Prazeres sai da casa caiada na Rua do Frengo exactamente 30 minutos antes do início da missa. O nevoeiro da manhã esbate o contorno da sua silhueta austera que se move, em passos ligeiros, sobre o chão empedrado das ruelas do centro de Canelas. Veste-se sempre de forma modesta e decente. Mais ainda ao Domingo. A saia tapa o joelho e um pouco mais. A camisolinha de malha comprada na feira de Espinho cobre os braços e a parte de baixo do pesoço. Os sapatos são rasos, como devem ser. Não ambicioneis coisas altas, mas acomadai-vos às humildes, lera nas Escrituras. Dobra a última esquina antes de avistar a Igreja. Olha, como sempre faz, para a Rua do Padre Costa que se desenha à sua esquerda. Um santo, o Padre Costa. Merecia outro reconhecimento. Prazeres não consegue reprimir um suspiro que contém, na sua imensa fragilidade, uma infinita piedade por todas as malfeitorias sofridas, aqui, agora e sempre, pelos justos da Igreja. Retoma imediatamente a compostura. O dia não está para desfalecimentos. Apressa o passo apesar dos cansaços que lhe desafiam os movimentos. As camisolas pretas tinham dado mais trabalho do que previra. O mais difícil fora escolher frase. De tantas que lhe vieram à cabeça, Deus quis que acabasse por escolher aquela: Cristo foi traído – Quem o traiu retirou as consequências. Direitinha ao Bispo do Porto: pega lá que já almoçastes. E o ensaio dos cantos… Minha Nossa Senhora! Mas, no final, a Laida, a Tona, a neta do Tobias e a Micas tinham decorado as falas: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. Os dados estão lançados. Vão ficar com as orelhas a arder, os vendidos que forem à missa. Quando chega ao adro da Igreja faltam dez minutos para a homilia. Um olhar em redor confirma que já lá estão os que devem estar. Com gestos rápidos, abre o saco de ginástica da Puma e distribui as camisolas. As do coro ensaiado também já estão prontinhas. A tensão sobe enquanto o nevoeiro se dissipa. Dois minutos depois, o gajo chega. Acompanhado pela GNR, todo borrado de medo mas a dar ares de galifão. Os vendidos entraram na Igreja a passo. Deus lhes perdoe. Ouvem-se vozes, afinadas e pias, em cântico: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. As camisolas já vestidas nos corpos dos que, na primeira fila, gritam e empurram. Prazeres sorri. Um trabalho bem feito. O melhor ainda está para vir. Não perdes pela demora galifão. Quarenta e cinco minutos depois, termina a missa. As mesmas camisolas, os mesmos cânticos. O padreca tenta sair, escoltado pela GNR. Prazeres vai buscar forças não sabe a que santo e grita-lhe com quantas forças o Senhor lhe dá: badalhoco, tem apresentação, corta o cabelo e a barba! A pequena cruz com um Cristo que traz ao peito salta e faz-lhe um lanho no pescoço. O padreca desaparece do adro no carro onde foi metido à pressa pela GNR. O resto do Domingo passa-se do jeito que Deus quer, interrompido aqui e ali pelo regozijo provocado pelas imagens do triunfo sobre o padre Albino que passam nos telejornais da RTP. O relógio da igreja bate as 10 da noite. Prazeres apressa de forma quase imperceptível as orações. Depois de assegurar que a porta do único quarto de cama da casa onde vive sozinha está fechada, dirige-se ao roupeiro onde guarda uma pequena caixa escondida num fundo falso de uma gaveta. Afasta o rosário que trouxe de uma viagem da paróquia à Terra Santa e, enquanto aconchega contra o peito uma fotografia do padre Roberto, murmura com a voz a tremer: ah meu sacana, que ainda me fazes perder…
Prazeres de Canelas
Rui Rocha,


Quer se dezer que por ali há caneladas com prazer.
Muito bom, Rui!
Serão assim as Prazeres de Canelas ou isso são apenas os prazeres de Canelas?
Viagem, se faz favor…
Pobre do padre que sofre as consequências dum bispo que não lhe interessa a igreja, mas sim aquilo que quer fazer. É isto que o bispo quer? É esta balbúrdia, é mortificar o padre e vê-lo espezinhado? Se é, também ele tem de ser mudado e abandonar o posto que tem, porque está visto que não sabe resolver as situações, ou, não está nem aí para o resolver. Palavra dele é rei e o padre que se desenrasque……….
Excelente, Rui.
Digno de um Eça de Queiroz ou de um Camilo Castelo Branco. Aqui está, sob o manto diáfano da fantasia, a verdade nua e crua! Estes “imprescindíveis” movem-se pelo vil metal ou pelo pecado da carne!
Aqui está a minha modesta opinião:http://amarjunqueira.blogspot.pt/2 016/06/padre-roberto-e-agora.html
Muito obrigado pelo destaque e pela partilha, José Manuel.