Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. “Será ela?”, questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.
Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.
Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.


Da área a que pertencia, é dos poucos que eu sempre ouvia com interesse, que não debitava sistematicamente cassetes, que criava uma forte empatia.
E, quanto a desaparecimentos de “figuras públicas”, os últimos tempos têm sido trágicos. Com vossa licença, estranhei não ter aqui sido feita (entre outros) referência ao “Tovarich” (que só conheci dos media).
Sei por experiência própria, das muitas conversas que com ele mantive, que João Amaral estava nos antípodas daquele habitual discurso comunista cheio de chavões e lugares-comuns. Foi um dos deputados mais argutos, inteligentes e brilhantes que tive o privilégio de conhecer enquanto repórter parlamentar. Num tempo em que não faltavam personalidades conceituadas e respeitadas em todas as bancadas da Assembleia da República.
Quanto ao ‘tovaritch’, não faço ideia de quem fala.
Fui conferir – pela etiqueta ou verbete ‘in memoriam’, aqui no DELITO – e concluí que já em 2014 assinalámos a morte das seguintes personalidades, nacionais e estrangeiras:
Pete Seeger
Philip Seymour Hoffman
Menéres Pimentel
Shirley Temple
Paco de Lucía
Huber Matos
D. José Policarpo
Adolfo Suárez
José Wilker
Gabriel García Márquez
Medeiros Ferreira
Vasco Graça Moura
Jacinto Nunes
É só. E já são muitas. No meu caso, devo dizê-lo, já são de mais – desde logo porque conhecia duas delas: Medeiros Ferreira e VGM.
‘Tovaritch’ era o Lenine. Mas já morreu há 90 anos.
Não… “Tovarich” era o Rui Tovar.
Pois claro. Merecia, sim. Foi evocado não aqui no DELITO mas noutro blogue de que sou residente titular: ovar-1546104
http://sporting.blogs.sapo.pt/rui-t
E no dia 13/07 morreu a Nadine Gordimer, com 90 anos, galardoada com o Nobel de Literatura em 1991 (e com o Booker em 1974).
E embora não seja muito conhecida por cá, esta escritora faz parte da minha lista dos “já lidos”.
Antonieta
Nesse campeonato dos Nobeis continua a ganhar-me, Antonieta. Eu tentei ler uma obra dela, ‘O Conservador’, mas confesso que não me prendeu.
Eu li o “Get a life” e o “A world of strangers” há muitos anos e já não me lembro bem. Agora fiquei com vontade de relê-los, mas ‘cadê’ o tempo?
O João Oliveira prestou-lhe uma pequena homenagem lá no Sentido dos Livros, era uma senhora muito querida.
Quanto ao campeonato, eu continuo nos 51, já li mais alguns livros mas de autores repetidos (Llosa, Munro, etc), pelo que o Pedro vai ultrapassar-me num
instante.
🙂 Antonieta
Ganha-me 51-37, Antonieta. Mas ainda este ano quero ler um livro da Gordimer até ao fim. Pode ser que mude a ideia que faço dela.
O tempo é um figurão do arco da velha.
Vai esbatendo as memórias menos boas, até conseguir que não passem de imagens desfocadas sem a nitidez necessária para serem recordadas, e deixa-nos as melhores lembranças, aquelas que nos rasgam sorrisos e nos enviam lembretes nostálgicos e carinhosos do nosso envolvimento com os que partiram e que acabamos por lembrar sempre com carinho e saudade.
Nós somos produto das nossas memórias e seremos o que as nossas escolhas ditarem. Espero poder fazer escolhas acertadas, para poder ser relembrada com carinho sem ter que esperar que o tempo leve anos a passar.
É como diz, Dulce: somos produto das nossas memórias. E a nossa memória tende a ser muito selectiva. Relaciono isso com a nossa inata capacidade de adaptação, fruto do instinto de sobrevivência.
Lembro-me com frequência dos tempos de infância. E não me recordo neles de nenhum dia chuvoso ou nublado: nas minhas recordações só subsistem dias de sol.
Caríssimo,
Tenho idêntico problema com agendas telefónicas. E nunca consigo apagar tais contactos…
Forte abraço,
É como eu, meu caro. Incapaz de apagar números de gente que não se apaga da minha memória.
o dr. é que está a mais…
foi atribuído a uma rua pública o nome de uma personalidade que se distinguiu na política e lá tem que figurar o grau académico que nem sabemos identificar a que se respeita exactamente.
mas o que não falta por aí é exemplos do mesmo género, a começar pelas ruas dr. álvaro cunhal em beja e arredores.
Inteiramente de acordo consigo.
Enfim, resquícios da Inquisição……mas para além do Dr. a mais, falta uma das habituais frases “lutador antifascista” ou “preso pela PIDE” ou ainda “vítima do fascismo”.
Bolas, esqueci-me que esta placa está no Algarve e não no Alentejo.
Sotavento algarvio, numa terra com nomes de ruas muito pluralistas.