O racista cego


escafandro,

Era racista mas uma doença deixara-o cego. Depois disso tinha imensos problemas em manifestar o racismo às pessoas certas. Fazia-o por ouvido. Quando alguém lhe soava a negro – ou amarelo, pois era um racista abrangente – fazia comentários depreciativos, trejeitos de desagrado ou, nos dias de maior comedimento, afastava-se. Normalmente os alvos suportavam a atitude com estoicismo. De resto, que poderiam fazer? Esmurrar um cego?

Enganava-se imensas vezes – não apenas porque os círculos em que se movimentava eram quase exclusivamente caucasianos mas também porque as pessoas o evitavam ou então se divertiam às suas custas, imitando sotaques africanos ou orientais. Chegaram a trocar-lhe a bengala branca por uma pintada de preto. Andou com ela vários dias, gerando hilariedade nos que o conheciam mas correndo riscos sérios de ser derrubado num passeio ou atropelado ao atravessar a rua, uma vez que muitos transeuntes e automobilistas  não se apercebiam da sua condição de cego.

Como seria de esperar, a dada altura ele começou a aperceber-se das partidas. Isso não o tornou mais prudente. Pelo contrário: aumentou-lhe a paranóia. Recusou um cão-guia com medo que lhe arranjassem um com pêlo preto ou de raça estranha (ninguém chegou a perceber que raças eram aceitáveis mas ficou evidente que abominaria ser guiado por um cão de água). Justificando-se com a premissa de que «quem apoia a perda da identidade branca não merece respeito» insultava toda a gente. Como nem sequer conhecia outros racistas assumidos, não abria excepções. Alguém afirmou um dia: «É uma besta mas, desde que perdeu a visão, bastante igualitária.» Vai-se a ver e descobre-se aqui uma lição de moral.

6 comentários em “O racista cego”

  1. E se, com um pouco de ginástica mental e imaginação transpuséssemos esta atitude do cego (perdão, invisual) para a política, e para uma maioria confortável dos comentadores da blogosfera?
    É que eles agridem outros de forma injustificada, gratuita e, tantas vezes, estúpida apenas devido à cor da «pele» ideológica dos interlocutores.
    Como se tivéssemos todos de pensar da mesma maneira e não fosse possível atingir um grau de normalidade nas discussões que seja consentâneo com o percurso de civilidade que as sociedades têm feito.
    Às vezes até parece que se está a regredir a épocas bem obscuras da história humana.

  2. Desgraçado de cego. Só lhe falta descobrir que é negro, amarelo ou às bolinhas. O(s) gajo(s) é(são) tudo o que odeia(m).

  3. Este, era cego em todos os sentidos. Também por aqui há muitos cegos que não querem ver e muitos que só querem ver, aquilo que lhes interessa. Outros há que a cegueira é tal que não quando não lhes dizem sim senhor, concordo em absoluto, são rotulados de não saberem nada e muitas vezes de mentecaptos. É assim que hoje se rege esta sociedade hipócrita e completamente cega e surda, quando não lhes interessa ouvir, o outro que muitas vezes está cheio de razão……

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