Sophia de Mello Breyner Andresen anda a ser editada em acordês. Há quem se indigne justamente com estas liberalidades. Eu sou um dos indignados.
Argumentam alguns, procurando defender o indefensável, que se lemos hoje Camões ou Camilo com ortografias diferentes das originais a mesma lógica devia aplicar-se à autora dos Contos Exemplares.
Mas são casos diferentes.
Sophia – assim e não Sofia, pois os nomes não se escrevem à la carte, no âmbito das “facultatividades” previstas no “desacordo ortográfico” – militou contra o AO 90. Não passou ao lado da questão: pelo contrário, tomou partido. Com a mesma firmeza revelada antes do 25 de Abril, no combate à ditadura salazarista, e nos tempos revolucionários, contra a ameaça de novas ditaduras em Portugal.
É uma profunda desonestidade intelectual editar os textos de Sophia em acordês, aproveitando o facto de já não se encontrar entre nós. Mais que isso: é um ultraje à sua memória.

os nomes não se escrevem à la carte
Hoje em dia toda a gente escreverá “Luís de Camões”. Mas o próprio possivelmente escreveria o seu nome “Luiz de Camoes”, ou coisa parecida.
A ortografia dos nomes de pessoas muito antigas atualiza-se, como toda a restante.
LL: Um link fácil de decorar:
purl.pt/1
Tem lá a resposta: Luis de Camões
(sem acento no “i”, com o til sobre o “e”)
Há uma coisa que insiste em não fazer, apesar de falar muito sobre o tema.
Insiste em não procurar os textos antigos.
Aconselho a todos aqueles que afirmam que a fonética evoluiu, e outros mitos, a lerem os textos antigos e perceberem que a pronúncia era a mesma.
Em 500 anos não houve nenhuma evolução fonética da língua.
O que houve foi uma confusão sistemática das regras de escrita, porque nunca houve uma regra aceite por todos, durante os últimos 500 anos.
E que dizem os herdeiros?
O que dizem sobre o acordês?
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portuga l/Interior.aspx?content_id=4005439
assim équé pá…
e o pessoa e respectivos ácas, eleáquelêlos em orthographês… (não me diga que se esqueceu deste, o tal para o qual “a minha patria é a língua portuguesa”).
Não me esqueci dessa frase. Nem deste verso de Ricardo Reis: «Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.»
pedro correia sempre coerente na completa falta de coerência : rr e ácas do pessoa nunca escreveriam “ciência”.
É salutar vê-lo a si, adepto fervoroso do acordo ortográfico de 1990, sair em defesa da escrita pré-1911. Com idêntica convicção.
Agradeço-lhe a lição de coerência.
Para mim, pior que reeditar os nossos escritores à luz do AO, é ensiná-los ASSIM nas escolas, a crianças que não podem escolher o que e como vão ler.
Nós os mais velhos, podemos optar por excomungar o acordo e não ler reedições. mas as nossas crianças não. Vão crescer a “dar pontapés na gramática” ( como é popular dizer-se) e a escrever mal, em acordez e não em português.
Pobre Sophia, que era tão intensa nas suas convicções.
Como escreveu, e muito bem, a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, um dos aspectos mais negativos do AO90 é «nem sequer se revelar uma “versão fraca” de unificação ortográfica, como se pretendia, mas antes uma versão permissiva, erigindo o princípio da facultatividade excessiva, o qual vai contra o próprio conceito normativo de ortografia, originando nomeadamente a possibilidade do uso de duplas grafias dentro do mesmo país, isto é, abrindo a porta à heterografia.» ontent_id=992608
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?c
Em minha opinião, o que o Expresso fez pode configurar dois ilícitos porque: altera documento (texto original) ou qualquer dos componentes que o integram (art. 256º do CP) e/ou publica obra que imita ou reproduz fraudulentamente (violando o direito de propriedade intelectual).
Vá lá, vá lá…que os gajos não se lembraram de deixar cair o “ph” e o “l” e o “y” ou teriam anunciado a republicação do texto de Sofia de Melo Brener.
Qualquer dia caem as consoantes todas e o jornal passa a chamar-se Eeo.
Os casos de Eça e Camilo, longe de serem diferentes, são os mais prementes para demonstrar a tirania destes acordos. Eles escreveram numa época em que não havia uma padrão, pelo que podemos dizer que cada escolha ortográfica deles era deliberada e premeditada; cada escolha revela algo sobre as suas personalidades e relações com a escrita, e é triste que isso se perca com os inúteis acordos.
Eu, por mim, adorava tê-los no original, assim como prefiro Pessoa, por cuja razão eu compro as edições da Ática ou da INCM ao invés das da Assírio & Alvim.
É um bom argumento, sem dúvida. Caso para pasmar: como pudemos sobreviver durante quase oitocentos anos – durante toda a monarquia – sem norma ortográfica oficial?
Pois… mazo pb é coje a mal tacu-me sava axecre ver a sim.
Bem dito