode esperar a indiferença. A moleza. É este o preço que andamos a pagar há décadas enquanto nos acenam com a esperança. E que vamos continuar a pagar. Com toda a indiferença.

18 comentários em “Indiferença”

  1. Mais do que tudo, é essa indiferença que me assusta.
    Vivemos há décadas num estado entre o hipnótico e o conivente que nos tem empurrado o país para o abismo.
    Se há culpas que se possam atribuir, elas terão de ser atribuídas a um povo que desaprendeu a ser povo e que se comporta há anos como povinho.

  2. “…. embrulhados pelas espertezas da gente de ganhar com quem tem de viver
    Eis o ferrete indelével da nossa pelintrice! Com burguesias pobres, com capitalistas risíveis, com instituições bancárias sem iniciativa nem faro comercial, como esperar então que dinheiro português acorra a fertilizar terrenos que necessitam ser alagados de oiro, primeiro que venham abrir ao trabalho humano os seus óptimos frutos?
    …facilmente se adivinha que ninguém já tem fé em ninguém, e que a missão dos governos está resumida a isto: ir tentando.
    O desalento apoderou-se, com a falta de dinheiro, dos nossos homens públicos, cujo talento governista era gastar, e a dedicação é letra morta em partidários só ligados aos chefes pela necessidade de viver com bons empregos. Hoje que o jantar mingua de pratos, os hospedeiros hã-de-se ver deixados de convivas, e a multidão já começa a resmungar dos elixires de juventude ensaiados pelos messias platónicos, na carcaça dos povos decaídos. Não há hoje em Portugal um único homem e um único partido onde pôr esperança.
    Pelo hábito de preterir o mérito ao favoritismo, perdeu-se a religião do trabalho, e desde que os dirigentes da sociedade portuguesa começaram a não se tirar dos homens de valor, mas dos sobrinhos, os elementos úteis saíram, para deixar entrar os bacharéis. Inaugurada a era da banalidade, veio-lhe fazer cortejo a impudência: com políticos estúpidos, banqueiro sarrafaçais e costumes públicos infames. De quando em quando uma voz: rolamos para o abismo! de que ninguém fazia caso, pois os prestamistas ainda fiavam. E agora a pedir com o que nos resta de voz, um salvador, reconhecemos tarde que os salvadores são todos – bombeiros voluntários.”

    “…irresoluto, esbofante, que aceita a farpa parado, e finge de terrível raspando com a ponta da sapata no chão.”

    “…sacudir, vibrar, reacender o nervo das energias vitais amadornadas deste povo apático e desmoralizado por ter perdido a fé na felicidade.”

    Fialho de Almeida

    (O Pobre Tolo)
    “O tolo não tem a coragem dos sábios e teme as sombras que lhe aparecem como portas fechadas sobre o mistério. Abrem todas para dentro. Nos instantes de curiosidade, espreita pelo buraco da fechadura, retira os olhos espantados e orneia etéreos disparates que os outros gericos não entendem. O tolo irrita-se contra os asnos, muito vaidosos da sua albarda e do pedaço de asno que os monta. Os burros perfeitos não pertencem á Humanidade. O homem não é um todo; é um pedaço; uma orelha de burro desenvolvida e adaptada às formas dum ser completo. Mas, no ìntimo, não é mais do que uma orelha, onde arde a perisca de um cigarro, para que o triste miserável trote, salte, escoicei, meta o focinho entre as pernas e se empolinhe e rebole no chão, com as patas no ar desesperado!
    Eis o homem e a sua tragédia.”

    Teixeira de Pacoaes

  3. E o que é hestrodenário é que o nosso PR e o nosso governo mandam em Espanha, Chipre, Grécia, Malta, Letónia, Hungria, Bulgária… e, mais hestrodenário ainda, no UK (onde a rainha não manda nicles batatóides).

    Só falta mandarem nas Ilhas Caimão.

    http://ee24.com/articles/europe/the-golden-visas-where-to-buy-a-residence-permit-in-europe/

  4. A notícia, já não causa espanto… políticos, são todos assim… quando se descobre a hidra, as cabeças que se cortam primeiro são sempre as mais pequenas… depois chega a indignação em consecutivos pontos de interrogação que carecem de pontos finais : sempre e só reticências . A raiva vem faseada, atenuando para o fim, como se se soubesse o desfecho de antemão : as habituais águas de bacalhau…
    Resta mesmo a indiferença. Mais uns quantos que se encheram à nossa conta, que vão descansar à conta do erário público, portanto à nossa conta , mais um buraco que o estado irá tapar, mais uma vez à nossa conta… e novidades, não há ?

  5. Misturar o “trigo e o joio” parece ser equiparar uma lei (criticável, como tudo, mas uma lei) com a violação criminosa de uma lei. Coisa do mais tuga que há, aliás, essa de remeter para terceiros a responsabilidade últimas pelo actos dolosos que praticados: “se não fizessem os passeios tão largos…”, “se ela não andasse de mini-saia…”, “se não fosse o subprime…”, “se não tivessem criado os vistos gold”…

  6. Penso que o vocábulo “indiferença” não espelha o real sentimento dos portugueses. O mais correcto, segundo me parece, é “falta de esperança no futuro”.

    Num país onde a maioria dos cidadãos ganha o Salário Mínimo Nacional (se ainda estiverem empregados) e onde se anunciam taxas e impostos em todo o lado, desde os ‘impostos verdes’ que tornarão mais oneroso as deslocações em viatura própria e não há rede de transportes colectivos alternativa, até às compensações da redução da taxa de IRC (que, em Portugal, afecta apenas cerca de um terço das empresas), o que é certo é que o dinheiro no bolso das pessoas para utilização em consumo não essencial é muitíssimo pouco, inexistente ou até negativo (ou seja, retirando verbas de coisas como alimentação).

    Ao mesmo tempo, os “cães grandes” esquecem-se de declarar milhões em sede de IRS e levam uma palmadinha nas costas (como o Salgado), fazem investimentos ruinosos na sua empresa (como na PT), criam esquemas de desaparecimento de dinheiro, mesmo estando a ser observados (BPN, BPP, BES), os que estão na observação e falham são promovidos (Constâncio), os ex-políticos vão para empresas amigas do regime (Mota-Engil, Lusoponte) ou tornam-se comentadores (Marcelo, Sócrates, Marques Mendes)…

    O máximo que os portugueses ‘comuns’ almejam é a emigração (se puderem) ou o Euro Milhões. As pensões na velhice (para as quais são obrigados a descontar) são tudo menos certas, os apoios em situações difíceis muito menos (Subsídio de Desemprego, Subsídio de Doença, até o abono de família está a ser cortado!), a ‘meritocracia’ é um palavrão que outros invocam para que as pessoas trabalhem mais, enquanto a famosa ‘cunha’ é usada e abusada, os “Bancos de Horas” e obrigatoriedade de fazer horas extras não remuneradas até lhes roubam o tempo que podiam estar com os amigos ou a família – e estão sempre com a corda na garganta porque o que importa aos decisores políticos é a facilidade com que se despede alguém.

    Fazendo uma analogia futebolística, o campo está muito inclinado em favor de uns poucos em detrimento da maioria dos portugueses, o árbitro apita quase exclusivamente a favor dos poderosos e o resultado já vai em 15-0. O que pode um cidadão português fazer?

  7. Seria preocupante se a justiça não actuasse. É bom que o povão, todos nós, relaxe, porque é sinal que a justiça está a fazer o trabalho que lhe compete.

  8. “Porque o pagamento de comissões, a troca de favores, a agilização de procedimentos e a facilitação de negócios duvidosos está institucionalizada.”
    .
    quando organizações secretas tem o controle do Estado…

    1. Nem imagina como está certo. Infelizmente em todo o mundo dito “democrático” e “capitalista” o primeiro ministro ou o presidente da república (dependendo de sistema Presidencialista, Semi-presidencialista ou Parlamentarista), são apenas os fantoches de quem realmente manda: as sociedades secretas que curiosamente são “tão secretas” que quase todo mundo já sabe disso, falando de quem realmente queira saber, porque infelizmente a maioria “está-se nas tintas” e paga caro por isso!

  9. De facto em certos “estados de direito respeitáveis”, como na Coreia do Norte, ou em Cuba, p. ex., coisas como os famigerados “visa gold” não existem.
    Já na maioria dos paises da Europa ocidental, todos estados muito pouco respeitáveis, essas coisas existem com grande proveito para as respectivas economias.
    Os que defendem a intervenção do estado em tudo o que mexa, e ao mesmo tempo andam nos media a carpir que se os vistos não existissem não havia corrupção, ainda não perceberam que estão a dizer que tudo quanto exija burocracia e onde o estado e os funcionários publicos metam a mão, são focos potênciais de corrupção!
    E também ainda não percebi se nos estudos que dizem que em Portugal a economia paralela vale 30% do PIB, estão incluídas as luvas que os burocratas das diversas repartições publicas recebem para tirar os dossiers da gaveta e dar-lhes o respectivo seguimento.

  10. blá, blá, blá, blá, blá, blá. Em resumo: se “isto” é democracia, não tenho vergonha em confessar: o mais depressa possível a ditadura, de Direita. E não me venham com teorias de carácácá. Por isso é que os mentores dos políticos actuais estavam todos na pildra, eram catedráticos na roubalheira.

  11. O SAC é o mais aproximado possível, mas na mesma a espumar pela boca (contra o Governo também), com a Constância que, de tão tola e cega, já ninguém atura.

    Não se pode, só, pedir que se julgue o prevaricador, seguindo o normal curso de investigar e julgar/sentenciar (para o bem ou o mal), sem meter mais gente ao barulho?

    Parece, também aqui, que mais uma vez só agora se deparou com comportamentos inadmissíveis, vulgo corruptos. Esta é uma falsa e idiota indignação.

    Parece, ao contrário de outros tempos recentes, que as autoridades investigam e as instituições funcionam. Haverá, sempre houve, ladrões; que não faltem polícias e juízes.

    Sobram é sempre os indignados perversos e os moralistas de ocasião.

  12. É por estas e por outras que não saímos da cepa torta. A corrupção ladeia-nos por todos os lados, os protagonistas políticos, são sempre os mesmos e nós, portugueses, pouco elucidados politicamente, aceitamos tudo de mão beijada. Interessa mesmo, a estes políticos que os portugueses continuem amorfos e pouco esclarecidos, para assim manejarem as coisas, como querem e muito bem lhes apetece. Fomos um povo com alma e bravura, hoje, essa alma guerreira apagou-se e deu lugar a gente com medos, sem sonhos, apáticos a quem o dia de amanhã, é mais um, igual ao outro ou pior, mas é destes que os nossos políticos gostam!…………

  13. Apesar de por vezes ter opiniões diferentes das expressadas neste Blog (possivelmente não na essência do texto, mas certamente no desenvolvimento da opinião), a verdade é que pelo menos desta vez tenho que concordar na totalidade. Mas espero mais… sem querer ser demasiado exigente.

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