Era uma menina que rezava todos os dias. De joelhos, olhos fechados e mãos encostadas ao peito, pedia fervorosamente:
– que Deus não lhe desse vocação de freira. Que ela queria ter muitos filhinhos e se fosse para freira não podia ser mãe.
– que Deus nunca a fizesse apaixonar-se por um homem negro. Que ela queria que os filhinhos fossem parecidos com ela e, se saíssem mulatos, iam ser mais parecidos com o pai.
– e sobretudo que nunca, mas nunca, Nossa Senhora lhe aparecesse como tinha aparecido aos três pastorinhos.

Sinceridade acima de tudo. Tirando aquilo de ser mãe, também eu rezaria assim se tivesse a coragem de pedir que não me pusessem à prova. Que nenhuma visão ou aparição venha perturbar a nossa zona de conforto como agora se diz.
Lembro-me tão bem de ser miúda e de viver no terror de que Jesus me aparecesse.
Eu, pelo contrário, queria muito um encontro imediato para me poder queixar dos padres, confessores e catequistas, que aterrorizavam a vida das crianças. Num dia em que estive duas horas de joelhos na pedra fria por não saber uma Salvé Rainha, só desejava poder queixar-me ao CEO himself 🙂 🙂
Muito bom, Dulce.
