Penso rápido (21)


Pedro Correia,

Sophia de Mello Breyner Andresen anda a ser editada em acordês. Há quem se indigne justamente com estas liberalidades. Eu sou um dos indignados.

Argumentam alguns, procurando defender o indefensável, que se lemos hoje Camões ou Camilo com ortografias diferentes das originais a mesma lógica devia aplicar-se à autora dos Contos Exemplares.

Mas são casos diferentes.
Sophia – assim e não Sofia, pois os nomes não se escrevem à la carte, no âmbito das “facultatividades” previstas no “desacordo ortográfico” – militou contra o AO 90. Não passou ao lado da questão: pelo contrário, tomou partido. Com a mesma firmeza revelada antes do 25 de Abril, no combate à ditadura salazarista, e nos tempos revolucionários, contra a ameaça de novas ditaduras em Portugal.
É uma profunda desonestidade intelectual editar os textos de Sophia em acordês, aproveitando o facto de já não se encontrar entre nós. Mais que isso: é um ultraje à sua memória.

16 comentários em “Penso rápido (21)”

  1. os nomes não se escrevem à la carte

    Hoje em dia toda a gente escreverá “Luís de Camões”. Mas o próprio possivelmente escreveria o seu nome “Luiz de Camoes”, ou coisa parecida.

    A ortografia dos nomes de pessoas muito antigas atualiza-se, como toda a restante.

    1. LL: Um link fácil de decorar:

      purl.pt/1

      Tem lá a resposta: Luis de Camões
      (sem acento no “i”, com o til sobre o “e”)

      Há uma coisa que insiste em não fazer, apesar de falar muito sobre o tema.
      Insiste em não procurar os textos antigos.

      Aconselho a todos aqueles que afirmam que a fonética evoluiu, e outros mitos, a lerem os textos antigos e perceberem que a pronúncia era a mesma.

      Em 500 anos não houve nenhuma evolução fonética da língua.

      O que houve foi uma confusão sistemática das regras de escrita, porque nunca houve uma regra aceite por todos, durante os últimos 500 anos.

  2. assim équé pá…
    e o pessoa e respectivos ácas, eleáquelêlos em orthographês… (não me diga que se esqueceu deste, o tal para o qual “a minha patria é a língua portuguesa”).

      1. pedro correia sempre coerente na completa falta de coerência : rr e ácas do pessoa nunca escreveriam “ciência”.

        1. É salutar vê-lo a si, adepto fervoroso do acordo ortográfico de 1990, sair em defesa da escrita pré-1911. Com idêntica convicção.
          Agradeço-lhe a lição de coerência.

  3. Para mim, pior que reeditar os nossos escritores à luz do AO, é ensiná-los ASSIM nas escolas, a crianças que não podem escolher o que e como vão ler.
    Nós os mais velhos, podemos optar por excomungar o acordo e não ler reedições. mas as nossas crianças não. Vão crescer a “dar pontapés na gramática” ( como é popular dizer-se) e a escrever mal, em acordez e não em português.
    Pobre Sophia, que era tão intensa nas suas convicções.

    1. Como escreveu, e muito bem, a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, um dos aspectos mais negativos do AO90 é «nem sequer se revelar uma “versão fraca” de unificação ortográfica, como se pretendia, mas antes uma versão permissiva, erigindo o princípio da facultatividade excessiva, o qual vai contra o próprio conceito normativo de ortografia, originando nomeadamente a possibilidade do uso de duplas grafias dentro do mesmo país, isto é, abrindo a porta à heterografia.»
      http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=992608

  4. Em minha opinião, o que o Expresso fez pode configurar dois ilícitos porque: altera documento (texto original) ou qualquer dos componentes que o integram (art. 256º do CP) e/ou publica obra que imita ou reproduz fraudulentamente (violando o direito de propriedade intelectual).

    Vá lá, vá lá…que os gajos não se lembraram de deixar cair o “ph” e o “l” e o “y” ou teriam anunciado a republicação do texto de Sofia de Melo Brener.

  5. Os casos de Eça e Camilo, longe de serem diferentes, são os mais prementes para demonstrar a tirania destes acordos. Eles escreveram numa época em que não havia uma padrão, pelo que podemos dizer que cada escolha ortográfica deles era deliberada e premeditada; cada escolha revela algo sobre as suas personalidades e relações com a escrita, e é triste que isso se perca com os inúteis acordos.

    Eu, por mim, adorava tê-los no original, assim como prefiro Pessoa, por cuja razão eu compro as edições da Ática ou da INCM ao invés das da Assírio & Alvim.

    1. É um bom argumento, sem dúvida. Caso para pasmar: como pudemos sobreviver durante quase oitocentos anos – durante toda a monarquia – sem norma ortográfica oficial?

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