Outros tempos, outros sons


Pedro Correia,

 

Naquele tempo quase tudo se importava em termos musicais. Havia os Shadows portugueses, o Elvis português, os Beatles portugueses.

O Elvis era o célebre Victor Gomes, que actuava com os Gatos Negros. Gozou de fama efémera mas fulgurante como divulgador do rock n’roll na cinzenta Lisboa salazarista.

Há um episódio que Luís Pinheiro de Almeida relata no seu livro recém-surgido, Biografia do Ié-Ié. Ocorreu em 1964, quando Victor Gomes fez parar o trânsito na capital com um espectáculo ao ar livre perante milhares de pessoas na praça do Saldanha. Antes dos primeiros acordes foi chamado ao gabinete do empresário Vasco Morgado, proprietário do Teatro Monumental, ali situado. No gabinete estavam três agentes da PIDE, que lhe disseram: “O menino não vai cantar canções de protesto.” Resposta pronta do Elvis português: “Eu? Eu quero é rock.” E obteve luz verde.

Este episódio ilustra bem o que era aquele Portugal de há meio século onde o rock — canção de protesto por excelência nos EUA e no Reino Unido — servia essencialmente para descarregar alguma adrenalina, funcionando como válvula de escape tolerada pela ditadura. De tal maneira que no palco desse mesmo Monumental a entidade promotora do Concurso Ié-Ié — “provavelmente o maior festival de música jamais realizado em Portugal” — foi o Movimento Nacional Feminino, instituição por excelência do regime, pilar do “esforço de guerra” desenvolvido pelas forças armadas nas três frentes africanas.

Por lá passaram os Beatles portugueses — os Sheiks, formados por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Chaby e Edmundo Silva. E 73 outros “conjuntos”, como se designavam as bandas daquela época. Incluindo os Jets, que tinham na bateria João Alves da Costa, futuro jornalista d’ A Bola. E os Rapazes, que tinham como viola-solo António Santos, mais tarde jornalista da RTP e assessor de imprensa do primeiro-ministro António Guterres. E os Deltons, com Fernando Tordo como vocalista e viola-ritmo. E os Rebeldes, que contavam na voz e viola-solo com um tal Fausto Bordalo Dias, oriundo de Nova Lisboa (Angola) e então mais conhecido por Carlitos Dias.

 

 

Eram outros tempos, outros hábitos, outros sons. Os tempos gloriosos do ié-ié — moda passageira, como todas as modas. Que parece ter sido boa enquanto durou, em perfeito contraste com a modorra ditatorial de um regime que parecia amarrado à eternidade. O mérito de Luís Pinheiro de Almeida, além da informação torrencial que nos proporciona nesta obra, é de através dela dar-nos também um vislumbre de uma década irrepetível, a dos anos 60, que decorreu sob o signo da mudança um pouco por toda a parte. E a música popular, entre outros méritos, tem também este: o de antecipar mudanças.

Portugal abria-se enfim a um certo cosmopolitismo de superfície: vinham aqui actuar vedetas da chamada “canção ligeira” e de outras áreas musicais: Charles Aznavour, Johnny Halliday, Sylvie Vartan, Gilbert Bécaud, Rita Pavone, Cliff Richard, Adamo, Françoise Hardy, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Louis Armstrong.

Paul McCartney, de férias no Algarve, compunha um tema numa noite de copos no bar do Penina, oferecendo a improvisada canção ao conjunto residente naquele hotel: os Jotta Herre, que adquiriram fama instantânea graças a essa canção, intitulada “Penina” — com versões em Espanha, França, Brasil, Holanda, Itália e Chile.

Os Sheiks — assim chamados porque os seus membros haviam gostado imenso do filme Lawrence da Arábia — chegaram a gravar em Paris, tendo sido convidados a actuar no Olympia. A carreira internacional gorou-se porque os pais de Carlos Mendes exigiram que o filho regressasse a Lisboa para concluir o curso de Arquitectura. Mas um dos temas mais conhecidos do conjunto, ‘Missing You’, atingiu em 1967 o oitavo lugar do top parisiense.

 

O termo ié-ié (popularizado em França no programa radiofónico Salut les Copains que depois se tornaria também nome de revista) generalizou-se entre nós até ao final dessa década de 60 quando começou a ser considerado “piroso”, dando lugar a outras designações, já sob influência anglo-saxónica — pop, soul, folk, rock.

E teve sempre detractores, à esquerda e à direita.

Os mais conservadores indignavam-se contra aquilo a que chamavam “batuque de pretos”. Na trincheira oposta, José Afonso dava voz ao que muitos intelectuais pensavam insurgindo-se desta forma: “O ié-ié representa a expressão de um processo de decadência de uma sociedade. (…) Posso classificar o ié-ié como um ritual do ‘chinfrim’.”

No entanto, o guitarrista que mais acompanhou José Afonso, Rui Pato, “não deixou de fazer, também ele, uma perninha no ié-ié”, integrado nos Beatnicks, que começaram a abrilhantar bailes estudantis em 1962/63. E Luís Cília, nome ligado aos primórdios da canção de protesto e ao Partido Comunista Português, também entrou na música como intérprete de rock n’roll.

 

Biografia do Ié-Ié transporta-nos a essa década de profundas transformações em que a música teve um papel pioneiro.

Uma década em que também a rádio contribuía para abrir mentalidades. Com programas que deixaram excelente memória em várias gerações de ouvintes: a emblemática 23ª Hora, iniciada em 1959 por Joaquim Pedro, Matos Maia e João Pedro Baptista, aos quais se juntariam João Martins (o nome mais associado ao programa), Fernando Curado Ribeiro, Amando Marques Ferreira e Carlos Cruz; Em Órbita, que em 1965 estreou a frequência modulada do Rádio Clube Português, com realização de Jorge Gil, Pedro Albergaria e do malogrado João Manuel Alexandre, tendo em estúdio a voz de Cândido Mota e mais tarde as de Pedro Castelo e João David Nunes, entre outros. Página 1, também na Renascença, iniciado em Janeiro de 1968 e por onde passaram José Schnitzer, José Manuel Nunes, Luís Paixão Martins, José Duarte e Adelino Gomes, só para mencionar alguns.

Eram tempos em que a censura retalhava um disco inteiro do Quarteto 1111, liderado por José Cid, que em 1958, quando ainda era conhecido por José Cid Tavares, integrou em Coimbra os Babies, “primeiro conjunto português de rock”. O LP inaugural do quarteto, intitulado Quarteto 1111, foi retirado do mercado por ordem das autoridades. Basta enumerar os nomes de algumas faixas para se perceber porquê: “João Nada”, “Domingo em Bidonville”; “Trova do Vento que Passa”; “Maria Negra”; “Lenda de Nambuangongo”; “Escravatura”; “Pigmentação”.

O álbum Epopeia, editado em 1969 pela Filarmónica Fraude (que incluía António Pinho, futuro mentor da Banda do Casaco), muito aplaudida à época, tinha uma capa desenhada pela artista Lídia Martínez, que assinou Lídia 69. O disco passou no crivo da censura, mas a assinatura não: a indicação do ano foi cortada. “Eu, ingenuazinha, nem fiz de propósito, sabia lá o que era 69, era uma abelhinha”, lembra Lídia Martínez, hoje bailarina em Paris.

Outros tempos, na verdade.

De tudo isto se fala aqui também.

 

Biografia do Ié-Ié. De Luís Pinheiro de Almeida (Documenta, 2014).

327 páginas

Classificação: ***

20 comentários em “Outros tempos, outros sons”

      1. Foi no “cinzentismo” do Salazarismo e da ditadura que os cinemas de Lisboa foram construídos, aqueles que a aristocracia socialista hoje chora lágrimas de crocodilo.

        É um contraste abismal entre as fotografias escolhidas pela política – oops! jornalismo – para retratar essa época e as outras fotografias, as normais.

        1. Foi no cinzentismo do salazarismo-marcelismo que quase todos estes grupos musicais se dissolveram: aqueles jovens eram forçados a combater em África, numa guerra interminável, sem solução política à vista.
          Foi no cinzentismo do salazarismo-marcelismo que um disco do Quarteto 1111, liderado por José Cid, foi retirado do mercado (isto é, proibido): a ditadura tinha medo de um punhado de canções alegadamente “subversivas”, criadas por um músico mais tarde considerado de “direita”.
          Foi no cinzentismo decrépito do salazarismo-marcelismo que uma capa de um disco editado em 1969 teve de ser alterada, por pressão da censura, simplesmente porque lá se lia o número… 69.

    1. O cinzentismo do antigo regime tinha dias. P. ex. as “tardes ié-ié” no Monumental, eram verdadeiros raios de sol que iluminavam as adolescências da época. Foram lá revelados muitos grupos que ninguém conhecia, inclusivamente da provincia, que tiveram ali a possibilidade de se darem a conhecer.
      Hoje a rádio não tem a importância que tinha nesses tempos porque temos à disposição milhares da canais de tv e a internet. O Pedro menciona no seu post vários programas da rádio fantásticos que atravessaram os 60’s: 23ª Hora, grande companheira de noites de estudo e de viagens, o lendário Em Órbita, especialmente nos anos em que foi apresentado pelo Candido Mota, e a Página 1, que foi a resposta da Rádio Renascença, que não tinha FM, ao Em Órbita do RCP.
      Estes e outros programas de rádio, com a música que passavam e cada um à sua maneira, eram a porta de entrada das lufadas de ar fresco que vinham lá de fora, e que tão bem nos sabiam.
      Gostaria de fazer uma referência à Filarmónica Fraude, que apareceu com duas musicas : uma nova versão de uma velha canção de embalar e que se chama “O Menino”, e a fantástica “Animais de Estimação” com uma letra de critica social, que se mantém muito actual ainda hoje, e que estou para saber como é que a censura deixou passar. Tive oportunidade de os ver ao vivo várias vezes em bailes de finalistas, e faziam a mais fantástica versão ao vivo de “Seasons of the Witch” que alguma vez ouvi.

      1. Agradeço-lhe muito o seu comentário, Alexandre. Porque tem muito a ver com o espírito do tempo retratado neste livro. Arrisco dizer que, se por acaso ainda não o leu, gostará certamente de o ler.

  1. Como se fosse hoje. A música que abria o Page 1, era uma com o mesmo título dum grupo do Porto o Pop Five Music Incorported. Estes se tivessem nascido na América……..

    1. Isso mesmo, Singularis. Estive para destacar esse pormenor, relativo aos Pop Five Music Incorporated, mas acabei por cortar pois o texto já estava a tornar-se demasiado longo.
      Garanto-lhe que se ainda não leu este livro do Luís Pinheiro de Almeida vai gostar certamente de o ler.

  2. Aqui está um tema onde estamos completamente de acordo. Este post está excelente, é ele mesmo quase um novo livro sobre os anos 60 em Portugal, ou pelo menos nos centros urbanos. Acho este livro indispensável para quem viveu a época, mas mais ainda para quem não a viveu mas se interessa por estas coisas, como eu. A questão do cinzentismo salazarista era real, e daria pano para mangas, numa próxima oportunidade.

    1. Um duplo agradecimento, AD.
      Pelas suas palavras e porque a verdade é que sem você este texto não existiria. Recomendo a todos vivamente o livro do Luís, não só pelos copiosos conhecimentos musicais de que dá mostras (o que eu aprendi nestas páginas…) mas sobretudo pela recriação que faz de uma época que é a todos os títulos irrepetível: não houve uma semelhantes antes, nem nunca mais haverá outra sequer remotamente parecida com essa.

      Um dia hei-de escrever algo mais profundo e consistente sobre a blogosfera. A possibilidade de trocarmos ideias, experiências e contactos – mesmo com gente que pensa de maneira muito diferente – é absolutamente inestimável. Isto só é possível quando escrevemos num meio em que aquilo que mais importa é comunicar. Não para convencer ninguém, mas para persuadir. Não para exibir códigos tribais, mas para captar sinais de outras “tribos”. Nada a ver, portanto, com os eflúvios narcisistas agora tão em voga com a febre das “redes sociais”.
      Isto, de algum modo, aconteceu connosco. Pensamos de forma muito diferente nas mais variadas matérias – da política ao futebol. Mas conseguimos, apesar de tudo, manter pontos/pontes de contacto. E descobrir, a partir daí, interesses comuns. Sem prejuízo de continuarmos a cultivar e a esgrimir as nossas divergências.
      Se há coisas que para mim valem a pena, esta é uma delas.

      Um abraço.

      1. A blogosfera tem a vantagem de nos permitir comunicar com mais gente e ultrapassar facilmente as distancias geográficas, mas continuam a ser pessoas a comunicar entre si através de um meio de comunicação, nada mais do que isso. Sempre me estimulou mais falar e esgrimir argumentos com quem tem ideias diferentes das minhas, do que trocar impressões com quem partilha das minhas ideias, por isso mais facilmente frequento blogues de clubes que não o meu ou que defendam ideologias diferentes da minha. Tendo sempre como princípio o respeito acima de tudo, felizmente, para mim, as poucas vezes em que num diálogo comigo houve falta de respeito, nunca foi pela minha parte, e isso é um ponto de honra deste Anónimo. De resto, foi um prazer poder colaborar, e foi também interessante e agradável a conversa que pudemos ter frente a frente, que continua a ser o melhor meio de comunicação existente.
        Cá estarei pronto para as próximas “picardias”.

        Abraço

  3. Muito bom o texto. Vivi esses tempos e o retrato da época está exacto. No entanto, creio haver uma retificação a fazer: antes do Em Órbitra, no FM do Rádio Clube Português existiu um programa chamado Ritmo 64, que foi onde pela 1ª vez ouvi o fantástico PJ Proby e o magnífico som de grupos como os Them de Van Morrison, os Kinks, e muitos outros entre os quais os Zombies. E, pasme-se ou não, tenho quase a certeza que a 1ª música transmitida pelo Em Órbita (exceptuando evidentemente o Revenge introdutório do programa) foi o She’s not there, dos Zombies.

    1. Obrigado pelo seu contributo, Victor Manuel. Vou fazer uma ligeira alteração no meu texto, aproveitando a achega que aqui nos traz. Já percebi que este tema é como as cerejas: pode redundar em conversas intermináveis. Um blogue também serve para isto, fico portanto satisfeito.

      1. É para mim sempre um prazer intervir em assuntos que digam respeito à década dourada, uma vez que foram tempos que vivi com muita intensidade – e alguma inconsciência à mistura, própria da adolescência – e que recordo sempre com alguma saudade. Especialmente no que diz respeito à vertente musical, uma vez que considero essa época irrepetível no aspecto criativo, inovador.
        E do que me recordo, creio que o primeiro locutor do Em Órbita também foi o Pedro Castelo, ele que já era a voz do Ritmo 64. Este programa, muito esquecido mesmo pela geração dos 60, foi o que efectivamente me abriu os horizontes da música que então se fazia em Inglaterra, e da qual e até então, eu só conhecia os “meus” inevitáveis Fab 4, os Stones, na sua fase que continua a ser a minha preferida, ou os Animals, com a sua House of the rising sun repetida em todas as estações de rádio até à exaustão. Mas a verdade é que o Ritmo 64 foi uma espécie de percursor do Em Órbita, e embora menos estruturado, com a mesma linha musical inovadora e de divulgação da nova música vinda da swinging London, que em breve se tornaria o sonho de viagem de qualquer melómano adolescente lisboeta

      2. Nada a agradecer. É um gosto regressar à década prodigiosa que coincidiu com a minha infância/adolescência. E mais, indo buscar ao baú de recordações um programa muito esquecido. Injustamente, uma vez que foi ele o tubo de ensaio, a rampa de lançamento do Em Órbita. Por vezes a memória prega-nos partidas, mas tenho quase a certeza que o locutor que fazia o Ritmo64, Pedro Castelo, transitou para o Em Órbita, sendo ele a sua 1ª voz. Em termos musicais, foi como se sucedesse somente um mudança de nome e de horário, mantendo-se a mesma linha. A grande diferença foi mesmo de estrutura ideológica que o Ritmo64 não tinha, ou pelo menos não era expressa verbalmente.

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