Ainda hoje tenho Cem Anos de Solidão como um dos livros que mais me marcaram. Não foi o melhor que alguma vez li, mas foi daqueles livros que é lido no momento perfeito. Nessa altura era eu estudante e tinha um certo ideal romântico do mundo. Cem Anos de Solidão transmitiu-me o realismo para o qual eu tendia na altura (andava à volta com os neo-realistas portugueses) e acrescentou-lhe o romantismo (a tal parte mágica) que lhe deu o golpe de asa na minha imaginação. Tinha na altura uma Renault 4, uma “quatruéle” herdada de um avô a que dei, pela sua durabilidade, o nome de Úrsula. O livro é de facto excelente, mas, como disse, distinguiu-se por o ter lido quando o fiz. Voltei a ele há um par de anos e não me agarrou. Não teve a mesma força na minha mente hoje mais cínica.
Já a releitura de O Amor em Tempos de Cólera deu-me mais prazer que a primeira leitura. Suponho que poderei reler o livro novamente dentro de 10 ou 20 anos e continuarei a gostar dele, a encontrar nele novas texturas que me toquem. É um livro diferente. O mesmo poderia dizer de O Outono do Patriarca. Se Cem Anos de Solidão foi lido de uma assentada, numa febre de dois ou três dias mal dormidos e com aulas ignoradas, O Amor em Tempos de Cólera foi sorvido, em ambas as leituras, ao longo de uma ou duas semanas, sem pressas. O Outono do Patriarca andou pelo meio. Sempre que lhe peguei fui lendo sôfregamente, como se não pudesse esperar pela próxima sala, pela próxima extravagência. Depois de dois ou três círculos, no entanto, a vertigem tomava conta de mim e não me sentia capaz de pegar no livro durante quase uma semana. Nessa altura pegava de novo no livro e voltava à leitura sòfrega até à quase exaustão.
O único livro de que não gostei – embora seja certamente defeito meu – foi Crónica de uma Morte Anunciada. Demasiado curto para me prender a imaginação e com uma claustrofobia que não me tocou mas me fez sentir desagrado. É um livro ao qual terei que regressar um dia. Já O General no seu Labirinto sofreu por ter sido o livro em que tentei pegar após O Outono do Patriarca. Não consegui passar da página 5, esgotado. É um livro que sinto, intrínsecamente, ser daqueles que me encherá perfeitamente mas ainda não, ainda não…
Depois temos os outros, “menores”. A Revoada, que me fez lembrar um cruzamento entre O Outono… e o Cem Anos… Gostei muito d’O Relato de um Náufrago. Não era grande literatura, mas pareceu-me um belo cruzamento entre crónica jornalística e romance. A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile foi mais um livro de histórias, a flutuar entre o auto-elogio envergonhado e o romance de viagem. Deu prazer na leitura mas foi esquecido pouco depois. Doze Contos Peregrinos não tinham a leveza de um Luís Sepúlveda, e eram por isso mais difíceis, mas demonstraram-me também o fosso entre os dois escritores.
Gabriel García Marquez não foi o melhor escritor do século XX, longe disso. Terá sido um merecido prémio Nobel da Literatura, com toda a polémica que tal implica. Foi um autor que deixou algumas obras-primas e alguns (apenas) bons livros. Foi no entanto alguém que usou a sua imaginação e a sua arte para nos maravilhar e envolver. E por isso, se mais nada, merece ser recordado pelo que nos deixa.

Revejo-me nas tuas experiências com o Cem Anos e o Amor nos Tempos… Aconteceu-me algo semelhante. O Cem Anos desapareceu-me da estante há muitos anos, fiquei agora com vontade de o comprar na Feira do Livro para ver como será voltar a Macondo. Já o Amor nos Tempos… tenho-o sempre à mão para debicá-lo quando me apetece. De cada vez que reincido, nunca me desilude. É irresistivelmente romântico: “É a vida mais que a morte que não tem limites”,lê-se nas últimas linhas. Uma frase que na despedida de Gabo se torna ainda mais comovente.
Aconselho-te a voltar à Crónica de uma Morte Anunciada. Se foi a claustrofobia que te incomodou, vale a pena insistires, porque a claustrofobia me pareceu absolutamente necessária nessa obra. Talvez não estivesses com a disposição certa para a apreciar no momento em que lhe pegaste. Acontece tanto…
Tens toda a razão, a claustrofobia do livro é absolutamente indispensável. Eu reconheço a qualidade da obra, mas não me agarrou e por isso não a consegui apreciar. É de facto mais um para voltar a ler, mas ainda não me deu para isso :).
Também gostei muito de ‘Relato de um Náufrago’, que está para GGM como ‘O Velho e o Mar’ para Hemingway.
Também não gostei nada de ‘Miguel Littín, Clandestino no Chile’: exemplo de escrita preguiçosa, deslumbrada e auto-indulgente – o equivalente aos ‘Cadernos de Lanzarote’ de Saramago.
O Nobel atribuído a GGM em 1982 foi um dos mais acertados. Sobretudo por distinguir um autor dito “comercial”. O júri de Estocolmo sempre teve grande alergia a escritores que vendiam muitos livros – autores como Greene ou Jorge Amado, por exemplo, acabaram por passar à margem do prémio precisamente por causa disso. Acontece hoje o mesmo com Milan Kundera e Philip Roth. Ora GGM já era ‘best seller’ (detesto esta expressão) muito antes do Nobel. Não precisava dele para nada.
Ao contornar o dogma, premiando um escritor que vendia milhões de exemplares em todo o mundo (sucederia o mesmo com Grass, Naipaul e Vargas Llosa), a Academia Nobel revelou uma ousadia de que poucos já então a julgavam capaz.
Estive quase a dizer que era o melhor dos escritores comerciais ou o mais comercial dos grandes escritores. Fizeste-o (de certa forma) perfeitamente.
Li “Cem anos de solidão” no original castelhano em 1967 , tinha 21 anos e andava no 3º ano do IST .
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cem_anos_de _solid%C3%A3o
Meu Pai tinha trazido de Madrid o livro que tinha acabado de saír , a capa era a que aparece aqui e lamento não saber o que foi feito do livro , as vidas na família deram muitas (muitíssimas) voltas .
Só o reli uma vez , pelos 40 e tal (na tradução portuguesa), numa altura em que a cabeça estava demasiado ocupada com tanta coisa do dia-a-dia que hoje me parece ridícula .
Acho que está na altura de reler este livro extraordinário pelas razões aqui apontadas .
No original , claro .
Boa sugestão.
Descobri Garcia Marquez aos 13/14 anos com ” Relato de um Naufrago”, não sei se te lembras de me dares o livro para ler, e desde então que Garcia Marquez se tornou um dos meus autores de eleição. Pouco me importa que seja comercial ou não. “Crónica de uma Morte Anunciada” é sem duvida um dos livros mais deliciosos que conheço, escrito de uma forma simples, com humor, é delicioso do inicio ao fim. “Cem anos de Solidão” é o livro maior de GGM mas que não se compara ao “Outono do Patriarca” ou “Ninguém escreve ao Coronel”. Quanto ao “Amor em tempos de cólera” é um livro giro mas que não me diz nada, não consegui entrar no livro, cada vez que desfolhava uma página esperava qualquer coisa mais, mas nunca cheguei a encontrar. Só para terminar os contos do GGM são deliciosos, não me recordo do nome da compilação dos contos, e óptimos para miúdos pequenos.
Lembro-me vagamente disso. Sei que adoraste a “Crónica” e gostaste menos do “Amor”, ao contrário de mim. Mas lá está, depende por vezes dos momentos em que lemos os livros.
Os contos são mesmo o “Doze contos peregrinos” (a não ser que ele tenha outro) que referi no post.
É outro, uma compilação. Não sei mesmo o nome.