Presidenciais (2)


Sérgio de Almeida Correia,

Faz agora três meses que o assunto começou a ganhar força. O pretexto foi o lançamento de um livro, devidamente enquadrado por uma entrevista à Sábado e, que me recorde, uma notícia do i. Entretanto, Santana Lopes também assomou fugazmente à varanda. No passado dia 12 de Agosto foi a vez do Público retomar o assunto. De mansinho, enquanto não disparam os nobres e as aves de capoeira, os presidenciáveis começam a ocupar os seus lugares.

António Guterres tem vários pontos a seu favor. Não é um arrivista, tem educação – coisa que muitos políticos no activo não têm -, apresenta pergaminhos académicos insusceptíveis de discussão nas primeiras páginas de alguns jornais que misturam assuntos sérios com o silicone que levou ao rompimento de noivados, possui experiência governativa, não fala com a boca cheia, não usa fatos castanhos, consegue comunicar em várias línguas, e, o que não é desprezível, sabe ler e escrever em português decente. Para além disso, é reconhecido fora de portas, mostra um currículo com uma vasta experiência internacional e os pergaminhos de uma carreira na ONU à frente de um cargo particularmente difícil e exigente como é o ACNUR. Acima de tudo, tal como Santana Lopes, é um homem sério, não constando que ande por aí a amealhar para a reforma e as peúgas com as acções que o primeiro vendedor de castanhas lhe ofereça.

Contra si pesa, ainda, a imagem que deixou quando bateu com a porta do Governo e do PS, após umas autárquicas pouco conseguidas, uma proximidade à Igreja Católica vista por alguns sectores como excessiva, para já não falar na dificuldade que tem em fazer contas complicadas com microfones à frente.

Todos sabemos que as funções presidenciais são bem diferentes das de um primeiro-ministro, e que o facto de um indivíduo não ter sido um excelente primeiro-ministro, com excepção de um caso conhecido, não o transforma num Presidente sofrível. Em especial se tiver um mínimo de bom senso, a noção de que a Terra é redonda e de que o Sol não gira à volta do Palácio de Belém.

Guterres tem boa imprensa – tal como Cavaco Silva no seu tempo e Passos Coelho ainda mantém -, mas para conseguir ser bem sucedido vai ter de se afastar da imagem que deixou no espírito de muitos portugueses de ser um “mole” demasiado palavroso. O ACNUR deu-lhe outra dimensão e mostrou que é um homem que não foge à luta, sendo capaz de compreender a dimensão do sofrimento humano. Quanto à segunda parte, se quiser fazer o caminho, vai ter de ser mais poupado nas palavras de cada vez que tiver de falar. 

14 comentários em “Presidenciais (2)”

  1. Deixe-me dizer-lhe, como católico, que não sei se Guterres possui uma excessiva aproximação à Igreja Católica ou se é a Igreja Católica que fatalmente se tentou aproximar de alguns católicos.
    Mas a esta fatal aproximação da Igreja Católica a alguns católicos também não é alheio o facto desta mesma Igreja se ter aproximado fatalmente de correntes ditas intelectuais para desviar-se da essência de seu compromisso missionário e apostólico.

    Quero com isto dizer-lhe que a Igreja tem um compromisso Universal, mas compromisso este que não renegue os fundamentos do que lhes foi atribuido. Para ser ainda mais preciso, quero dizer-lhe que o erro da Igreja Católica foi perder o seu sentido sacerdotal (de serviço) para se transformar numa hierarquia de doutores e numa clientela de paróquias.
    É assim que os bons pastores deixam de ser alimento para as ovelhas e transformam as ovelhas no seu próprio alimento.

    Já S. João da Cruz, no seu cântico espiritual, fazia uma séria advertência a todos nós. Foi esta:
    «Advirtam pois aqui os que são muito activos e que pensam abraçar o mundo com suas pregações e obras exteriores, que dariam muito mais proveito à Igreja e agradariam muito mais a Deus, aparte o bom exemplo que dariam, se gastassem sequer a metade desse tempo com Deus na oração (…). Certamente fariam então mais e com menos trabalho com uma obra que com mil, merecendo-o a sua oração e tendo cobrado forças espirituais nela: porque de outra forma tudo é martelar e fazer pouco mais que nada e às vezes nada e até às vezes dano. Porque Deus os livre que se comece a desvanecer o sal, pois embora pareça exteriormente que fazem alguma coisa, em substância não fazem nada, certo como é que as boas obras não se podem fazer senão com a virtude de Deus.».

  2. Muito boa tarde. Em 8 de Julho, 1996, não devia fazer parte da boa educação cumprimentar quem o estava a receber. António Cabral

  3. Proclamar como mais ou menos “recomendáveis” candidaturas à Presidência da República de personagens com laivos de origem partidária … traz água no bico.

    Já se viu -infelizmente e com “um saber de experiências feito”- que um PR tem que ser alheio, completamente alheio, á partidarite aguda em curso.
    Talvez isso corrija e salve o presente sistema político….

    Insistir na tecla do “isento” partidocráta escamoteia, com tristes resultados, o que está (ou devia estar) atrás da definição do cargo de PR.

    Descrever uma palhaçada é uma coisa. Qualificá-la é outra, mais responsável.

    1. JS,

      Não recomendo ninguém. Era só o que faltava.
      Pronuncio-me sobre quem aparece, quando penso que é oportuno pronunciar-me.
      E como não gosto de aves, muito menos de arribação, só uso a água para me lavar. É tudo cristalino.

  4. Relembrando o insuspeito Medina Carreira : ” O problema do Eng.Guterres é a falta de carácter.”
    O vergonhoso episódio de Julho de 96 corrobora-o plenamente.

  5. E eu a pensar que este tinha deixado o país num pântano e fugido!
    Agora são boas credenciais para ser presidente da república?

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