Eu sabia que ainda haveria de ouvir um dia Diogo Freitas do Amaral aplaudir uma proposta do Partido Comunista.
Sim, refiro-me ao político que em 1974 fundou o CDS e votou em 1976 contra a Constituição da República, chegou a receber o rótulo de “homem mais à direita de Portugal” e foi arrasado por Mário Soares no debate da segunda volta das presidenciais de 1986 com estas palavras esmagadoras: “Eu não tenho dúvidas em reconhecer que o Dr. Freitas do Amaral é democrata, embora não tenha feito nada pela democracia.”
Aconteceu quarta-feira à noite, numa entrevista concedida à RTPi e conduzida pelo jornalista Vítor Gonçalves. Ultrapassando o PS pela esquerda, Freitas aplaude agora os comunistas. Tal como o PCP, também ele preconiza a intervenção do Estado na PT, empresa privada, salientando que o mesmo já devia ter ocorrido no Espírito Santo: o melhor, garante, seria recapitalizar o banco falido com o recurso a seis mil milhões de euros do empréstimo da troika.
Para isso, invoca um artigo da Constituição de 1976 que autoriza a intervenção do Estado na gestão de empresas privadas, à revelia da vontade dos accionistas. A mesma Constituição contra a qual ele votou.
Tudo nacionalizado, portanto, proclama o Freitas do Amaral de 2014, contrariando o Freitas do Amaral de 1974. Beneficiando a irresponsabilidade dos gestores privados ao assegurar-lhes o direito automático à rede protectora do Estado. E adoptando a receita posta em prática com o BPN. Com os contribuintes a pagar mais e mais e mais e mais.
Suporíamos que para financiar isto o fundador do CDS pediria mais sacrifícios fiscais aos portugueses. Afinal não: Freitas protesta até contra o eventual aumento da carga fiscal para o próximo ano.
Mais encargos para o Estado suportados por menos receita: eis uma verdadeira quadratura do círculo. Que espantaria vinda da boca de outro político mas já não surpreende por vir de Freitas do Amaral, que nos habituou a defender tudo e o seu contrário.
O mesmo homem que, tendo sido ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros do primeiro executivo de José Sócrates, veio acusá-lo de “falta de cultura democrática” durante a campanha para as legislativas de 2011.
O mesmo homem que em Outubro de 2011 elogiava a “capacidade de concretização” de Passos Coelho, obreiro de “mais reformas em cem dias” do que o anterior executivo em três anos, e agora se indigna porque os membros deste governo “não conseguiram fazer nada”.
O mesmo homem que na Primavera de 2011 saudava o programa da troika como “um mal necessário” que permitiria ao País “respirar durante dois anos pelo menos”, e hoje se exaspera contra os “travões a fundo” da austeridade.
O mesmo homem que, durante mais de uma década à frente do CDS, viu o partido ser parcialmente financiado por generosas doações da CDU alemã, através da Fundação Konrad Adenauer, e hoje clama contra a chanceler germânica, pertencente à mesmíssima CDU, com palavras reveladoras de um fino pensamento estratégico: “A Europa só muda no dia em que a França der um murro na mesa para a Alemanha perceber que está a ficar isolada. E a Alemanha o que mais detesta, desde a II Guerra Mundial, é sentir-se isolada.”
Igual a si próprio – ou seja, sempre diferente. De entrevista em entrevista.

![freitas-do-amaral1916d322_400x225[1].jpg freitas-do-amaral1916d322_400x225[1].jpg](http://3.fotos.web.sapo.io/i/B0813700e/17532156_Q87NE.jpeg)
Não f***, nem sai de cima. E isto são os nossos «senadores». Eles é que eram bons. A culpa morreu solteira.
Chamo a atenção para este gráfico:
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/f inancas_publicas/orcamento_do_estado/det alhe/infografia_o_que_previram_os_minist ros_e_como_ficou_o_defice_publico.html
E para esta boa nova:
http://quartarepublica.blogspot.pt/2014/1 0/contas-externas-em-agosto-registam.htm l
ligada com esta
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/f inancas_publicas/detalhe/defice_orcament al_proximo_dos_4_mil_milhoes_de_euros_at e_setembro.html
P.S. Não estou a ser ofensivo, estou a usar o português correcto. Ofensivos foram os que queriam o monstro que andamos a pagar.
Nunca jamais esquecer que este sujeito foi fazer uns dias à AR, pela porta do cavalo e na altura das férias parlamentares, para completar pela calada os dias que lhe faltavam para “completar” o tempo que lhe deu “direito” a uma reforma como deputado, a ele, um pobrezinho jurisconsulto que tem casa na Quinta da Marinha mas mora em Lisboa em casa posta em nome dos filhos.
Murros na mesa, por agora, há na própria França, isto enquanto Monsiú Hollande dá beijinhos na face da Senhora Frau.
http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-ps-f rances-e-um-partido-tao-dividido-que-duv ida-do-proprio-nome-1674067
Dar murros na mesa produz esse efeito. O de partir a mão em vez de partir a mesa.
Há pessoas que perderam a capacidade de me surpreender pela positiva… falou de uma delas.
De fundador do CDS a apoiante da estatização da economia, em coro com PCP e BE. Socrático e anti-socrático. Passista e antipassista. E mais o que se verá.
Ainda bem que vão havendo pessoas como o Pedro que preservam viva a memória das coisas.
Estude lá o verbo haver. Não custa muito e analfabetos, temos de sobra.
Por favor explique-me; não conhece havendo, o gerúndio de haver?
O gerúndio eu conheço. Agora “vão havendo pessoas” não, melhor conheço mas está errado. Por acaso ouve-se muito na Televisão mas é tão errado como dizer “ténhamos” que também se ouve a pessoas com estudos (supõe-se). Diz-se “há muitas pessoas” e não “hão muitas pessoas”, “houve muitas pessoas” e não “houveram muitas pessoas”. “Vai havendo pessoas” e não “vão havendo pessoas”.
Soa muito mal ao ouvido e a regra (encontra-se em qualquer gramática) é assim: quando o verbo haver significa existir vai para o singular mesmo que o sujeito esteja no plural. Assim “há muita coisa” e também “há muitas coisas” e não “hão muitas coisas”.
Eu sei que não deveria dar conversa a um purista da gramática, mas não lhe vou recusar o “passatempo da questiúncula,” como diria o Camilo 🙂
Sim, tem toda a razão, se quisermos ser rígidos, mas acho que cometeu um engano ao dizer que soa muito mal ao ouvido; obviamente não soa ou as pessoas não cometeriam o erro com tanta frequência. Eu não sei o que dizem as gramáticas, mas aposto que daqui a uns anos vão aceitar tanto “vai havendo” como “vão havendo,” do mesmo modo que já aceitam “a maioria das pessoas acha” e “a maioria das pessoas acham.” A força do hábito vai acabar por impô-lo como norma; o erro generalizado e invisível também é uma das formas de mudar a língua.
De resto, acho que não a deixará pior do que tantas outras mudanças ao longo do último século. Antigamente escrevia-se o pronome pronominal antes da negativa, como “que se não esqueça disso,” e agora é “que não se esqueça disso;” e usava-se o verbo intransitivo com mais frequência; e não se usava a preposição “a” na contracção com o artigo definido, como hoje em dia: antes escrevia-se “andou até o jardim” e agora dizemos “andou até ao jardim,” para não falar de que metemos artigos definidos onde antes não existiam, como por exemplo “a minha mãe,” que antigamente se diria “minha mãe,” e por aí fora.
“Vão havendo” será só mais uma mudança; não será nem boa nem má, será apenas isso, uma mudança. Como a odiosa construção “ser suposto + verbo,” essa sim, soa-me mal aos ouvidos e fujo dela como da peste, mas todos a usam, por isso é mais um erro que daqui a uns anos será norma de gramática.
É a vida da língua. Mas gostaria de conhecer a sua discordância.
Notável, na veemência, a sua defesa da fórmula que utilizou. Todavia, passada essa bem construída exuberância, terá talvez razão no caso da preposição e do artigo definido. Tudo o resto que invoca ouço e leio eu – e escreverei – regularmente. Serão opções menos comuns, vítimas até de uma redução do idioma à condição de mera ferramenta, onde tudo se aceita desde que a mensagem se passe.
“Vão havendo” é, pelas regras que conheço, não uma opção paulatinamente consagrada e tão lícita como outras que eventualmente tenham caído em obsolescência, mas um erro. Tão simples quanto isso. Mal de nós se desculparmos os nossos erros – e pior lhes quisermos dar o estatuto de formas correctas – fundados na banalidade com que são cometidos. Mal de nós se continuarmos a ceder ao facilitismo das facultatividades, da fonética e do vulgo.
Uma língua, a nossa língua-mãe, na cultura que encerra, na história que transmite, na identidade que revela, merece muito mais.
Um erro de boa-fé toda a gente o comete. Não envergonha. Como não envergonha o seu reconhecimento.
Costa
“Notável, na veemência, a sua defesa da fórmula que utilizou.”
Obrigado, eu esforço-me por cultivar as artes sofísticas 🙂
“Mal de nós se desculparmos os nossos erros (…) fundados na banalidade com que são cometidos.”
Sabe como é que palavras inglesas como rôle e eqüidistant perderam os seus acentos por volta dos anos 50? Porque os directores de jornais poupavam em tinta eliminando-os; de qualquer forma o leitor continuaria a percebê-las. Não menospreze a banalidade; o mais das vezes é como a língua muda.
Mas tem toda a razão: tudo isto foi apenas para minorar um erro de que me envergonho e que em geral não cometeria; vou prestar mais atenção no futuro.
“Não menospreze a banalidade; o mais das vezes é como a língua muda.”
Pois é, tem nisso toda a razão. O facilitismo e a mediocridade (para ser gentil) tendem a vencer. Porque são descarados, arrogantes, teimosos e acabam por vencer pelo cansaço quem se lhes oponha. Sobretudo quando, pela geral e vivamente encorajada boçalidade, o apelo da facilidade que tudo justifica é forte e essa oposição débil. E vista como anacronismo de presunçosos. Na língua como em quase tudo.
O exemplo que cita é interessante. Mas escreve-lhe um anglófilo impenitente, nem tudo o que de lá vem é necessariamente bom.
Enfim, escrevendo então de acordo com o ar dos tempos e a banalidade que tão tranquilamente parece aceitar, na forma e conteúdo, como fonte de legitimidade, diria eu que, a pretexto das errâncias de um alegado senador da democracia, a “gente tivemos” (e um dia ainda será “agente tivemos”) por aqui uma interessante troca de impressões.
Um dia, não muito distante, dirá você, tal será absolutamente correcto. Para si estará muito bem.
Costa
Ps.: e deixemo-nos de ironias: você não se envergonha, evidentemente, de algo que militantemente não considera erro.
Já o cultivo das artes sofísticas é coisa que, sobretudo quando feito com empenho e método, frequentemente dá, parece, muito jeito. É tudo uma questão de maior ou menor desfaçatez. Como se sabe, tendo-a – e de si saberá você -, uma utilíssima e muito produtiva característica.
Tem razão, toda a bacorada de agora será o correcto do futuro. Mas hadem passar muitos anos até o verbo haver se modificar. Eu vou já escrevendo hadem porque aí está o futuro. E vou passar a dizer ténhamos (como ouço na TV) pela mesma razão. Não quero impedir a evolução da língua com purismos.
O Miguel cometeu um erro – o que pode acontecer a todos – e em vez de lhe chamarem a atenção de uma forma simpática fizerem-no de um modo um bocado desabrido. É “vai havendo”, disso não haja dúvidas.
E também houve sempre gente antipática.
Não quis meter-me na discussão, que derivou por um caminho totalmente diferente do tema do meu texto. Mas quero agradecer as simpáticas palavras que o Miguel me dirigiu, muito mais acima.
Pedro,
muito se poderia comentar sobre o tema em concreto. Mas posso garantir-lhe com toda a certeza que as virtudes de um estado participativo são aplaudidas por qualquer banqueiro ou gestor de banco, desde que fiquem no activo. Que o digam todos em Portugal e até mesmo aqueles que por cá discursam e que ocupam cargos em bancos intervencionados por estados.
É muito fácil alguém dizer que outros não podem viver acima de suas possibilidades quando gerem através das possibilidades por todos disponibilizadas.
O que quero dizer, Pedro, é que todos eles andam a falar de políticas que nos fazem viver acima de nossas possibilidades:
http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2014-1 0-24-Portugueses-tem-de-deixar-de-viver-a cima-das-possibilidades-6
http://economico.sapo.pt/noticias/lloyds-d e-horta-osorio-despede-570-trabalhadores _113663.html
Tenho as minhas dúvidas. Aguardarei pela opinião que o professor Do Amaral emitir sobre esse assunto para ficar com certezas.
A Man for All Seasons … nunca se vendeu… porque provavelmente ninguém o quis comprar…
Belíssimo filme, ‘A Man for All Seasons’. Agora fiquei com vontade de o rever.
Caro Professor Anónimo das 22 e tal
… Analfabetos há muitos…. professores também. Só que muitos chumbaram na prova de avaliação… O anónimo não será um deles?
Sou, sou.
Talvez seja um novo membro da seita das teorias da conspiração, mas olho para todas estas argumentações PT+BES/GES, pequenos acionistas, papel comercial… e só vejo advogados e aparentados a empinar escadas a ver se o Zepovinho acaba por apagar todas as maningancias feitas. deus me livre de que a doença se torne crónica e incuravel!!
Tem de ser sempre igual? Porquê? Não tem direito a mudar de ideias, ou terá de ser cabeça dura toda a vida? Sempre que alguém, neste país, muda de ideia ou de opinião, é sempre criticado pela negativa. Talvez seja por isso que todos nós, temos os governantes que merecemos…….
De Marcelo Caetano a Jerónimo de Sousa: tem todo o direito a mudar de ideias. Exerce aliás esse direito da forma mais liberal.
Apenas um esclarecimento: a 2ª República era fortemente interventora na economia. O estatismo é uma constante na história de Portugal – embora sem quaisquer resultados benéficos.
Nesse sentido, a constituição de 1974 está na esteira da de 1933.
O que havia na 2ª república era menos corrupção e mais respeito pelo que era então considerado o interesse nacional: ou seja, o Dr. Ricador Espírito Santo sabia, com absoluta certeza, que se fizesse um milionésimo do que o seu neto Salgado fez, não estaria uma semana na direcção do seu banco, assim que isso chegasse ao conhecimento do Prof. Salazar. O neto esteve anos.
Só um reparo: a Constituição é de 1976, não de 1974.
Sempre a puxar ao estético em vez de ao contéudo !
Nada tem mais a ver com o conteúdo do que o rigor, WW.
Caro Pedro Correia, o que mais me impressiona em Freitas do Amaral é a petulância e o deslumbramento!! É uma coisa tal que nem lhe sei explicar! É um dos muitos mitos, na academia, na vida pública e política, que por aí tem persistido! Um diletante incensado (leia-se a sua biografia de Afonso Henriques, a mais publicitada obra sobre o nosso primeiro monarca. Uma obra de reflexão pessoal, sem investigação, baseada no rigor da sua especulação sobre obras já produzidas, nas palavras do próprio.) Verdadeiramente, não representa nada nem ninguém! É uma lástima que se apontem personagens como Freitas do Amaral, cujo pensamento político conhecido cabe num dedo mindinho, como putativo senador. É triste, acima de tudo, prá desgraçada da república que aparece encardida de lantejoulas destas para se ornamentar. É esta entrevista, e outra e mais outra e outras tantas pejadas de platitudes trazidas pela última maré!
Um bem haja pela sua atenção,
Meu caro: com “senadores” deste género, cada vez mais me congratulo por não haver Senado em Portugal.