Senti hoje vergonha, como português, ao ver o Presidente Cavaco Silva e o primeiro-ministro Passos Coelho na cimeira da CPLP, em Díli, que aclamou o ditador da Guiné Equatorial, ali presente na qualidade de dirigente de um novo estado-membro da organização.
Esta adesão adultera profundamente a essência da CPLP, comunidade de nações que têm por base o nosso idioma comum, um dos mais falados do mundo. Ora ninguém na Guiné Equatorial fala português — a começar por Teodoro Obiang, que assistiu aos trabalhos com auriculares que lhe asseguravam a tradução simultânea e no final, questionado pelos jornalistas, se limitou a dizer que se sentia “satisfecho”.
Como português, sinto-me envergonhado por verificar que somos os primeiros a desprezar a lusofonia — o poderoso traço de união que nos irmana com povos espalhados por diversas partes do mundo e com os quais mantemos afinidades de séculos — enquanto miramos, embasbacados, as virtualidades da “diplomacia económica” que fazem de qualquer facínora nosso interlocutor desde que tenha muitos barris de petróleo para exportar.
Se é a parceria económica que interessa, saibamos ao menos pensar em grande: porque não acolhemos desde já na CPLP a Índia e a China, em cujos territórios existem milhares de lusofalantes devido aos nossos vínculos históricos com Goa e Macau (para quem não saiba, a língua portuguesa mantém-se como língua oficial de Macau pelo menos até 2049)?
Sinto-me envergonhado, acima de tudo, por verificar que a partir de agora Portugal terá de dialogar em plano de igualdade com um dos maiores déspotas da história de África, há 35 anos no poder sem respeitar os mais elementares direitos humanos.
Ao integrar a Guiné Equatorial, a CPLP começa por violar as suas bases programáticas: o artigo 5º, nº 1, e) dos seus estatutos estabelece com clareza que a comunidade é regida pelo “primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, da Boa Governação, dos Direitos Humanos e da Justiça Social” (em iniciais maiúsculas no original).
Obiang esmaga a imprensa livre, esmaga a oposição, esmaga quem reivindica reformas no seu regime, um dos mais corruptos do planeta. Está na lista dos dez países com menor liberdade de imprensa do mundo, apresenta o quarto maior índice mundial de mortalidade infantil. E mantém em vigor a pena de morte, como têm denunciado organismos prestigiados — a começar pela Amnistia Internacional e pelo Observatório dos Direitos Humanos. «Corrupção, pobreza e repressão continuam a ser pragas na Guiné Equatorial sob o regime de Teodoro Obiang», salienta esta última organização num relatório elaborado já este ano.
O tirano está “satisfecho”, claro. Queria ser tratado como estadista e acabámos por fazer-lhe a vontade. Num idioma que ele nunca aprendeu e continuará a ignorar olimpicamente.
Uma vergonha, tudo isto.


Pois é, Pedro. Eu também estou francamente incomodado com o que se passou. Dirão alguns – com razão, aliás – que o Sr. Obiangue fica em boa companhia e pensado no nosso “patrão” angolano, se calhar até dá para fazer um pódio dos tiran-, perdão, “governantes” – há mais tempo no poder. Mas esses pelo menos falam Português, como aliás é o objectivo da CPLP.
Pegando no que disse, realmente porque não a China ou a Índia ou a Malásia? Sempre a justificação era mais fácil de engolir. Fiquei igualmente a saber, por um artigo do Observador que, e passo a repetição, países como a Turquia são observadores da CPLP. Desconhecia a propensão dos Turcos para a nossa língua – como desconhecia, aliás, a do Sr. Obiangue, até porque os seus escrav-, perdão, “cidadãos” – não são para isto chamados.
Dirão que se Portugal não levantasse o veto a CPLP se desintegraria. Às vezes mais vale manter a honra do que ficar como floreados. Por mim, a CPLP podia-se desintegrar à vontade.
Caro Carlos: prefiro pagar o preço da desintegração da CPLP a ver Obiang na mesa de honra da organização. Sinto como uma humilhação nacional ver o Presidente da República e o primeiro-ministro sentados àquela mesa. E o mesmo sucede ao ver grandes defensores de direitos humanos, como Dilma Rousseff e Xanana Gusmão, dobrarem a cerviz ao tirano de Malabo.
Dilma, que combateu a ditadura militar brasileira, abraça agora o ditador Obiang, tão repugnante como os generais e almirantes dessa era de triste memória no Brasil. Com uma agravante: Obiang já ocupa o poder há quase o dobro do tempo que durou a ditadura militar em Brasília.
Xanana, que liderou o povo timorense na luta contra o regime ditatorial do general Suharto e a ocupação ilegal de Timor-Leste pela Indonésia, devia ser o primeiro a pôr Obiang à distância. Lamentavelmente, pelo contrário, deu-lhe honras de astro-rei da política internacional na cimeira de Díli.
A ‘realpolitik’ justifica muita coisa. Mas não devia justificar tudo.
Também me senti humilhado, sensação que, infelizmente, não é nova. Acho humilhante que a ignorância de Cavaco chegue ao desconhecimento de quantos cantos há n’Os Lusíadas.
O problema não é só dele e devíamos pensar que não é possível ser um bom político se se for ignorante. Se olharmos para os grandes políticos, verificamos que foram intelectuais destacados.
De resto, apenas discordo consigo no que diz respeito à presidenta brasileira – que apoia ditaduras como as dos Castros e regimes como o da Venezuela. Creio que, ao contrário de se ter dobrado, o regime brasileiro foi conivente na entrada da Guiné Equatorial.
De facto, é profundamente decepcionante verificar que alguns proclamados defensores dos direitos humanos na sua própria terra são totalmente indiferentes à violação dos direitos humanos em terra alheia.
Dois pesos, duas medidas. Dilma Rousseff é um desses casos.
Muito bem, Pedro.
É com estas pequenas coisas que os políticos contribuem para que nós, portugueses, sejamos internacionalmente conhecidos como uma grande merda.
Volta Salazar, estás perdoado.
Não se inventa para aí uma Comunidade dos Países de Línguas Ibéricas, que ao menos teria o devido relevo mundial?
Pois: ao menos “ganhava-se escala”, como agora se diz. E o de Malabo ainda havia de sentir-se mais “satisfecho”.
Já era tempo de Portugal e Espanha se entenderem no isolamento a que foram vetados, pela real-politik alheia.
Aqueles encontros Ibero-Americanos são ridículos… no caso português retiram todos os países africanos e Timor. Mesmo em termos espanhóis, para além desta Guiné Equatorial, não incluem as Filipinas.
Por isso, a ideia Ibero-Americana é um projecto espanhol, na qual Portugal e mesmo o Brasil aparecem como apêndices. Imagino que os PALOPS nunca tenham apreciado essa faceta em que são excluídos pela geografia. Nisso, juntaram-se à Guiné Equatorial, única excluída de África pelo lado espanhol.
É preciso não deixar de ver este ponto, para entender também a pressão angolana. Ou seja, eu diria que Angola e os restantes PALOPS têm motivos para apoiar uma Guiné Equatorial – afinal estão excluídos do ibero-americanismo.
Foi referido que o site oficial, creio este:
http://www.guineaecuatorialpress.com/
continua sem ter como línguas de consulta o português.
Ora a questão nada tem a ver com o português…
A língua portuguesa apanhou um pontapé com o acordo ortográfico… ou seja, uma efectiva menorização da forma europeia (e africana) relativamente à brasileira. Portugal agachou-se e está a apanhar os pontapés na gramática, resultado de quem hesita perante o que é.
A língua portuguesa é numa certa perspectiva considerada como herança colonial, e assim a ligação a esse passado colonial não será propriamente bem entendida pelos anteriores estados. O Brasil certamente que não terá esse problema, porque se considerará tão herdeiro do português quanto Portugal. No entanto, a coisa não será tanto assim com os restantes.
Aquilo que interessa aos estados da CPLP é criar um lobby, e a língua portuguesa é apenas um pretexto. Retirando-a como necessidade, alargam o lobby para além da marca colonial. Angola terá especial necessidade de marcar essa posição.
O Pedro tem toda a razão em dizer que a CPLP deveria por maioria de razão ser agora estendida à Índia, à China, e até talvez à Malásia ou outros onde ainda haja algumas comunidades que falam alguma forma de português.
A questão será saber também se China ou Índia estão muito interessadas em recordar dessa história colonialista – não creio, a menos que vejam a sua entrada num espaço de influência.
A questão da ditadura é pertinente, mas sai fora da real politik. Não podemos dizer que essa tenha sido alguma vez exigência da CPLP, pois só recentemente Angola e Moçambique realizaram alguma forma de eleições.
Ou seja, quando Portugal tentou marcar espaço lusófono teve que fechar olhos a esse “detalhe”, e dificilmente tem condições para o exigir agora.
Nesse campo, não há anjinhos, e a Inglaterra ou a França, também fazem o que têm que fazer…
Agora, é claro que a CPLP deveria passar a chamar-se CPOPEP – Comunidade de Países Onde Pode Entender-se Português (mais ou menos).
O interesse da CPLP é pequeno, porque é demasiado pouco influente a nível internacional, e as cedências portuguesas mais mostram as fragilidades de cisão, do que alguma força inerente aos pontos comuns.
Do ponto de vista geo-estratégico, é óbvio que haveria maior interesse em unir à parte ibero-americana. Cada país deixava de ter tanta influência – excepção talvez do Brasil, que seria quem ganharia mais, dada a sua dimensão incontornável, algo perdida pela falta de número no ibero-americanismo. A própria Espanha teria vantagens em alargar o seu espaço de influência, e não creio que isso fosse alguma ameaça ao português, pelo paradigma Brasil.
Por isso, neste momento convém perceber para que serve a CPLP… claramente que nada tem a ver com a língua portuguesa, a partir deste momento.
A Espanha? A Espanha é uma grande do mundo. Do 1º.
Não precisa de tonterias e de comunidades disto ou daquilo. E não tem problemas de visibilidade. Vá ver a lista dos laureados com o Prémio Príncipe das Astúrias.
De resto, como intuiu, a política de total subserviência perante os interesses brasileiros reduziu-nos a um apêndice dispensável.
As suas sugestões com China e India (!) levam a crer que temos um problema grave com o modo como nos situamos no mundo. Não seria mau que descobríssemos que somos um pais pobre, actualmente pedinte, e que não nos recomendamos culturalmente.
Quanto ao passado, preserva-se com princípios e trabalho e nós primamos pela ausência de ambos.
Por mim, trocava a “influência no mundo” (para quê, aliás?) por um país sem analfabetos, menos corrupto e por uma democracia efectiva, com um nível educacional na média europeia.
Discordo sobre a visibilidade ou influência espanhola… convém distinguir da visibilidade hispânica nos EUA. E certamente que não são os prémios mal conhecidos que fazem a diferença, tal como não fez a Fundação Champalimaud. Receber cacau, há muitos dispostos a isso, sem que mostrem especial respeito por quem o dá.
Só quem quer apagar a história é que insiste em fazer pensar que Portugal é um país pobre, a prova contrária é a ligação linguística.
Não é preciso pensar que Portugal é um país pobre. Portugal é pobre – e agora pobre de pedir – porque tem um pib per capita baixo: 51,7% da média europeia.
Dezanove países (19) países/lugares separam-nos da Espanha em índices de analfabetismo – estamos umas décimas abaixo da Venezuela, em 68º lugar a nível mundial. É pobreza e analfabetismo demais para tanto história e tanta megalomania.
A originalidade e a força da CPLP assentaria sempre na base cultural. No idioma comum, na cultura comum cimentada pela unidade linguística.
A partir do momento em que o critério dominante se torna a “diplomacia económica”, que venha a Turquia, e a Indonésia, e a Rússia, e a Noruega, e a Arábia Saudita.
CPLP: Comunidade dos Países de Ligação ao Petróleo.
Não sei se é apenas o critério económico, Pedro.
Mas tem toda a razão, destruir uma comunidade cultural é uma perda lamentável.
Ao ouvir os nossos responsáveis políticos entoar hossanas à “diplomacia económica”, fazendo tábua rasa do imenso património cultural português/lusófono (e como se este património não tivesse também incalculáveis potencialidades no domínio económico), sinto-me um passageiro numa nave de loucos. Andamos a deitar borda fora uma riqueza incalculável e que não pode sequer ser medida em cifrões. Qualquer ditador de pacotilha, qualquer émulo africano de um Duvalier do Haiti, nos escarra em cima.
Há povos pobres mas dignos: esses são respeitados universalmente. Eu prefiro continuar pobre mas sem nunca perde a dignidade.
A economia é uma gestão da circunstância, a cultura é um legado intemporal.
Demore o tempo que demorar a entender isto…
Tudo quanto há de essencial fica dito nessa primeira frase, com apenas 13 palavras.
A Espanha é uma grande potência europeia, tem suficiente relevo mundial, faz-se respeitar pelas suas ex-colónias, não tem sentimentos de inferioridade perante o seu passado nem perante o seu presente e, mais importante ainda, não padece da mania das grandezas.
Ninguém imagina o México ou a Argentina imporem novas normas ortográficas aos espanhóis, por exemplo.
Estou de acordo com a força linguística da Espanha, por razão dos múltiplos estados de dimensão comparável, onde surge como árbitro natural.
O seu relevo mundial noutros aspectos, não é superior ao português… ou pelo menos, não era.
Agora, o que me parece claro é que Portugal agachando-se perante conveniências do Brasil ou Angola, está a esquecer os restantes. Esta era uma boa altura de esclarecer as coisas, com firmeza, nem que ficássemos sozinhos.
Neste momento, Portugal é apenas um membro como a Guiné Equatorial… com a diferença que num deles não se fala a língua. Ridículo.
“O seu relevo mundial noutros aspectos, não é superior ao português… ou pelo menos, não era.”
Onde está o nosso Carlos V?
Mesmo Camões é tão conhecido – já nem digo lido – como Cervantes e o seu D. Quixote universal?
O nosso Picasso, o nosso Dali quem foram, onde estão? E El Greco, ou Velasquez – meio portuense seja ele, como se chamam cá, e como o mundo os conhece?
Que Unamuno nosso andou por terras de Espanha? E Ortega y Gasset, o que temos para a troca?
Et coetara…
Carlos V tinha que pedir licença a D. Manuel para dar um passo. Até na conquista de Tunis, foi o galeão Botafogo (o maior alguma vez construído), da esquadra comandada pelo Infante D. Luís, que praticamente deu conta do serviço.
Convém não esquecer que Poliziano, um dos maiores humanistas italianos, afirmou sem problemas que D. João II excedia em feitos Alexandre, César ou Átila. E tinha razões para isso… agora que você não saiba, ou queira saber, isso é outro problema.
É fácil ignorar o que fez Portugal, se os portugueses são hoje os primeiros a venerar tudo o que é estrangeiro, e a patrocinar a submersão da sua história.
Como exemplo menor, a compita mesquinha é tanta, que é preferível lembrar que Saramago era comunista do que aceitar que fosse escritor consagrado.
Para entender porque razão Espanha e Portugal foram sistematicamente submergidos do cenário internacional, é primeiro preciso olhar para a história da Austrália com olhos de ver, e não olhos de querer ser cego.
Parte I:
Da Maia,
Tretas!
Espanha hoje é mundialmente conhecida, não por Carlos V, mas por causa de escritores, pintores, cineastas, actores, filósofos, futebol, a arquitectura dos mouros e a Sagrada Familia do Gaudí
É engraçado, mas não deixa de ser típico, que se concentrou na questão de Carlos V e enxotou os pontos mais interessantes que adf levantou: realmente, fora de Portugal (sejamos generosos, fora da lusofonia) quem conhece Luís de Camões? Tenho a certeza que se perguntar a um leitor estrangeiro de poesia com uma boa cultura (estamos a falar de alguém que já tenha lido Milton, Dante, Chaucer , Shakespeare, uma pessoa bastante culta) ele nunca terá ouvido falar d’Os Lusíadas; eu já fiz o teste. Quanto ao D. Quixote, periodicamente é considerado o maior romance de todos os tempos, conhecido e lido por todos os grandes escritores.
Que pintores tivemos nós de relevo mundial? Paula Rego? Santa-Rita? Amadeo? Maria Helena Vieira da Silva? As duas senhoras têm os seus fãs lá fora, mas não são nomes que imediatamente causam faísca na mente de uma pessoa, como Dalí, Picasso, ou Goya.
Que cineastas, que actores? Quem conhece Maria de Medeiros tão bem como Penelope Cruz? Quem conhece Manoel de Oliveira tão bem como Luis Buñuel?
Que filósofos? Que grandes geradores de ideias tivemos nós que influenciaram a construção do mundo moderno? Tivemos apenas esponjas que absorviam o que vinha de fora (de França) e depois implementavam toscamente cá por casa. Que grandes pensadores temos para dar ao mundo? O fanatismo messiânico do jesuíta que nos fodeu a cabeça para sempre com a merda do Quinta Império que claramente continua a estar subjacente em ideias como o AO e a entrada da Guiné na CPLP? O Encoberto do Sampaio Bruno? As profecias de pacotilha de um sapateiro? A pseudo-filosofia chauvinista de Álvaro Ribeiro? Os nossos pensadores foram pessoas mentalmente doentes, eivadas de um misticismo bacoco e obscurantista que deveria ter morrido com um Iluminismo que nunca penetrou nesta choldra de país, pensadores incapazes de lidar com o mundo real e que por isso se retraíam para arquitecturas mentais fantásticas, com os tristes resultados que hoje vemos.
Não me admira nada que o da Maia saiba o que um tipo chamado Poliziano disse sobre o nosso D. João II há uns quantos séculos, nós somos bons dessa forma, a coligir os mais insignificantes elogios à nossa presumível grandeza. Sem os nossos reis, sem as nossas Descobertas, nós não temos nada, pois não?
Todos os outros países da Europa – França, Inglaterra, Espanha, Itália – já traram de se reinventar e figir que essa coisa dos reis e dos impérios nunca aconteceu: a Itália hoje quer ser conhecida, não pela guerra da Abissínia, mas pelo Renascimento; a França quer ser conhecida, não pela Argélia, mas por Descartes e Voltaire; o Reino Unido prefere que não se pense muito no domínio sobre a Índia, mas que foquem antes John Locke, Shakespeare, a resistência contra os Nazis, o papel no Iluminismo; os espanhóis, não sei, se calhar querem ser conhecidos por museus dedicados a Hemingway. Mas nós temos de continuar a bater na tecla dos Descobrimentos, temos de continuar a celebrar os nossos “grandes” reis, temos de idealizar, idolatrar aqueles cem anos de 1430 a 1530 onde andávamos a “descobrir” mundos, como se eles estivessem perdidos aos seus habitantes, porque caso contrário não temos nada. Não produzimos nada de jeito antes, não produzimos nada de jeito depois, fora uns casos isolados. Por isso temos de continuar com estas celebrações anacrónicas, por isso o discurso da teoria pós-colonialista nunca penetrou no nosso país como nos outros que tiveram os seus impérios sujos, por isso nos anos 60 os nossos diplomatas tinham de ir fazer figura de parvos à assembleia geral da ONU, invocando razões “históricas” para não darem independência às colónias, isto na presença dos representantes da Argélia e Índia, que tinham acabado de sair do jugo de potências europeias, que ridículo.
Parte II:
Tudo o que Portugal hoje pode celebrar como o apogeu da sua cultura é anacrónico aos valores da modernidade: celebramos reis quando o mundo corre para a democracia; celebramos os Descobrimentos quando é impossível celebrar o Dia de Colombo nos Estados Unidos sem controvérsia porque, longe de ser um grande homem, ele é visto como o ganancioso, violento conquistador que foi. Já leu os livros de Alejo Carpentier e Gabriel García Márquez? Sabe o que pensam dele na América do Sul? Nós aqui andamos ocupados a tentar provar que Colombo foi português, sem pararmos para pensar, Será que isto é uma honra que vale a pena ter? E Vasco da Gama? Sabe o que pensam dele na Índia? e Francisco Xavier? Acha que os amam? Acha que adoram os homens que massacraram tribos, forçaram conversões e desenraizaram povos das suas culturas? Pare de ler Poliziano, pare de andar à cata de fugazes elogios a reis, e vá descobrir o legado terrível da nossa presença no mundo que escondemos de nós próprios para manter a ilusão viva. E com o nosso paternalismo de colonizador, continuamos a acreditar que voltaremos a ser uma grande potência, através dessa coisa da Lusofonia, que não pausa de saudade pelo império.
Eu preferia que Portugal se esforçasse por ser conhecido pelos seus escritores, pensadores, cientistas, etc., mas não temos assim tantos e também não são assim tão bons que mereçam mais destaque do que os grandes dos outros países, neste mundo onde todos competem. Nós não temos grandes figuras das quais se possa dizer, Estes são incontornáveis, todos devem conhecer estes; não temos. Só temos criptas com ossadas de reis e pontes com nomes de marinheiros. Aqueles que realmente podem trazer glória a Portugal tiveram de fugir dele (Jorge de Sena) ou trazem-lhe glória APESAR de todos os esforços que Portugal fez para os destruir (Saramago), ou foram descobertos por estrangeiros, com pouco papel de Portugal na sua divulgação mundial (Eça ou Pessoa que muito deve a Octavio Paz, Tabucchi e Richard Zenith). Este país nem é bom para aqueles que lhe foram bons. Temos um país que corta na ciência e na cultura, temos uma CPLP que não gasta dinheiro em cultura, temos um Instituto da Língua Portuguesa que não pode fazer nada por falta de verbas (todos os países-membros têm as quotas em atraso, vergonhoso), por isso o que há para enobrecer Portugal? Saudades do império e dos grandes, grandes reis; saudades não custam dinheiro. Infelizmente ninguém lá fora quer saber do nosso império de facínoras e dos nossos reis dementes que embotaram o país com expulsões de judeus, autos-de-fé e uma reacção violenta contra todas as ideias modernas europeias desde o século XVI.
Mas peço desculpa ao da Maia pelo texto longo; de certo que tem livros do Poliziano para ler…
Uma excelente leitura do que pudemos assistir durante o encerramento da cimeira da CPLP em Díli. Vi no Primeiro Jornal. Nem me surpreendeu.
Muito bem escrito. Muito bem dito. Muito bom, Pedro.
Para ter vergonha e admiti-lo publicamente, é preciso ter coragem. Ambas faltam aos nossos representantes, que prostituem o país de forma continuada em troca de migalhas de apoio financeiro, sempre com contrapartidas sofríveis.
Portugal resistiu até ao limite, dizem-me. Foi vetando a entrada da Guiné Equatorial na CPLP até mais ninguém o acompanhar nesta posição.
A questão é que na defesa dos direitos humanos – como fizemos em relação a Timor-Leste, por exemplo – nunca devemos temer o isolamento. Porque a razão e a verdade não dependem de modas, tendências, calculismos de ocasião ou listas de precedências. Muito menos dependem da descoberta de novas reservas de petróleo.
Por mim, prefiro ver o meu país isolado sem perder a razão nem a dignidade do que vê-lo integradinho na “comunidade internacional”, perdendo uma e outra.
Há outro aspecto que não vi ainda referido. Quem arquitectou a palhaçada em Dili? Não foi uma desconsideração para Portugal? Direi mesmo, uma ofensa? Nenhum dos outros países disse nada? Engoliram? Qual o papel de Xanana Gusmão tão atencioso para o dito cujo? Os outro países sabiam o que se ia fazer? Foi só Portugal que não foi informado previamente da brincadeira? Não é uma ofensa pior do que a infligida há uns tempos pelo presidente checo ao repreender Cavaco? E este baixar as orelhas!
Não percebo como isto foi possível.
Foi uma desconsideração total. Levámos uma bofetada e… demos a outra face. Reverentes e agradecidos.
Não podemos sair da CPLP? É que africanismos e tropicalismos não interessam a Portugal, que precisa de se refundar e deixar-se de negócios podres com a banca angolana e de simpatias com narco-estados como a Venezuela. E deixar esta treta da lusofonia e sei lá mais o quê, coisa para a qual nitidamente não temos jeito nenhum. Esta República cobarde precisa de desaparecer.
A CPLP com a Guiné Equatorial de fala castelhana, com pena de morte e a mais longa ditadura do continente africano é algo a evitar. Sair seria uma medida profiláctica.
Discordando eu da ênfase linguística desta indignação e do conteúdo “fraternal” que colocas em “lusofonia” não posso deixar de considerar isso irrelevante face à concordância com a indignação diante desta vil patacoada
Também tenho reservas quanto ao conceito e às ilusões que vai semeando. Mas neste caso nem os defensores desse conceito souberam defendê-lo e preservá-lo. Pouco faltou para que suas irrelevâncias se dirigissem ao Tonton Macoute em castelhano, dispensando-o dos incómodos auriculares.
A CPLP nunca levantou da placa e tornou-se basto irrelevante. Agora, enfim … Pena que não tenhamos um estado que possa concluir o seu anacronismo. Pena maior que não tenhamos gente para isso. Pena e vergonha
Estamos substancialmente em sintonia nesta matéria, como aliás noutras.
Só hoje !?
O triunfo dos porcos em directo, mais uma triste cena de que se orgulham muitos e muitas que vendem a pataco o País, já nem a identidade Cultural escapa.
Como disse alguém acima é mesmo preciso REFUNDIR a republica de bananas em que Portugal se tornou,
E caro Pedro Correia não foi petróleo, foi mesmo mais um banco falido (gamado por dentro, como está na moda) presidido por um ex-ministro dos “Negócios Estrangeiros”.
Não se passa nada, não há tomates nesta cambada de mansos que todos nós somos que por inacção deixamos o barco navegar á deriva.
Estes políticos metem NOJO, tantos os que são a favor desta e outras M….. como os que são contra porque estão do lado de fora da gamela pois se lá estivessem fariam igual ou pior.
O Seguro e Costa já disseram alguma coisa sobre isso, será que o Seguro também vai revogar esse decisão !?
Esta decisão é irrevogável, caro WW.
Cheio de razão, Pedro. Também subscrevo, se não te importas.
Mais grave, e prova de que de boas intenções está o mundo cheio, é o comunicado na página oficial do Governo da Guiné Equatorial que anunciou a adesão à CPLP em várias línguas com excepção do português. Como que a dizer que já está lá dentro e agora ninguém o tira de lá.
Nem se dão ao trabalho de disfarçar, Sérgio. É uma farsa. Com um artista principal e uns quantos figurantes.
somos os primeiros a desprezar a lusofonia
Pelo contrário, somos os últimos: Portugal foi o último Estado da CPLP a dar o seu aval à entrada da Guiné Equatorial. E só o fez porque todos os outros países da CPLP estavam a favor.
“E só o fez porque todos os outros países da CPLP estavam a favor.”
Não serve como desculpa nem como justificação; simplesmente é um (E)stado servil. E os últimos neste caso são os primeiros, na língua.
Serve como justificação, sim. Se todos estão a favor e Portugal está contra, ou Portugal muda a sua posição ou é expulso. A alternativa a Portugal permitir a entrada da GE seria Portugal ser expulso da CPLP, ou então ficar lá apenas formalmente mas ser ostracizado por todos os outros países.
Meu caro, podia responder-lhe que lamento, mas não acontece tal; temos opiniões paradoxais relativamente à atitude/reacção a esta entrada “a pés juntos”. Mesmo com a idade e a maturidade, com a inevitável perda da inocência ou com a tomada de consciência da realidade que nos rodeia, há e sempre haverá certezas em nós, coisas simples, tão simples que não existe alternativa porque essa alternativa tornada factual representa a perda da nossa essência. O mundo do avesso não é justificação para a cedência de valores éticos ou morais.
Pelas imagens que vi e pelos discursos dos P.R. e P.M., parece-me que aquela cerimónia poderia muito bem ter decorrido numa qualquer sala de audiências de um tribunal!
Pareciam funcionários da Servilusa. Uma comissão liquidatária da CPLP original, morta e enterrada.
Muito bom este texto, Pedro.
Haja alguém que nos ilucide do quanto esta lamentável cena é execrável.
Perante um País inteiro, atónito, que não entende minimamente porquê, como, a que propósito, como se algum princípio existisse em comum e aquele País estivesse, até agora, esquecido.
Sinto igualmente vergonha. Mas também revolta.
Se os nossos principais representantes, as mais altas figuras do Estado, foram apanhadas “de surpresa” com o convite a este novo estado-membro da CPLP, não lhes restava outra saída: Antes quebrar, que torcer!.
A vida e ainda mais a História é feita de decisões, mas por fraqueza…não vamos lá. Sairia dali o quê? Alguma 3ª Guerra Mundial?
Acabou por se constatar que esse “gesto magnânimo” de braço abertos, sem sentido, reflecte não só a falta de dignidade mas também a falta de verticalidade de quem nos representa.
Jamais seremos respeitados, sem dúvida.
Estamos todos assim tão mal?
É que já nem me identifico com este País, que, para cúmulo, tem exemplos vários da maior dignidade, honrando sempre quem representam.
Mais chocante ainda foi ouvir certos comentadores do regime perorar na televisão que é preciso sermos “pragmáticos”, patatipatatá, e aceitar as “novas realidades emergentes”, buererébuereré, e acolher a “diplomacia económica”, blablablá, e o petróleo mais que também e a capitalização do Banif pois claro e coisa e tal, há-que prestar vassalagem ao ditador, problema nenhum nisso, blablablá, pode dar uma dorzita na coluna mas depois vamos ao endireita e a coisa conserta-se patatipatatá….
Tem todas a razão, um ditador quem nunca falou nem nunca ha-de falar português. Um boa obra de Passos Coelho e Cavaco e Silva, olha que dois!
Por supuesto.
tanta indignação porquê? Quantos lideres democráticos existem nos países da cplp? Dirigentes de um país que convivem há bastantes anos com todo e qualquer bicho careta de todos os tipos de ditaduras. Só agora com o (obiang) lhes dá param indignação. santa hipócrisia.
Isso é verdade. José Eduardo dos Santos está no poder em Angola desde 1979, há tanto tempo como Obiang . O homem, recentemente, até se deu ao descaramento de ironizar isso numa entrevista televisiva, gozando que estava lá há demasiado tempo e que estava na hora de preparar a sucessão, dando a entender que não haveria eleições livres mas que era altura de alguém do clã (a filha? Será que ela quer essa chatice?) ocupar o lugar dele, no que será uma longa dinastia de tiranos à Coreia do Norte.
O Pedro Correia pode invocar os estatutos e artigos com maiúsculas do CPLP, mas a verdade é que eles nunca significaram nada desde a criação desta organização, que começou podre e numa total repulsa dos princípios que finge defender. A CPLP começou torta, nunca se endireitará, vai-se dobrando lentamente no peso da sua ganância até roçar no lameiro de onde surgiu – e por mim estaria tudo bem, desde que não arrastasse Portugal consigo para o charco. Mas Portugal orgulhosamente tomará o seu banho de lama, porque Portugal vive na nostalgia dos Descobrimentos, vive na alucinação desmedida da crença na Lusofonia como força para construir o Quinto Império no qual a velha Lusitânia tomará posição dianteira na governação de uma Idade de Ouro da humanidade, e por isso nunca será capaz de parar para perceber que os tão badalados Descobrimentos (que, à força de colonialismo, imperialismo, massacres tribais, escravatura, conversões forçadas ao Cristianismo, aluguer de trabalhadores forçados às minas sul-africanas, traumáticos desenraizamentos culturais, sangrenta guerra colonial, criaram um ressentimento recalcado nestes tais povos irmãos contra nós que jamais esmorecerá enquanto a memória saltar duma geração para a outra) nos soldaram (para sempre?) a um grupo de gente sinistra, sem escrúpulos e completamente avessa aos valores da Europa: ditadores africanos, uma antiga vítima de tortura que se passeia com eles, um Nobel de Paz timorense que, tanto quanto sei, nunca teve uma palavra para os cemitérios de Santa Cruz que ocorrem todos os dias na Guiné Equatorial, democracias instáveis sujeitas a crónicos golpes de estado; e nós refastelados nos nossos valores ocidentais, na nossa prosápia de primeiro mundo, nós a pensarmos que podemos ter alguma influência sobre esta gente (neste preciso momento, dizem-nos os activistas que melhor conhecem a realidade do país, a pena de morte continua na Guiné Equatorial) quando eles nos têm por trela. Nós não somos nada, Portugal não é nada senão uma porta de legitimidade para toda esta gentalha hipócrita, vil e ganaciosa entrar na Europa. Se a UE tivesse juízo bania Portugal do continente por lhe dar má reputação.
O Pedro apenas sente vergonha de ser português hoje? Eu tenho 29 anos e sinto essa vergonha desde a minha adolescência. E não vejo forma de alguma vez a ultrapassar.
Eu não sinto vergonha de ser português. Se sentisse, nem me dava ao trabalho de escrever textos destes. Escrevo-os pelo motivo contrário: porque sou português com muito gosto e prezo a minha nacionalidade. O que acontece, neste caso, é diferente: senti vergonha ao ver-me representado por dirigentes que não estiveram à altura da defesa da honra e da dignidade dos valores portugueses naquela cimeira. Desde logo os valores culturais e linguísticos, sem os quais Portugal seria na comunidade internacional algo equivalente à Papuásia Nova-Guiné, à Mongólia ou ao Burquina Fasso.
A CPLP é uma Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A nossa língua – a de Camões, de Pessoa, de Alda Lara, de Craveirinha, de Alda Espírito-Santo, de Mia Couto, de Manuel Bandeira, de Drummond, de Sophia, de Agualusa, de Eça e Machado de Assis – não se confunde com o tosco castelhano arengado pelo ditador da Guiné Equatorial, país onde ninguém fala português.
A questão central é esta. Acaba de entrar na CPLP uma das mais torpes ditaduras africanas com base numa inqualificável aldrabice: a língua portuguesa serviu de falsa moeda de troca a esta entrada.
Parte I:
“Desde logo os valores culturais e linguísticos, sem os quais Portugal seria na comunidade internacional algo equivalente à Papuásia Nova-Guiné, à Mongólia ou ao Burquina Fasso.”
Sempre a mesma retórica, Pedro, sempre o medo de sermos pequenos; pior, o medo de confundirmos a pequenez geográfica com a pequenez cultural, política e económica. Isto faz-me pensar no Saramago e no seu volte-face a respeito do AO em final de vida, dizendo que não podíamos permitir que Portugal se tornasse num gueto linguístico como a Hungria. E depois o Pedro invoca Mia Couto, Alda Lara, José Craveirinha e sei lá quem mais. Mas sabe o seguinte? Ninguém sabe quem estas pessoas são. A nível mundial, fora da lusofonia, estas pessoas são, quando muito, curiosidades acarinhadas por uns excêntricos que gostam de fugir aos gostos mais mainstream; eu sei do que falo, eu discuto literatura com leitores anglo-americanos, de gostos eclécticos, que adoram ler uma tradução angolana ou moçambicana para não terem de ler um chato como Jonathan Franzen, porque isso é demasiado batido. Mas por isso mesmo eles são curiosidades, tesouros secretos que ficam à margem dos nomes mais conhecidos. Agora sabe quem são 2 dos escritores (com talento literário) mais badalados da actualidade? Um é um húngaro chamado Laszlo Krasznahorkai, que apareceu do nada no mundo inglês com algumas traduções e subitamente já é considerado um dos melhores escritores vivos por todo o mundo (como o Lobo Antunes uma vez disse, se um escritor conquistar a América, conquista o resto do mundo), apesar do gueto linguístico que é a Hungria, com os seus 10 milhões de habitantes (e falantes, porque duvido que haja uma vasta diáspora húngara por esse mundo fora); já ouviu falar dele, Pedro? Talvez sim, talvez não; se não ouviu não faz mal, ainda não há tradução portuguesa, como sempre andamos atrasados em relação ao mundo, mas já temos Franzen às carradas.
O outro nome é um norueguês chamado Karl Ove Knausgård, autor de um romance em seis volumes, o Min Kamp, que também se tornou subitamente famoso por todo o mundo graças a traduções (que, é claro, ainda não existem em português), isto não obstante a noruega ter apenas 5 milhões de habitantes.
A grandeza não tem nada que ver com ter-se 300 falantes espalhados pelo mundo, não tem nada que ver com poços de petróleo, não tem nada que ver com um país do tamanho dum continente (acha que Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, o infelizmente falecido João Ubaldo Ribeiro são nomes que os leitores anglo-americanos têm na ponta da língua?), a grandeza tem que ver com excelência, mérito, trabalho, esforço, empenho, e também sorte. E se calhar é por isso que a Noruega e a Hungria exportam escritores para o mundo, se calhar é a nossa eterna falta de sorte, o nosso fado, que impede a Sophia de ser tão conhecida como o Adam Zagajewski, que impede alguém de se interessar em promover a obra da Aquilino e Agustina (que nem aos brasileiros interessa; eis as vantagens da lusofonia em todo o seu esplendor) fora de Portugal. Se calhar o nosso fado, grandes ou pequenos, é sermos desconhecidos para sempre. E porque não? Os nossos reis, o nosso ditador, esforçaram-se tanto por fazer com que Portugal fosse um canto esquecido do resto do mundo, onde não penetrassem ideias novas; nós cultivámos a arte de passar despercebidos, agora não nos podemos queixar. Existe um condicionamento de séculos que nos habituou a sermos pequenos e irrelevantes; os nossos reis estiveram contra o Renascimento, estiveram contra a Reforma da Igreja, estiveram contra o Iluminismo, estiveram contra a monarquia constitucional, estiveram contra a democracia; o nosso ditador continuou a obra, ele melhor do que ninguém compreendeu essa foma de pequenez em nós, por isso destruiu a nossa educação para que não tivéssemos ambições irrealistas, e agora os nossos políticos prosseguem a obra. Salazar foi o melhor leitor da alma portuguesa no século XX, ele compreendeu a nossa sede enraizada de mediocridade e deu-no-la. A seguir a ele só Unamuno, que percebeu como somos um povo suicidário que se sabota (in)conscientemente; nós não queremos ser grandes, não queremos estar no mundo, apenas nos queremos lamuriar com poesia ultra-romântica.
Parte II:
E se calhar é por isso que, com império ou sem, com 300 ou 10 milhões de falantes, nunca seremos nada, porque nos esforçámos por séculos por isso, porque fizemos do nosso fado, do nosso destino (não obstante os devaneios messiânicos do Quinto Império) a insignificância. Nós participamos ledamente na nossa morte porque não sabemos agir de outra forma. Compare isso com o gueto que Saramago chamou à Hungria, que lutou pela sua cultura e identidade face ao poderia da União Soviética. Se calhar é por isso que esse gueto de país exporta filmes e literatura mundialmente conhecidos, e Portugal, indo ao sabor da Lusofonia, à qual nos vergamos sempre, mal consegue dar a conhecer a sua cultura ao mundo, ficando à espera que essa entidade abstracta faça tudo por ele.
Por isso, Pedro, eu preferia menos retórica, eu preferia menos saudosismo, eu preferia menos manias da grandeza, eu preferia uma visão realista do que temos, do que somos, mais humildade mas também mais orgulho e empenho em maximizar os nossos recursos, mesmo que isso nos obrigasse a irmos contra-corrente aos gostos da Lusofonia, dos interesses económicos, do Brasil, da CPLP. Eu gostava que Portugal aceitasse que só Portugal pode valer a si próprio, porque a julgar pelo que vemos, não são as nossas antigas colónias que se vão desmanchar em mil esforços para nos levantarem do abismo em que nos colocámos ao longo de séculos.
Sinto hoje vergonha, como português, ver ou/e ouvir o presidente Cavaco Silva e o primeiro-ministro Passos Coelho, ponto.
Para este lamentável resultado foram os dois, o que é ainda mais incompreensível. Bastava um deles. Ou nenhum. O angolano e a brasileira nem se dignaram aparecer: limitaram-se a mexer os cordelinhos à distância.
Também tive essa sensação de vergonha.
A política externa portuguesa é vergonhosa e indigna da nossa história – e acredite que ao dizer isto tenho presentes muitas páginas negras dela.
Portugal podia e teria dito não. Mas as palavras pequenas são para as pessoas grandes e o nosso país está entregue a anões.
Não quero fazer trocadilhos nem utilizar ironia rasteira, mas esta foi verdadeiramente uma página negra da nossa história diplomática, longa e secular e prestigiada.
Parabéns pelo artigo. Também eu senti vergonha.
No que toca a sentar ao lado de tiranos, Passos mostrou que não é diferente de Sócrates (que acolheu Kadafi com honras de estado).
Passos e Cavaco (tal como Sócrates) acolhem e visitam os lideres chineses. Não sente também vergonha, caro Pedro Correia? Eu sinto exatamente a mesma e pelas mesmas razões, que tão bem enuncia:
A China esmaga a imprensa livre, esmaga a oposição, esmaga quem reivindica reformas no seu regime e tem pena de morte.
A China, ao menos, respeita o acordo internacional que assinou em 1987 com o Estado português, defende e preserva a população portuguesa que reside em Macau, garante-lhe todos os direitos a que se comprometeu, e mantém a língua portuguesa como idioma oficial do território (a par do chinês) pelo menos até 2049.
Na Guiné Equatorial a única lei que existe é a da selva.
O que a China respeita eu não sei. Sei é que o português que se fala em Macau é o mesmo que se fala na Guiné Equatorial: nenhum! Se a diferença está no facto do português ser língua oficial em Macau (a par do mandarim), recordo-lhe que o português é língua oficial na Guiné Equatorial desde 2010 (a par do espanhol e do francês). Mas o tema fulcral não é a língua…
Para mim, cumprimentar e sentar ao lado do ditador da Guiné Equatorial é tão repugnante como cumprimentar e sentar ao lado do ditador da China. Se alguma diferença existe é na dimensão das pessoas prejudicadas com este tipo de ditaduras: a Guiné Equatorial tem meio milhão de habitantes enquanto a China tem mais de mil e trezentos milhões…
Em termos económicos a Guiné Equatorial não representa nada, enquanto a China é o maior mercado do mundo e é o 2º em termos de PIB (atrás dos USA), daí a “tolerância” para com o regime chinês …
Não diga, por favor, que não existem portugueses em Macau e que ninguém fala português em Macau. Isso seria insultar a comunidade luso-chinesa, de vários milhares de pessoas, que se foi sedimentando através dos séculos com laços de sangue, dando origem ao único processo de mestiçagem conhecido em território chinês entre europeus e chineses. A comunidade macaense – como a goesa, na Índia – orgulha-se desta singularidade e é respeitada enquanto tal pelas autoridades chinesas de Macau e pelo próprio poder central. A China respeita a língua portuguesa, a comunidade portuguesa e luso-descendente, as suas tradições culturais e religiosas, a sua especificidade histórica e social.
Portugal não pode, de forma alguma, ser indiferente a isto. Eu vivi dez anos em Macau e sei bem do que falo.
Muito bem, até posso admitir que tenha razão, pois eu nunca vivi em Macau. Mas o respeito da China pela língua portuguesa não me faz esquecer o desrespeito pelos valores fundamentais de que o Pedro Correia muito bem acusa a Guiné Equatorial mas, parece ignorar no que se refere à China (esmaga a imprensa livre, esmaga a oposição, esmaga quem reivindica reformas no seu regime e tem pena de morte).
Sobre a China tenho escrito muito, aqui e não só. E o meu pensamento, em substância, não difere do seu. Ressalvando sempre o caso de Macau, onde vivem dezenas de milhares de cidadãos portugueses ao abrigo de um tratado de direito internacional assinado em 1987 entre Lisboa e Pequim, e que as autoridades da China têm honrado. O que Portugal não pode deixar de valorizar.
Mas o que está em causa, nesta farsa da CPLP, não é a China: é a Guiné Equatorial.
Vergarmo-nos à ficção da língua portuguesa tornada idioma oficial da Guiné Equatorial por capricho momentâneo do ditador Obiang, que às cavalitas da CPLP procura conseguir a respeitabilidade internacional que de outra forma não consegue, é algo totalmente inaceitável. Tal como é inaceitável que as autoridades portuguesas contemporizem com esta farsa.
Quanto a isso, estou totalmente de acordo consigo, tal como lhe referi logo no meu 1º comentário, em que o felicitei pelo excelente artigo.
Só fiz a referência à China porque o Pedro a cita no seu artigo e uma boa parte dos argumentos que usa contra o ditador da Guiné Equatorial também se aplicam aos ditadores da China.
Essas comunidades que mantiveram essa ligação, sendo filhos esquecidos do passado português, ficam assim mais uma vez à parte da real politik.
Interessou mais o acordo de estados, do que o estado do acordo.
Uruguai, Malásia, China, Índia: faria mais sentido qualquer destes países aderir à CPLP do que a Guiné Equatorial. E já agora também Espanha, devido aos nossos irmãos da Galiza – nossos irmãos de fala também.
E porque não reivindicar a nossa língua e a sua grafia? E porque não reivindicar a nação que está assente na arquitectura da lingua portuguesa? Porque não dizer Basta!
Boas perguntas. Infelizmente sem as respostas que mereciam.
Pedro há muito tempo que me não sentia tão humilhada como portuguesa e como cidadã. Deplorável que tenhamos que “aceitar” isto, ou seja que o poder do dinheiro dê poder aos carrascos!
Um ditador de opereta e os seus ‘tontons macoutes’ de pacotilha. Até ao prestarmos vassalagem temos falta de critério, Helena.
Não foi o dinheiro que deu poder aos carrascos. Foi a pusilânime anuência
do governo português.
Pusilânime é uma palavra muito adequada para qualificar a atitude dos representantes portugueses nesta farsa.
Não me admirou nada que tal tivesse acontecido. Pois lusófonamente falando Portugal deixou de ter voto na matéria desde o dia em que deixou que fossem os brazucas a ditar as leis ortográficas mesmo no próprio Portugal. Agora , querem o quê? E mandar em quê? , se deixaram que fossem os de fora a ditar aos Portugueses como se deve ou não deve escrever. Isto é, como dizia numa novela Brazuca de há muitos anos . Mistério . Que ao fim e ao cabo, não tem mistério algum. Pois foram os eruditos Portugueses ,em língua Portuguesa , que deram aso a todo este descalabro. Agora, alguns sentem-se incomodados .Mas que infeliz incómodo e , que infeliz desculpa.
Eu não quero mandar em ninguém. Mas acho inconcebível que outros mandem em nós. Em duas gerações passámos de povo colonizador a povo colonizado.
Sim, humilhação e vergonha!…No meio de tudo isso, uma consolação: ao menos saber que, pelo que li dos comentaristas, muita gente sabe o que se passa na Guiné Equatorial: a mais abjeta opressão e exploração de todo um Povo, tratado como “escravos” na sua própria Terra e por leaders que os deviam servir, respeitar e bem querer! São da mesma raça e para isso são pagos.
Com esta atitude, por mim a CPLP pode morrer, pois cavou a sua própria sepultura. Mas o pior é que os nossos mais altos representantes estavam lá e até justificaram o injustificável. O que é pior e de baixo servilismo, como se não pudéssemos sobreviver sem o petróleo da Guiné Equatorial! Mais, ao seu Povo de nada lhe vale. Nem o cheiro dele!…
Pensar em 2014 que se pode fazer tábua rasa das mais grosseiras violações dos direitos humanos é não perceber minimamente a opinião pública.
Portugal cobre-se de ridículo com esta cobarde resignação à lei do mais forte: vergarmo-nos à vontade do Brasil e de Angola, inesperados advogados de defesa do senhor Teodoro.
Um dos mais repugnantes ditadores africanos (e não faltam nem nunca faltaram ditadores em África) conta a partir de agora também com a nossa benevolência e a nossa bênção. Isto envergonha-me enquanto cidadão português.
Eu, como português, sinto vergonha do Cavácuo há quase trinta anos e do Coelhone há três. Quanto à CPLP, não será demasiado redutor uma comunidade apenas com países lusófonos? E, quanto à democracia, que dizer dos regimes angolano e guineense (da “nossa” Guiné…)? Não haverá aqui uma tentativa “inclusiva” de tentar mudar “aqueles gajos” por dentro? Assim a modos que à laia do que dizem as “folhas secas” do BE relativamente ao PS? Ou não será simplesmente esta adesão o corolário lógico da rendição dos prostitutos da política ao triunfante porco capitalista Napoleão?