O Expresso, semanário que muito prezo, anuncia a republicação integral de um texto que Sophia escreveu para aquele jornal nos idos de 1975. Por “republicação integral” eu entendo a republicação de uma obra na sua versão original, tal qual como conheceu a vida. Mas a primeira coisa que reparo é que na anunciada republicação aparece escrito “ato de criação“, “ato de liberdade“, “abstrata“, “mundo atual“, “25 de abril“, “atividade“…
Que eu saiba, Sophia nunca escreveu nos termos do Novo Acordo Ortográfico. Nunca lhe foi perguntado se queria escrever nos termos do “acordês”. E considero uma barbaridade reescrever ou republicar textos à luz desse documento profundamente demagógico. Não se respeita a integralidade do texto original, não se respeita a verdade histórica e manipula-se o texto em termos políticos e culturais.
Como nesse texto também se escreveu “a demagogia é a arte de ensinar um povo a não pensar”. Espero que não se atrevam a fazer o mesmo aos textos de Vasco Graça Moura que daqui a uns anos resolvam “republicar”.

É caso para perguntar se a senhora era Sophia ou Sofia. Bem, já se sabe: “gente fina é outra coisa!”
“Sophia de Mello Breyner Andresen de Sousa Tavares”
Totalmente de acordo com o que escreves, Sérgio. Ainda agora o Miguel Sousa Tavares deixou bem claro que sua Mãe sempre foi contra o acordês. Jamais Sophia admitiria esta barbaridade.
Nem mais!
Esees “atos” são para mentes atadas, sem dúvida…
simsim, e este texto se não for publicado na ortografia em que o autor o escreveu e publicado foi, também é heresia para si:
“Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, “Fabricou Salomão um palacio…” E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d´aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m´a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
* In Livro do Desassossego, fr. 259 (Texto publicado originariamente em “Descobrimento”, revista de Cultura n.º 3, 1931, pp. 409-410, transcrito do “Livro do Desassossego”, por Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), numa recolha de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha; ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, p. 16-17. Respeitou-se a ortografia da época de Fernando Pessoa. :: 25/02/2005
Quem não tem carácter nem coluna vertebral pensa como você. Quer dizer, não é bem pensar.
Por mim tudo bem, desde que não publiquem Fernão Mendes Pinto ou Gil Vicente no original. Ainda consigo ler Eça de Queiroz na grafia original, tenho um livro de 1900, mas já ninguém publica.
No caso de uma tradução de Dostoiévski, deve usar-se a grafia portuguesa do Séc. XIX ou a do acordo ortográfico?
Os alunos do Zimbabué estudam Shakespeare na edição escolar habitual em inglês, que segue a ortografia de 1670.
E jo, que presumo português e que terá tido o português como língua mãe (ao contrário dos estudantes do Zimbabué) diz que “ainda” consegue ler Eça, que escreveu em 1900?
Se o inglês de hoje tem a mesma ortografia que tinha quando Dickens escreveu e se o francês tem a mesmíssima ortografia que tinha quando Victor Hugo escreveu e se a ortografia do português mudou tanto desde que Eça escreveu; se a Inglaterra e a França são países sem analfabetismo, sendo nós o país com mais analfabetos da Europa, não será altura de começar a reflectir sobre o assunto das reformas, “evoluções” ortográficas, etc? Então o inglês e o francês não “evoluem”? E “evolui” o português porquê? A reforma de 1911 parece não ter contribuído para nenhuma melhoria da nossa literacia e nos últimos 40 anos de democracia a nossa distância medida em taxa de alfabetização em relação à vizinha Espanha não diminuiu: entre os nossos vizinhos e nós há 20 países mais alfabetizados de permeio – todos eles sem reformas nem acordos ortográficos.
Que pensa? O problema não deve ser a ortografia. O problema deve ser o analfabetismo e a corrupção, e …
Quando disse que ainda consigo ler Eça no original, referia-me ao facto de já não se publicarem livros com essa grafia.
As ortografias inglesa e francesa não são grandes exemplos para ninguém, principalmente a francesa – aqueles tipos não leem metade das letras que escrevem. Existem vários apelos da parte de pedagogos e linguistas nos respetivos países para se fazerem revisões.
Nunca ninguém afirmou que uma revisão ortográfica era o principal meio para combater o analfabetismo, mas o facto de não se fazerem revisões da ortografia também não torna o discurso mais claro.
Claro que se devem discutir todas as mudanças, desde que a discussão não se resuma à afirmação: “Quero que seja como eu andava na escola porque então é que era bom porque eu era mais feliz”.
Fiz apenas notar que para exigir que um escritor seja publicado como escreveu temos de ser coerentes e fazer o mesmo em relação aos outros. Ando alheado desta polémica mas não vejo grandes movimentos a exigir que Eça ou Camilo sejam reimpressos.
Ao meu pai ensinaram-lhe a escrever que tinha pae e mãi, a mim ensinaram-me que tinha pai e mãe, mas no fundo é tudo a mesma coisa.
“As ortografias inglesa e francesa não são grandes exemplos para ninguém, principalmente a francesa”
Dados os índices de literacia de França, e do mundo anglo-saxónico e a relevância da produção científica e literária, a observação é um gracejo inconsequente.
Também dadas as descobertas dos últimos 30 anos das ciências cognitivas seria de estranhar que pedagogos e linguistas apelassem a “revisões”. É que, pelos dados actuais, o acto da escrita e o acto da leitura aconselhariam ortografias diferentes. É possível que nada disto seja conhecido em Portugal, mas não entre os grandes linguistas das universidades de referência inglesas, norte-americanas e francesas. E lá, definitivamente, a língua está a salvo de rapaziadas.
O discurso torna-se mais claro, não pela ortografia, mas quando se pensa mais claramente; e pensa-se mais claramente quando a informação é vasta e bem trabalhada e escreve-se melhor quando se compreendeu bem – o que é difícil que ocorra no país mais analfabeto da Europa, com índices de leitura inferiores ao de Marrocos. Não será arriscado dizer que a iliteracia e o analfabetismo contribuam para que não haja pedidos de reimpressões. Camilo já nem faz parte dos programas.
Está a confundir alhos com bugalhos.
Se é verdade que o acordo não vai aumentar a literacia, é bastante duvidoso que a literacia dos outros seja devida à não existência de acordos.
Quanto ao ponto que eu ressaltei não respondeu.
Porque razão a grafia a adotar terá de ser a que aprendeu na escola? Porque foi mais feliz lá?
Os níveis de “literácia” são equivalentes em Portugal, França e Inglaterra. Não se deve confundir *volume de produção* com níveis de domínio da língua escrita pelos que a falam.
Já os níveis de analfabetismo funcional entre a população formalmente alfabetizada e de fraco domínio das regras ortográficas entre profissionais da escrita entre anglófonos e francófonos é assustadoramente mais elevado do que entre nós lusófonos.
Ah, sim, a França, o mundo anglo-saxónico, e a Alemanha suspiram pelo dia em que chegarão ao nível de literacia de Portugal e, quiçá, até do Brasil, esse gigante cultural.
A Alemanha tem 7,5 milhões de *analfabetos*. Não analfabetos funcionais, como os mais de 50% da população adulta da França que não sabe a diferença entre “fabriquez”, “fabriqué” e “fabriquer” e escreve um pelo outro, ou a quase totalidade dos anglófonos (entre eles tradutores profissionais com os quais trabalho) que confunde rotineiramente “it’s” com “its” ou “there” com “their”, mas sete milhões e meio de pessoas — quase dez por cento da população total — incapazes de *ler* pouco mais do que o menu de um restaurante ou o nome de uma rua.
Mas os restantes 90% dos alemães que sim conseguiram superar o absurdo sistema educacional do país, segregacionista e discriminatório desde os níveis primários, *sim* sabem escrever sem cometer erros grosseiros, porque optaram, ao longo de *várias* reformas, por uma ortografia que se aproxime o mais possível da fala, eliminando apêndices inúteis e incômodos. Como o fizeram também italianos e espanhóis e vimos tentando fazer portugueses e brasileiros nos últimos cem anos. Ao passo que os anglófonos e francófonos, presos aos seus sistemas ortográficos “etimológicos” repletos de regras oriundas de línguas mortas e de grafias correspondentes a pronúncias extintas, são simplesmente incapazes de saber como se pronuncia ou como se escreve uma palavra desconhecida, porque por exemplo em inglês, como brincava Mark Twain, “ghoti” e “fish” se pronunciam do mesmo modo: “f” como em “enou|gh|”, “i” como em “w|o|men” e “sh” como em “na|ti|on”. O que resulta numa imensa proporção de indivíduos com formação superior incapazes de escrever corretamente a própria língua.
Isto dito, a minha assinatura está entre as primeiras quinhentas do primeiro grande manifesto publicado em Portugal contra o acordo ortográfico, e mantenho a minha oposição a esse absurdo até hoje e com cada vez mais convicção. Não, agora como então, por princípio contra qualquer acordo ou reforma ortográfica, mas por considerar que o produto incompetente e arrogante dos acadêmicos brasileiros e portugueses labora contra os seus próprios fins declarados e é um *obstáculo* no caminho de uma necessária e desejável unificação e simplificação da ortografia comum de quase trezentos milhões de falantes.
Para terminar, sim, desculpe, o Brasil *é* de fa(c)to um gigante cultural no cenário global, apesar dos altos índices de analfabetismo formal encontrados entre os brasileiros adultos (cerca de 15% deles, comparados a 11% dos portugueses ou — agora sabe-se — 9% dos alemães).
“Ao passo que os anglófonos e francófonos, presos aos seus sistemas ortográficos “etimológicos” repletos de regras oriundas de línguas mortas e de grafias correspondentes a pronúncias extintas,(..)
É uma visão dos finais do séc. XVIII que vê a ortografia uma transcrição fonética. Houve algumas descobertas, entretanto, no campo das ciências cognitivas e hoje sabe-se que a escrita e a leitura aconselhariam ortografias diversas.
As ortografias do inglês, do francês ou do alemão, usando o “ph”, não têm impedido que naquelas línguas se escreva o que há de mais relevante no mundo. De Kant a Proust, passando por Yeats ou Elliott, por Baudelaire ou Rimbaud, de Dickens a James Joyce.
Com a mesma ortografia foram escritas as comunicações científicas das grandes descobertas do século XX e deste, que têm valido os Nobel da physics, chemestry, ou da medicina.
Tudo parece, pois, saber de experiência feito, aconselhar esta velhíssima ortografia.
É que, apesar da ortografia “moderníssima”, o analfabetismo aumentou no Brasil nos últimos anos (facto inédito no mundo inteiro) e 38% dos estudantes universitários das universidades brasileiras são analfabetos funcionais ( http://noticias.band.uol.com.br/educacao/n oticia/?id=100000519730 ) e não será propriamente uma novidade dizer que o Brasil não se tem destacado pela sua produção intelectual e científica.
Caro Tomás Rosa Bueno,
Revisitando este espaço, gostaria primeiro de fazer ver que o mais elevado analphabetismo funccional na Allemanha vs o caso britannico e francez se deve principalmente às differentes origens dos immigrantes n’estes paises. Enquanto 4 dos 5 milhões de immigrantes de paises extra-communitarios em França são maghrebinos, e o ultimo é oriundo de paises tambem francophonos da Africa sub-Sahariana, e os immigrantes na Grã-Bretanha são do mesmo modo maioritariamente oriundos do antigo imperio britannico e logo anglophonos, o mesmo não vemos na Allemanha, que como sabemos nunca teve um verdadeiro imperio colonial. Isto significa por exemplo, e passe a generalização, que os dous milhões de filhos de turcos nascidos na Allemanha fallam―e logo escrevem―peor o allemão que filhos de indianos nascidos na Inglaterra fallam e escrevem o inglez. Os filhos dos immigrantes extra-communitarios na Allemanha escrevem simplesmente peor que nos paises com velhos imperios coloniaes e immigrantes maioritariamente d’esses paises. Exactamente o mesmo observamos na Escandinavia.
Assim vemos como o phenomeno nada tem que ver com orthographias ou reformas orthographicas nos varios paises, mas sim com motivos mais profundos.
Do mesmo modo, e contrariamente ao que escreve, os allemães não “optaram, ao longo de *várias* reformas, por uma ortografia que se aproxime o mais possível da fala”. Não faço a mais minima ideia de o que o terá levado a pensar ter sido esse o caso; queira investigar, por favor, a historia da lingua allemã nos ultimos dous seculos, e verá como o que escreveu é totalmente errado. A unica reforma levada a cabo em todo o seculo XX foi a de 1996, que nem por sombras teve o objectivo que refere, e cujos principaes elementos foram alias revogados dez annos mais tarde, em 2006. Esperemos que o mesmo venha a succeder ao Accordo Orthographico.
Gostaria ainda de fazer ver que não é, de forma alguma, necessaria uma correlação exacta entre a phonetica de uma lingua e a sua orthographia. Como escreve, em inglez e francez vemos immensas palavras que não sabemos simplesmente como pronunciar sem conhecimento previo das mesmas. Eu proprio muitas vezes cometto erros. E não fallamos apenas do “s” final francez, absolutamente impossivel de adivinhar em muitos casos: apenas para lhe dar um exemplo, em conversa com o inglez marquez de Cholmondeley, como pronunciaria o titulo? Ninguem o saberá adivinhar: o correcto é um brevissimo “Chomley”; e tambem eu tive que o ter explicado. Palavras assim, que temos que conhecer e ouvir para saber pronunciar, existem aos milhares em ambas estas linguas; e sinceramente, não vejo mal algum n’isso.
O grande erro dos simplificadores de orthographias é querer que exista uma correspondencia exacta entre graphia e pronuncia. Mas isto é um absurdo: dialectos existem, enormes differenças phoneticas regionaes existem.
E mais: eu não tenho a mais minima vergonha de, chegando a uma qualquer sympathica villa francesa ou inglesa, não saber talvez pronunciar o seu peculiar nome. Assim como não tenho a mais minima vergonha de, lendo alguma palavra obscura e desconhecida em alguma velha obra litteraria ou documento―sou historiador―não a saber por vezes pronunciar. Não podemos saber tudo. E tem que existir lugar para o erro.
Um importante reparo, continuando o que escrevi supra: o caro Tomás escreve: “O que resulta numa imensa proporção de indivíduos com formação superior incapazes de escrever corretamente a própria língua.”
Isto não é, simplesmente, verdade. O problema, como indiquei, é que por vezes não sabemos pronunciar certas palavras que lemos. Uma palavra inglesa como “cupboard” será normalmente pronunciada (mal) por quem nunca a ouviu como “cup-board” e não “cubbard”; “forehead” será pronunciada como “fore-head”, (como alias se faz nos Estados Unidos), e não o correcto “forred”; “victuals” será pronunciada tal como se escreve, e não o correcto “vittles”, e assim por diante.
Como pode ver isto é exactamente o contrario do que indicou: pouquissimos ingleses ou franceses com formação superior são incapazes de escrever correctamente a propria lingua; estes sabem perfeitamente escrever “victuals”. Tal como quanto ao que escreveu sobre o allemão, pergunto-me o que o terá levado a imaginar tal scenario.
Muitos estrangeiros, sem duvida, ao apprender inglez ou francez frequentemente não saberão como pronunciar certa palavra. Isto, para mim, não constitui qualquer problema. Como escrevi, tem que existir lugar para o erro. Isto é simplesmente fundamental: o perfeito nunca existirá.
A lingua é um pouco como o urbanismo: a etymologia corresponde às nossas bellas pequenas villas e cidades historicas na Europa, de ruas estreitas e tortuosas, que cresceram de forma organica com o passar dos seculos. Compare-se isto ao horror do esperanto, um lingua logica e funccional mas sem qualquer belleza―uma lingua para robots, comparavel, no urbanismo, a uma qualquer zona industrial moderna, sem qualquer belleza.
As linguas altamente etymologicas, n’esta metaphora, possuem todo o charme da architectura typica da sua região. As numerosas peculiaridades orthographicas de certas linguas são apenas as sinuosas ruelas e travessas d’estes lugares, cheios de historia e de encanto. Apenas mentes doentias quererão transformar a lingua em algo apenas practico, avaliado apenas em horas e custos de ensino, e não em belleza e lyrismo. A lingua não tem que ser logica; não é uma engrenagem industrial. E nós somos homens, não machinas.
Para terminar, gostaria ainda de comentar o que escreveu no final: “Para terminar, sim, desculpe, o Brasil *é* de fa(c)to um gigante cultural no cenário global […]”
Um gigante cultural, caro Tomás, é a India, ou a China. N’esta ultima, por exemplo, o Tomás pode ainda hoje jogar um jogo de go ou deliciar-se ao ouvir um guqin, um jogo e um instrumento musical com perto de tres mil annos de existencia. Poderá ler os classicos chineses em textos com perto de dous mil annos escriptos com os mesmos characteres que ainda hoje se usam. Não quer mesmo comparar, pois não? O Brasil comparado a estas é um anão cultural.
Aos olhos do mundo, o Brasil é apenas futebol e samba. É o Amazonas e a selva. É o Rio de Janeiro e o Christo Redemptor, Copacabana e o carnaval. São as praias e as favelas. E são mulheres talvez demasiadamente faceis. E nada mais. Isto é incontornavel. Chama a isto um gigante cultural?
Qualquer idiota―no sentido latino da palavra―saberá que a India e a China, para dar os melhores exemplos, possuem civilizações antiquissimas. Nenhum idiota terá lido ou sequer ouvido fallar da Ramayana e da Mahabharata; provavelmente não saberá practicamente nada sobre Hinduismo, e nunca terá ouvido fallar de Mahayana, Hinayana e Therevada. E não saberá certamente differenciar entre Buddismo, Taoismo, e Confucianismo. Mas qualquer idiota, por muito ignorante que seja, terá uma ideia, uma vaga noção, de tudo isto, d’esta realidade inegavel: que estes são, de facto, gigantes culturaes.
O Brasil não originou nem philosophias nem religiões. Não possui sequer lingua propria.
Na America Latina, os gigantes culturaes são principalmente o Mexico e o Peru, com muito maior riqueza historica, ethnica e linguistica que o Brasil, berços de antigas civilizações e sedes desde o seculo XVI dos vice-reinos de Espanha no Novo Mundo. A grande maioria dos europeus que visitam esses paises quer visitar ruinas aztecas e incas, entre outras, e centros historicos da era colonial. Inversamente, qualquer exame do turismo internacional no Brasil revelará que practicamente todas as principaes atracções aqui são naturaes, acima de tudo as praias. Não é a cultura o que atrai no Brasil.
Um colosso geographico na America do Sul não faz um gigante cultural. As differenças regionaes entre paulistas e baianos, entre gauchos e mineiros, ou entre cariocas e pernambucanos não fazem um gigante cultural. Assim como não é o tamanho geographico dos EUA, nem são as differenças entre californianos e nova-iorquinos, ou entre texanos e havaianos, que fazem dos EUA um gigante cultural.
Os EUA estão a influenciar culturalmente todo o mundo, principalmente o ocidental. O proprio Brasil soffreu no ultimo meio seculo muito mais forte influencia cultural dos EUA que, por exemplo, Portugal. Mas o Brasil está a influenciar quem?
Para pessoas como eu, o Brasil é ainda um punhado de villas historicas (que, infelizmente, não se comparam às congeneres espanholas do Mexico ao Peru), e ainda por exemplo um ou outro compositor, um ou outro architecto (Niemeyer é enorme), e um ou outro escriptor mais decente (mas nenhum Borges), e assim por diante.
Mas nada d’isto se compara à immensa riqueza cultural de um Irão, de um Japão, ou até de muitos paises europeus.
Veja, apenas na Dinamarca e Suecia dos vikings, um Kierkegaard, um Strindberg, ou um Hans Christian Andersen, mais popular na China que todos os artistas brasileiros juntos. Veja um Nobel de premios famosos, um Bergman de filmes extraordinarios, ou um Utzon cuja Opera de Sydney é talvez o mais emblematico edificio do seculo XX. Ou veja a forma como o Lego ou a Ikea influenciaram a nossa forma de brincar e viver em decadas mais recentes.
Estes pequenos paises escandinavos apenas teem maior peso cultural que o immenso Brasil, caro Tomás. Estão sempre na vanguarda social e cultural. Influenciaram muito mais o Brasil, sem este o saber, que o Brasil a elles.
Ainda insiste em ver o Brasil como um gigante cultural…?
(E quanto ao dominio da lingua portuguesa por parte de jovens academicos brasileiros, como este é revelado em quasi todas as dissertações brasileiras que leio na minha area profissional―Historia―, e como este se compara ao dominio da lingua por parte dos congeneres portugueses, deixo apenas esta suggestão…)
“Espero que não se atrevam a fazer o mesmo aos textos de Vasco Graça Moura que daqui a uns anos resolvam “republicar”.”
Não tenha dúvidas que o farão.
Também espera a republicação dos Lusíadas com a ortografia usada por Camões no século XVI?
José Neto
Porque não? Quanto mais não seja para quem não conhece poder ajuizar e ver as diferenças.
No meu tempo de liceu deram-me a ler Cantigas de Amigo e Gil Vicente nas versões originais. Agora nem em português corrente e com o novo acordo conseguem
ler o que lá está.
Como me parece evidente, eu não me referia a edições diplomáticas. Também estudei Fernão Lopes, Gil Vicente e outros na ortografia em que escreveram. Não serem agora estudados é questão diferente, distintas da polémica entre acordofóbicos e acordofílicos, e lamento essa ausência.
José Neto
Estes leitores que pretendem fazer ironia com as “orthographias” antigas da língua portuguesa – às vezes referindo-se a autores que publicaram há pouco mais de cem anos – estão, no fundo, a produzir argumentos contra o “acordo ortográfico” e não a favor. Ao contrário do que supunham.
É incompreensível que um inglês leia Charles Dickens na grafia original, o mesmo sucedendo a um francês em relação a Victor Hugo, um espanhol em relação a Peréz Galdós e um norte-americano em relação a Mark Twain, enquanto as obras de um Camilo ou um Eça de Queirós já foram impressas em quatro diferentes grafias do nosso idioma.
As sucessivas reformas na ortografia portuguesa – já lá vão quatro no último século – são um péssimo exemplo de intromissão do poder político numa área que devia ser reservada à comunidade científica. Cada mudança de regime produziu uma “reforma ortográfica” em Portugal. Para efeitos que nada tinham a ver com o amor à língua portuguesa, antes pelo contrário.
Cada “reforma” foi-nos afastando da raiz original da palavra, ao contrário do que sucedeu com a esmagadora maioria das línguas europeias – como o inglês, o francês, o alemão e em certa medida o espanhol. A pior de todas essas reformas foi a de 1990 que separa famílias lexicais produzindo aberrações como “Os egiptólogos que trabalham no Egito[sic] são quase todos egípcios” ou “a principal característica dos portugueses é terem um forte caráter[sic]”.
Esta ruptura com a etimologia ocorre, convém sublinhar, num momento em que nunca foi tão generalizada a aprendizagem de línguas estrangeiras entre nós. Assim, enquanto os políticos de turno pretendem impor a grafia “ator”[sic] à palavra actor, os portugueses continuarão a aprender “actor” em inglês, “acteur” em francês, “actor” em castelhano e “akteur” em alemão.
Não adianta deitar fora a etimologia pela porta: ela regressa sempre pela janela. Através de idiomas nunca sujeitos aos tratos de polé de “acordos ortográficos” destinados a produzir legiões de analfabetos funcionais.
A questão que aborda, e já dividia Madureira Feijó e Luís António Verney, é a de dar prioridade à etimologia ou à fonologia em matéria ortográfica. Fico-me pois por aqui, uma vez tal questão é demasiado ampla para caber neste nosso bate papo, aliás agradável.
José Neto
O Verney é o exemplo curioso. Traduziu (mal e tacanhamente) o que leu lá fora. Subsiste porque era da maçonaria.
Para se ter ideia das suas ideias, considerava que a poesia “não é coisa necessária na República; é faculdade arbitrária e de divertimento”. A Camões, achava-o com pouco discernimento.
Sim, talvez seja um motivo para levarmos o Verney a sério: é suficientemente medíocre para ser uma figura querida em Portugal.
Informe-se. Houve revisões na ortografia em todas as línguas no último século. Inglês e Francês incluídos.
Datas e lugares, s.f.f.
Ora vejamos, Shakespeare e Camões coexistiram por algum tempo (de 1564 a 1580).
O mundo anglo-saxão que estuda Shakespeare nas aulas do secundário usa uma versão com a ortografia de 1650 +-.
Isto é, Shakespeare é republicado diariamente em todo o mundo numa ortografia com 350 anos. E no Zimbabué há, até, um Festival Shakespeare que movimenta milhares de jovens (deve haver algo de semelhante no Brasil, um festival Camões e representações de el-rei Seleuco – nem outra coisa seria de esperar num país tão dado às coisas da cultura).
A ortografia do português de Camões – não confundir ortografia com as fontes tipográficos (diferentes) pouco mudou.
A leitura de livros na ortografia da época (pratica comum no 1º mundo) dá-nos um conhecimento mais aprofundado da língua, acrescentando ao leitor o conhecimento e a descoberta da sua história.
Por isso, e querendo caminhar no sentido do 1º mundo e não da favela cultural, não se percebe a pergunta.
Está a repetir um excelente documentário sobre Sophia na RTP memória. 🙂
Não se esqueçam que o acordo é uma questão de fanatismo em crendices tolas de há 200 anos.
Como qualquer fanatismo destrói e provoca danos. Neste caso, quem os sofre são a língua e a cultura portuguesas. Infelizmente, este novo beatério está tão infiltrado no estado – que somos todos nós – que o usam para nos agredir e imporem, pela força, as suas ideias.
Um nova inquisição num país que já teve tantos séculos de falta de liberdade.
Eu então fiquei escandalizadíssima quando, tendo perdido os “Contos Exemplares” que muito amei na minha adolescência, resolvi comprar uma edição recente (ao cuidado da filha Maria, aliás…) e me sai um livro COM GRALHAS!!!
Em Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, no ciclo “Porto de encontro”, uma iniciativa da Porto Editora, na Casa da Música:
https://www.youtube.com/watch?v=jrHb_1XN pIw&feature=youtu.be
” – Se hoje fosse viva, e aqui já entro em considerações que vos peço o favor de verem como meramente pessoais e subjectivas, Sophia seria fatalmente contra o acto de prostituição da língua portuguesa que é o acordo ortográfico”
– Miguel de Sousa Tavares.
No liceu, quando estudei o Auto da Barca do Inferno, lembro-me de ter um trabalho de casa que envolvia escrever uma carta (a partir do Inferno) de Brígida Vaz a uma amiga que ficara na Terra. Sem qualquer inspiração para isso, decidi escrevê-la tanto quanto possível de acordo com o que eu percebia a linguagem do texto original. Pergunto-me se hoje algum aluno o poderia fazer.
Concordo e apoio. E digo mais: considero uma falta de respeito publicar textos do Camilo, do Eça e do Pessoa na ortografia oficializada em 1911, que ainda por cima foi feita por republicanos.
—
Há motivos e argumentos de sobra contra a Avacalhação Ortográfica, e subscrevo muitos. Mas este não é um deles.
Caros,
Concordo que uma obra deve sempre ser reproduzida como originalmente foi escripta, desde que a sua leitura seja relativamente facil.
Assim, practicamente qualquer texto portuguez a partir do seculo XVIII é facilmente legivel hoje; possuo varias obras da epocha na minha bibliotheca, e sei que se por vezes nos parecem difficeis hoje, isso deve-se mais aos themas, typicamente a religião, ou panegyrica, que à graphia. Mas não vejo a menor razão porque não deveremos reproduzir digamos D. Antonio Caetano de Sousa na sua graphia original.
Textos da era medieval são mais difficeis; possuo por exemplo as chronicas de Fernão Lopes e obras de D. Duarte em edições diplomaticas modernas, mas admitto que poucos as saberiam ler. Aqui entende-se uma graphia moderna para o publico geral, e mesmo talvez substituição de vocabulos archaicos que apenas historiadores e philologos hoje entendem. Mas falamos, aqui, de obras do seculo XV.
Quanto aos escriptores de Oitocentos, todos elles são de facilissima leitura hoje. Mas a questão nem é bem essa. Ler a graphia original diz-nos algo sobre os escriptores. Quem escrevia “az” [de cartas], e quem escrevia “ás”? Quem escrevia systematicamente “noute”, e quem escrevia “noite”? Braamcamp Freire, por exemplo, um enorme erudito, escreveu até à morte em 1921 “lião” e “rial”; e ¡usava ponctos de interrogação e exclamação invertidos!
Ler uma obra na graphia original, n’estas epochas recuadas sem orthographia coherente a nivel nacional, é assim descobrir uma quantidade de thesouros: cada escriptor tinhas as suas idiosyncrasias, as suas differenças, e depois de lermos as suas obras conhecemos um pouco melhor o escriptor. Tudo isto se perde quando usamos graphias modernas ― e quanto mais modernas mais se perde.
Assim como perdemos o contacto com o passado. Uma das grandes bellezas da lingua é exactamente o podermos ler e entender um livro escripto há talvez meio millennio. Quantas mais reformas orthographicas, mais difficil isto se torna. Quando terão as pessoas que ter um curso de paleographia para poderem ler obras de Oitocentos?
Na Allemanha eu encontro em qualquer boa livraria Schopenhauer na sua graphia Oitocentista. Na Dinamarca encontro Kierkegaard na sua. A mentalidade aqui é obvia: para entender um pensador, temos que o ler com a syntaxe, a orthographia, e todos os anachronismos com que escreveu. Por isso ainda consideram os allemães ler Nietschze &c no original integral. E na Allemanha, tal como em Portugal, não existia uma orthographia uniforme universal no seculo XIX.
Não possuimos em Portugal pensadores d’este calibre n’esta centuria. Mas porque não podemos encontrar Camillo, ou Eça &c ― em cujas obras o lyrismo das palavras é mais importante que na philosophia ― tal como escreveram, na Bertrand ou na Lello?
No meu Facebook poderão ver que assim como aqui escrevo, assim escrevo sempre. Pecco por ser demasiado classicista, sem duvida. Já em Oitocentos poucos escreviam “eschola”, preferindo o simples “escola”. Mas algum de vós teve problemas em ler o que escrevi?
Algum de vós duvida que seguir esta orthographia facilitaria a apprendizagem da escripta inglesa, e ainda a da francesa, e mesma a allemã, apenas para dar os mais importantes exemplos?
E algum de vós duvida que esta orthographia, ao contrario do que affirmam alguns, estimula a intelligencia? A curiosidade? Que perguntariam os pequenos alumnos quando a vissem? “Porque é assim?” E não é esta a questão mais fundamental de todas?
Simplificar ensina-nos que o que é facil é bom. E acabamos por delirar que a McDonald’s serve boa comida. Difficultar ensina-nos o contrario: que o difficil é bom. Isto é como o montanhismo: ninguem quer escalar uma pequena collina; todos sonham escalar a montanha mais alta, a mais difficil.
Por tudo isto: que seja a orthographia difficil. E que seja respeitada a graphia original de cada escriptor.
Cumprimentos,
A.
Não podia estar mais de acordo.
Também de acordo.
Convém lembrar que a evolução parte do simples para o complexo. Do complexo para o caótico e o mutilado é o caminho da decadência.