
Como não podia deixar de ser, houve imediatamente uma série de comentadores que cantaram loas e hossanas à intervenção do Estado no BES. Uma análise mais atenta tornaria, porém, evidente que a solução arranjada pelo Banco de Portugal, e depois aprovada pelo Conselho de Ministros reunido na praia, tem mais buracos do que o próprio buraco do BES. Neste momento, os primeiros sacrificados, os outros bancos, já se começaram a mexer. Cá para fora saiu que propuseram aumentar a sua contribuição para o Fundo de Resolução, mas a realidade é outra. Os bancos querem substituir a contribuição extraordinária de 133 milhões que lhes pediram por um empréstimo de 635 milhões. A razão parece óbvia. Os bancos não querem abrir o precedente de uma contribuição extraordinária para o Fundo, sabendo que depois lhes irão pedir o restante. Um simples empréstimo parece melhor no balanço dos bancos, já que compromete o Fundo com a sua futura restituição, e permite dizer cá para fora que o Estado até está a comprometer-se menos, quando afinal os bancos ficam seus credores.
Este é o principal problema da salvação de bancos na zona Euro. É que o dinheiro que vai para um lado fica a faltar no outro. Na crise de 2008 os EUA colocaram 800 mil milhões de dólares para salvar os bancos americanos, mas o Estado americano pode imprimir dólares e desde então não parou de fazê-lo. Na zona Euro, com a impossibilidade de os Estados ligarem as rotativas, a salvação dos bancos é um jogo de soma zero. O dinheiro que vai para os bancos, ou fica a faltar no orçamento de Estado, ou vai ficar a faltar nos outros bancos. Ora, como estes nos últimos tempos só têm declarado prejuízos, se lhes for pedido que entrem com o dinheiro que o Estado meteu no Fundo, provavelmente ficarão tão mal como o BES ficou. O Fundo de Resolução pode acabar assim por funcionar por repartir o buraco do BES por toda a Banca. Resta saber se ela aguenta. Estão em causa 4.900 milhões de euros. Para se perceber a dimensão desse valor, faça-se o exercício de o converter em segundos. Um milhão de segundos são 12 dias, mas mil milhões de segundos já são 32 anos. 4.900 milhões de segundos são 156 anos.
Claro que há previsões optimistas que dizem que o Novo Banco pode ser vendido até ao fim do ano por esse valor. Devo dizer que isso me parece um sonho de uma noite de Verão. O BES valia na sexta-feira passada em bolsa cerca de 12 cêntimos por acção. Já perdeu a marca, que só por si valia 640 milhões, e com isso um investimento publicitário constante de há décadas. Alguma vez o anódino Novo Banco pode valer 4.900 milhões para um comprador? Só se aparecer Jesus Cristo e fizer um novo milagre da multiplicação dos pães, neste caso dos euros. Acrescentemos a isto a infinidade de lítigios judiciais que vão surgir contra o Novo Banco e mesmo contra o próprio Estado, como já se anuncia. É preciso não esquecer que a segurança do BES tinha sido garantida há menos de duas semanas pelo Governador do Banco de Portugal, pelo Primeiro-Ministro e pelo próprio Presidente da República. Não me parece muito fácil que o Estado consiga depois disto lavar as mãos como Pilatos dos prejuízos dos accionistas que ele próprio decidiu lançar às feras.
Angela Merkel, que pode ter muitos defeitos mas não é parva, já avisou que o caso do BES evidencia as fragilidades na zona Euro. Na verdade, o caso do BES constitui uma tempestade perfeita que atingiu Portugal. E enquanto isso o Primeiro-Ministro mantém-se tranquilamente de férias na praia. Mas, para falar a verdade, nem se tem notado a sua falta.

Eu percebo a azia do comentador por não se ter escolhido uma solução ao estilo do BPN
Esta solução é praticamente idêntica à do BPN. A única diferença é que meteram no meio um Fundo de Resolução sem fundos, e há a promessa de que os Bancos paguem esta quantia, promessa que os próprios já rejeitaram. Tudo o resto é o mesmo. O dinheiro público vai salvar um banco privado.
Sim igualzinha. A cegueira anti-Governo chega a ser patetica
Dizer que a solução encontrada para o BES e a nacionalização do BPN são uma e a mesma coisa, das duas uma, ou é de uma grande desonestidade intelectual, ou é pura ignorância.
É verdade, há dinheiro do estado metido nos dois lados. Mas as semelhanças acabam aí (se é que isto se pode chamar semelhança).
No BPN, o estado “comprou” todas as acções do BPN e assumiu todos os seus activos (poucos) e passivos (incluindo os futuros, que à altura ainda não estavam contabilizados) ao passo que a SLN esfregou as mãos de contente e livrou-se de um banco que tinha um buraco gigantesco, sendo exonorada de quaisquer outras responsabilidades. O dinheiro do estado entrou directamente no banco, a fundo perdido. Depois de injectar milhares de milhões de euros (e pode ainda vir a pagar mais) teve um retorno de meia dúzia de patacas com a venda do banco.
No BES, o estado emprestou dinheiro ao Fundo de Resolução ( ou seja, a todos os bancos que operam em Portugal) e não directamente ao “Novo Banco”. Quer o Novo Banco seja vendido, amanhã, daqui a 15 dias, ou daqui a 3 anos, seja por que valor seja, caso esse valor seja inferior ao pago pelo estado, o Fundo de Resolução terá de honrar o compromisso com o estado. No entratanto, o estado recebe os juros (baixos, mas juros na mesma). Ao contrário da SLN e demais accionistas do BPN que ficaram felizes e contentes, os accionistas do BES ficaram a arder. Porque na sexta eram accionistas de um banco com um buraco gigante, mas ainda com alguns activos de peso, e no domingo ficaram accionistas do buraco apenas (ainda é preciso clarificar o que fica de um lado e do outro, mas em termo genéricos é isto).
Há risco para os contribuintes, claro. É comparável com o BPN? Nem por sombras.
É a melhor opção? tudo indica que sim. Porque por muito que algumas pessoas protestem contra esta solução (oposição, alguns presidentes de bancos), são parcos a enunciar uma alternativa melhor, nem se atrevem a lançar uma sugestão.
Esquece que o Fundo de Resolução não tem dinheiro para devolver ao Estado o empréstimo. Por isso, o Estado só recuperará o dinheiro se vender o novo Banco por 4.900 milhões de euros. Por isso a solução é idêntica. Se o BPN tivesse sido vendido pelo dinheiro que o Estado lá meteu, também não tinha havido prejuízo pois o Estado fez suas as acções pelas quais não pagou nada. Só que o BPN foi vendido por 40 milhões de euros. Quanto vale hoje o Novo Banco para um comprador ninguém sabe, ainda mais envolvido nos litígios que vão surgir. E por isso obviamente isto é um péssimo negócio para o Estado.
Errado mais uma vez, o dinheiro “deu” o dinheiro ao Fundo de Resolução e não ao Novo Banco.
Se o tivesse dado ao Novo Banco, i.e. Nacionalizado, só recuperaria o dinheiro se o vendesse pelo mesmo dinheiro que lhe injectou. Isto foi o que aconteceu a BPN.
Por outro lado, bem diferente, é o facto de o estado de “dado” o dinheiro ao Fundo de Resolução – a todos as entidade financeiras a actuarem neste país – a não ser que os banco vão todos à falência, e nesse caso teremos outras coisas com que nos preocupar para lá dos 4 mil millhões, estes ficam obrigados, a pagar o que devem ao estado; mesmo que o Novo Banco seja vendido por 5€ ao zé da esquina.
Achar que as duas situações são iguais é no mínimo peculiar.
Continuamos a escrever na água. Como já aqui referi várias vezes, o facto de este processo ser o anti-BPN está a deixar muita gente chateada. Chega a ser patético ouvir os comentários televisivos, como ontem à noite na TVI24, onde toda a gente concorda com a solução, mas todos acham que se cometeram muitos erros pelo caminho, e que isto vai acabar mal; parece que não lhes chegou os mais de sete mil milhões que temos estado a pagar por causa da incompetência, para não lhe chamar outra coisa, de Victor Constâncio, Teixeira dos Santos e José Sócrates.
Tudo isto não pode ser visto a preto e branco, nem com paixões politicas, porque é evidente que existe a possibilidade de correr mal. Mas em face do que é do conhecimento público, não estou a ver como é que se podia resolver o problema de outra maneira, sendo certo, como dizia o outro, que quem fizer o totobola à 2ª feira acerta sempre.
Ouço criticar o governador do Banco de Portugal e o governo, mas não vejo ninguém criticar a má gestão dos Espirito Santo, com Ricardo Salgado à cabeça, que levaram o maior grupo financeiro português à falência. Se calhar porque apesar de tudo o respeitinho continua a ser muito bonito.
Imagino as voltas que o Manuel Ricardo tem dado na tumba nos últimos tempos.
Ainda não sabemos o resultado mas já o podemos prever. Quanto ao facto de isto ser o anti-BPN, só de anedota. A única diferença é que pelo meio surge um Fundo de Resolução sem fundos e há a tentativa de atirar isto para os restantes bancos, que eles já rejeitaram. O resto é igual. Os accionistas do BPN também ficaram sem um tostão. E quanto à gestão anterior do BES, a mesma não impede que se critique as fragilidades da solução encontrada. Que já estão à vista de todos.
Os prejuizos do BPN têm sido pagos pelos contribuintes, os prejuizos do BES ficaram com os accionistas e o senhor diz que é a mesma coisa? Os accionistas do BPN ficaram sem um tostão? Então a SLN era o quê? Mesmo não considerando o dinheiro que desapareceu do banco, os accionistas do BPN ficaram todos ricos, e viram-se livres de um cancro pago com o dinheiro dos contribuintes que era um banco descapitalizado pelos desmandos dos respectivos accionistas: foi um fartar vilanagem.
Já ouvi muita gente dizer que o estado não vai recuperar o dinheiro meteu neste Novo Banco, normalmente os mesmos que diziam há três anos a mesma coisa do BCP e do BPI, ainda não ouvi foi nenhuma explicação coerente e fundamentada, são apenas palpites e estados de alma; então um banco que tem 20% do mercado bancário em Portugal não vale nada?
Esta campanha de raiva e irracionalidade que anda a ser conduzida nos media e nos blogs, chega a ser patética. Uma tristeza.
Os accionistas do BPN não receberam um tostão pelas acções, da mesma forma que os accionistas do BES. É verdade que os donos da SLN mantiveram os seus activos, mas o mesmo sucede com as empresas do GES.
Não sabemos quanto o Novo Banco vale. Sabemos que o Estado lá meteu 4.900 milhões, que não sabe se vai recuperar. É muito dinheiro para se meter em algo que não se sabe quanto vale.
Convém perceber que este PREC 2 de Carlos Costa-Gomes parece mais ambicioso que o PREC de há quarenta anos.
No primeiro PREC o BES foi nacionalizado, mas os papalvos comunistas nacionalizaram tudo, em vez de ficarem só com a parte boa e deixarem as dívidas para os antigos donos.
Muito naïve!
Com Passos Coelho, já chamado o “Che de Massamá”, as coisas vão fiar mais fino. O povo fica com o miolo, o banco bom, e a côdea, o banco mau, vai ser pago pelos ricos.
Esta é a nova narrativa revolucionária, e até o PCP foi apanhado de surpresa.
Preparem-se os accionistas do BCP, BPI, etc… que a revolução está aí.
As forças do Banco de Portugal chegam. Carlos Costa-Gomes anuncia que o banco está com problemas, e já está. Nacionaliza-se a parte com os lucros, e a parte com as perdas vai ser paga pelos ricos accionistas.
Receita simples, revolucionária!
Não é assim?
Quem é hoje o dono do “Novo Banco”, da fatia “boa”?
Quem é hoje o dono do “BES mau”?
Pois, a nacionalização foi tão grotesca que até a UE se veio apressar a dizer que o “Novo Banco” era só um “banco de transição”, para que a mal amanhada narrativa não fosse vista como uma nacionalização, por intervenção arbitrária do Estado.
Ora, como não há almoços grátis, nem há Che de Massamá, eis o que antevejo:
1) O Estado injecta os 5000 milhões no Novo Banco, e vai vendê-lo por um valor inferior… seguindo a proporção BPN, deverá vender por 50 mihões, e provavelmente a investidores de Angola, ou da Guiné Equatorial, país amigo.
2) Tentará convencer os pequenos accionistas a um acordo mixuruca, porque o bolo seguinte, é só para verdadeiros glutões.
3) Segue-se o grande bolo. Os grandes accionistas vão mover um processo contra o Estado por ter nacionalizado o bom, e os ter deixado com o mau.
4) O Estado dirá então que só usará os proveitos da venda do Novo Banco para isso. Como esse valor será insuficiente, para além de perder os 5 mil milhões da troika, pela injecção mal parida e venda deficiente, terá que pegar em muito mais do orçamento de estado, para pagar essa indemnização.
5) Claro que isso já não será com este governo.
6) A família do Espírito Santo, bem como os credores e grandes accionistas, irão receber chorudas indemnizações pela nacionalização. Muito mais do que alguma vez poderiam ter recebido se o banco fosse vendido ao desbarato na falência. Além disso, podem voltar à narrativa de que foram vítimas de novo PREC, e que o banco se poderia ter salvo não fosse o Che de Massamá e a nacionalização de Carlos Costa-Gomes.
Neste contexto, o Estado português ficará imerso em dívidas nas próximas décadas… a menos que haja uma revolução a sério, e esta malta que anda a brincar connosco seja posta no seu devido lugar.
Ora aqui está mais um clamoroso erro do Banco de Portugal e do Governo em particular: — Não ter convidado o articulista para administrador do BES-NOVO!
Perder uma sumidade destas é crime!
… Os banhos do PM afectam ( e de que maneira) a cotação do BES!!!
Está muito enganado sobre mim. Não ando atrás de tachos e não tenho quaisquer pretensões a banqueiro. Precisamente por isso não preciso de andar a louvar o governo em blogues.
Excelente post. Estou 100% de acordo.
Não podia concordar mais. Aliás, dadas as respectivas dimensões, cabe na cabeça de alguém que o “salvamento” do BES seja mais economico que o do BPN?
Quando um jovem gosta da namorada, todos os seus (dela) defeitos lhe parecem virtudes; quando não gostamos de alguém, até as suas virtudes nos parecem defeitos.
Para o Menezes Leitão, que não gosta deste governo, tudo o que a actual administração do BdP faça, mesmo que seja bem feito, como está a acontecer no caso GES/BES, merece reprovação.
Há mais gente assim. É da natureza humana.
Acho que devia aplicar a primeira parte do seu comentário a si próprio. Já diz o povo que quem o feio ama, bonito lhe parece.
A minha relação com o Governo não é um problema de gosto. É apenas o desejo de que ele governe melhor. E especialmente que não castigue tanto os portugueses como tem feito.
Claro que o que escrevi também vale para mim.
Mas saiba que não amo este governo e que apenas é meu desejo que governe melhor do que o governo anterior. Que governe como fez agora para resolver o imbróglio GES/BES, adoptando uma solução muito diferente (e muito melhor, parece-me), da solução então adoptada para resolver o caso BPN. Só isto.
Mas o Menezes Leitão não concorda comigo e está no seu direito.
Qualquer não laranjinha percebe que nunca vão conseguir vender o Novo Banco pelo valor do empréstimo e percebe ainda melhor que os outros bancos não vão poder compensar o fundo que ficará em dívida ad-eternum e como tal os contribuintes que nada têm a temer vão ter que ser eles mesmo a pagar estes 5 mil milhões + juros à troika.
Entretanto os investidores gostaram tanto desta nacionalização que já temos um mini crash bolsista, só o BCP já vai em -8% hoje.
Mais um bocadinho e o resultado final vai ser a nacionalização de toda a banca nacional.
Vai-se a ver e afinal de contas quem sempre teve razão foi o PCP.
Para que não subsistam dúvidas, gostaria de reafirmar o que por várias vezes aqui no DO referi:
Este governo nunca governou, foi a troika que ditou as regras e eles fingiam que sim. E toda a gente sabe que esta troika tem responsabilidades no falhanço em apurar a real situação do sistema financeiro português, que sempre foram dizendo estar sólido.
Faço aqui um pequeno desvio somente para colocar em evidência a propaganda sobre a queda do desemprego. A pergunta que subsiste é a seguinte: E os 168.000 desempregados que foram enviados para cursos de “lavores” e deixaram de constar nas estatísticas de desemprego?
Vamos agora à questão que se coloca em seu post.
Na realidade em termos de desenho esta solução, que é da Europa e não do governo ou do BdP, é um bom desenho. E seria melhor se em vez do Fundo de Resolução o estado entrasse directamente na questão e procurasse assumir a angariação de accionistas para o Novo Banco, caso do CA mas também outros. Para evitar que outros bancos interessados em participar assumissem a necessidade de um aumento de capital que se avizinha incomportável, este dinheiro deveria ser entregue à CGD e assim fazer-se a participação do Estado por intermédio deste banco, que se comprometia a participar sempre no montante remanescente que não fosse subscrito por outros bancos ou accionistas. E aqui sim o juro devia ser a custo 0. Esta participação da CGD no Novo Banco manter-se-ia sempre que esta instituição entendesse que lhe era conveniente.
Acresce referir que a APB emitiu um comunicado a subscrever esta posição assumida por Bruxelas e também por Frankfurt, mas que dizem ser do BdP, aqui: sponivel-para-colaborar-com-fundo-de-res olucao-na-venda-do-novo-banco_199067.htm l
http://economico.sapo.pt/noticias/apb-di
Não entendo tanta polémica agora.
Sei que os ditos mercados andam nervosos, mas é necessário mão firme para que eles levem em definitivo com a mensagem que o regabofe acabou. E as empresas cotadas também devem compreender que toda a política económica do século XX, muito protegida pelos estados e até mesmo na não regulação, está a morrer.
É esta destruição criativa que sempre defendi. Mais ainda, este governo nada fez quer para evitar quer para resolver problemas. E até esta solução não é deles, mas parece-me que lhes interessa deixar que o governador do BdP crie todo o protagonismo para que eles não se comprometam. E aqui, eles mais uma vez revelam que só fazem o que lhes mandam fazer e não são capaz de agir firme.
Por favor, não me façam vir aqui mandar mais bitaites ou da próxima vez trago a minha mãezinha para pôr os mercados na linha.
Receba os meus cumprimentos.