Excerto (3)


Patrícia Reis,

 

I

 

Da cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela Professora Isabel da terceira classe, era amarrado à volta dos olhos da cabra-cega-A vítima que ficava acocorada, com os olhos escondidos pelo tecido, no centro de uma roda de mãos das outras crianças.

 

 «Cabra-cega, donde vens?»

 

«Venho da Serra.»

 

 «O que me trazes?»

 

«Trago bolinhos de canela.»

 

 «Dá-me um!»

 

«Não dou.»

 

“Gulosa, gulosa, gulosa…”

Repetia, incessante, o coro formado pelas crianças, numa lenga-lenga impiedosa renovada até à exaustão das lágrimas que acabavam por surgir ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

A Cabra-Cega levantava-se.

Se agarrasse alguém, todos se calavam. O pátio ficava mudo, os corpos pequenos permaneciam, por instantes, apenas por instantes, imóveis. Depois a Cabra-Cega para se libertar da sua condição precisava de adivinhar quem tinha conseguido aprisionar com as suas mãos miudinhas. Apalpando com os dedos, entre risos e cócega lá tentava adivinhar quem era o apanhado. Se acertasse, a venda mudaria de olhos.

 

Gostas do que vês?, Rute Coelho

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