Do estar desempregado


cosenosapo,

Eu já não estou, é a primeira novidade. Apareceu finalmente o meu emprego e eu acredito com alguma força que vai correr bem. Mas não é disso que venho falar. Tentarei em poucos posts descrever alguns aspectos do lado de quem está nessa terrível posição.

Enquanto se está desempregado passa-se pelas mais diversas situações, observações e opiniões. Mas o pior de tudo é quando o telefone toca, é um contacto para uma eventual entrevista, um teste de idioma, uma hipótese “que pode vir a acontecer, mas ainda sem certezas”. Não me interpretem mal, não é o interlocutor ou o que/quem nos levou até ele que está mal, as pessoas fazem o que podem ou está ao seu alcance, e eu tenho algumas a agradecer por terem ajudado na minha busca de trabalho, ainda que sem sucesso.

O pior é mesmo o outro lado, o nosso. O que procura, tenta, ouve e espera uma oportunidade e uma segunda chamada. Sabe que é capaz, pode fazer aquele trabalho sem problemas ou se lho explicarem, deixa-me lá pensar o que levo vestido para a entrevista. E o novo contacto tarda, e acaba por não chegar. Mas sempre que há um novo, toda a esperança se renova e recomeça, vai ser bom, aquela zona até é boa e eu não me vou atrapalhar, eu faço o que for preciso. É como se o que está para trás não importasse já, deixa lá, alguma coisa havia de haver para ti caramba, já chega de esperar. E foram algumas vezes em que afinal ainda não era desta.

Comigo foram dois anos. Não estive parada e tive experiencias enriquecedoras, estive em lugares onde não me imaginei, vi o lado bom de muita gente. O mais difícil foi mesmo esse jogo esgotante da energia para começar de novo e a desilusão de ainda não ser dessa vez.

15 comentários em “Do estar desempregado”

  1. Numa sociedade minimamente evoluída, o desemprego não é um problema individual, é um problema de desequilíbrios económicos.
    Cada vez mais, a economia precisará de menos mão-de-obra para as actividades económicas clássicas, e outras actividades, não sendo remuneradas, não entram na economia, nem sequer despertam.

    Há poucas soluções para o excedente de mão-de-obra:
    – a versão liberalóide – desenrasquem-se, peçam esmola…
    (algo semelhante à Inglaterra de Charles Dickens)
    – a versão estatalóide – subsídios de desemprego
    (a solução escandinava, que teve que ser corrigida)
    – a versão nova economia… que tarda em aparecer, e que não sendo criada espontaneamente, tem que ser patrocinada pelo estado… como foi toda a economia do pós-crises. Algo semelhante ao New Deal de Roosevelt…

    Essa nova-economia deveria ter aparecido pela bolha informática no início de 2000, mas não se repôs do ataque financeiro ao Nasdaq em 2002.
    A Google é uma plataforma económica que deveria ter uma importância económica muito maior do que a que tem.
    Há inúmeros serviços gratuitos na internet que representam economia não contabilizada. O valor desses serviços está a ser explorado pelos providers, e não chega aos produtores de conteúdos. Tudo isso é um problema que não se resolve com simples publicidade. A publicidade está apenas a dar relevo à velha economia.
    Há toda uma legislação que falta criar, para dar relevo à nova economia.

      1. Tem razão. Isto é na teoria, mas na prática ninguém muda nada enquanto a pressão social não atinge um ponto limite.

  2. Muito bem, Marta. Parabéns. É importante partilharmos estas experiências. O desemprego é demasiadas vezes referido como algo abstracto, para efeitos estatísticos, quando é um drama muito premente e muito concreto. Pessoal e transmissível.
    Sei do que falo: já estive três vezes desempregado. Em conjunto, totalizou dois anos. E de todas as vezes senti precisamente o mesmo que tu: que isso me fazia valorizar ainda mais aquilo que merece ser valorizado. E de cada vez que recomeçamos estamos mais frágeis por um lado mas mais fortes por outro.
    Um dia destes sou capaz também de escrever sobre isso aqui.

    1. Verdade, Pedro. Não escrevi antes porque também desenvolvi um lado mais popular e não queria “agoirar” a minha sorte antes de ter emprego. Agora as memórias vão ficando menos claras, mas tentarei cá deixar mais um ou dois aspectos característicos dessa fase.

  3. Cara Marta,

    Parabéns, e as maiores felicidades. Li na sua experiência a minha, a sucessão de sobressaltos de esperança com sensações de irrelevância. É realmente um jogo esgotante, que até amachuca quando sabemos que aquela oportunidade era a tal, e as coisas não acontecem sem se perceber porquê…

    Cumprimentos,

      1. A sua frase diz tudo , nos dias que correm um emprego ou trabalho que seja remunerado tem como (pelo menos para mim) segunda remuneração um elevar da auto-estima e a forma diferente (+ positiva) como se encara cada dia.

        Desejo-lhe felicidades neste novo desafio e saiba também que eu todos os dias vou aprendendo muito com essa situação, infelizmente mais do que aquilo que pensava ser possível.

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