Cadernos de um enviado especial ao purgatório (47)


Luís Naves,

Num livro notável que gosto de explorar, The Faber Book of Reportage (colecção de pequenos textos com testemunhos sobre episódios mais ou menos famosos) encontrei o relato do naufrágio de um navio português, em 1585, ao largo de Moçambique. Este texto, baseado em testemunhos de terceiros, foi escrito por Jan Huyghen van Linschoten (1563-1611), figura fascinante do Renascimento, um holandês que viajou pela Ásia com ajuda portuguesa e que, depois de regressar à Europa, publicou livros sobre essa experiência. Linschoten foi muito influente na ambição da Holanda de criar o seu próprio império. O texto incluído nesta colecção tem o ritmo e a simplicidade que associo a uma boa reportagem (apesar de não ser um relato presencial), mas o que mais me surpreendeu foi uma passagem crítica, em que o autor holandês comenta a teimosia do piloto do navio naufragado, claramente o culpado da tragédia, ao ignorar os avisos dos outros marinheiros. Por “orgulho”, escreveu Linschoten, os portugueses “não seguirão o conselho de nenhum homem, e não estarão sob a sujeição de alguém, especialmente quando têm autoridade. Como aconteceu com este piloto, que não ouviu os conselhos, excepto os que deu a si mesmo”. A tragédia causou centenas de mortos e teve outro pormenor requintado, que muito surpreendeu o autor holandês: os oficiais salvaram-se primeiro e quem não conseguiu improvisar uma jangada, morreu afogado. Ao todo, houve sessenta sobreviventes. Na História Trágico-Marítima, existe um relato muito semelhante de comando incompetente, seguido de naufrágio e abandono dos passageiros pelas elites do navio. Também já li sobre um caso holandês, mas aí a justiça foi implacável. Claro, por orgulho não gostamos de ler coisas assim ou de pensar na actualidade destas críticas.

3 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (47)”

  1. Concordo consigo em absoluto. O nosso comandante, Pedro Tecnoforma Coelho, nafragou o país, muito embora o tivessem avisado de que tal ia acontecer, porém, qual indomável aventureiro, seguiu em frente, em direcção aos escolhos. Agora, já com o seu lugarzinho garantido quando sair do governo numa qualquer empresa privada para a qual ajudou a arranjar negócios, vai ficar a ver, confortavelmente sentado, o país a afundar. Há, de facto, coisas que nunca mudam.

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