A segunda vez


Pedro Correia,

 

“Tenho muita consideração pelo Presidente Eanes, votei duas vezes nele.” Palavras actuais de Mário Soares. Que em nada condizem com o que revelou na década de 90 a Maria João Avillez,  no segundo volume de uma extensa entrevista biográfica logo tornada obra de referência.

“Em quem votou?”, perguntou-lhe a jornalista, referindo-se às presidenciais de 1980, quando Soares auto-suspendeu as funções de secretário-geral do PS precisamente por não acompanhar a opinião, maioritária no partido, de que o voto socialista deveria recair em Eanes. Resposta de Soares: “No general Galvão de Melo. Foi um voto de protesto, completamente inútil. Também poderia ter votado em Pires Veloso [outro general], com quem aliás simpatizo. Ou em branco. A questão dirimia-se entre dois [Eanes e o general Soares Carneiro], nos quais, em consciência, não podia votar.” (Soares-Democracia, p. 125, Círculo de Leitores, 1996).

Como Eanes apenas se submeteu duas vezes a escrutínio, nas presidenciais de 1976 e de 1980, questiono-me qual terá sido a segunda vez em que Soares votou nele.

20 comentários em “A segunda vez”

  1. Eu pergunto, como é que se há de lembrar em quem votou em tão pretéritas eleições? Será que anotou na agenda? E que depois guardou a agenda estes anos todos?
    Eu não me lembro em quem votei nem sequer na última eleição presidencial (nem legislativa, nem autárquica), quanto mais nas anteriores!

    1. Luís Lavoura

      Ao tempo que ando aqui (e noutros blogs) a lê-lo – e até por vezes a responder-lhe – não é que eu tivesse grandes dúvidas e até já o comentei mais de uma vez (aqui e noutros sítios) .

      Mas este seu comentário é uma belíssima confirmação do papel que escolheu interpretar na blogosfera : há quem se esforce por dizer coisas com algum interesse quando afinal é tão fácil ficar “famoso” só por dizer disparates …

    2. Luís Lavoura,

      A sua capacidade de dizer imbecilidades para defender a esquerda não me deixa de surpreender.
      No caso de ser realmente verdade esse seu estado clínico, a farmácia mais próxima tem muitos produtos para isso: Risperdal ou Memofante. Take your pick.

    1. Muitos biógrafos de políticos reescrevem a história à medida de conveniências de ocasião, nomeadamente políticas. Neste caso Soares funciona como biógrafo antecipado de si próprio.

  2. Posso estar a ser traído pela minha memória, mas Ramalho Eanes não foi candidato pelo PRD nas legislativas de 1987? Talvez aí Soares tenha colocado duas cruzinhas – e isso explica os seus “dois votos”.

      1. Eu estava a ser sarcástico naquilo que escrevi, mas consigo muito bem imaginar Soares a votar noutro partido que não o PS: bastaria que isso trouxesse mais vantagens para a sua pessoa.

        Há um pormenor na notícia do jornal I a que achei particular piada. A frase soárica que citou é anunciada como tendo surpreendido Eanes. Gostaria de ter visto a cara de Ramalho Eanes quando ouviu isto, ele que me recordo de, numa entrevista de há muitos anos, ter qualificado Soares como “um bom actor”.

  3. Luis Lavoura, você acha que Mário Soares, logo Mário Soares… não se lembraria se votou ou não em Eanes ? Por favor…
    E se o Luis não se lembra em quem votou, não quer dizer que outros não se lembrem.

    1. No caso do ex-PR não se põe sequer a questão da memória, boa ou má. Por ter sido dito e conferido pelo próprio na obra em causa. Basta ir à página que refiro.

  4. “Solomon saith, There is no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, That all knowledge was but remembrance; so Solomon giveth his sentence, That all novelty is but oblivion. Whereby you may see, that the river of Lethe runneth as well above ground as below. There is an abstruse astrologer that saith, If it were not for two things that are constant (the one is, that the fixed stars ever stand a like distance one from another, and never come nearer together, nor go further asunder; the other, that the diurnal motion perpetually keepeth time), no individual would last one moment. Certain it is, that the matter is in a perpetual flux, and never at a stay.”

    http://ebooks.adelaide.edu.au/b/bacon/francis/b12e/essay58.html

    há poucos assim, com a estatura do soares, sempre a fazer/refazer a história.

  5. Deste senhor Soares, já nada me espanta!
    O senhor que devia estar mais preocupado em gozar a sua merecida reforma, está mais interessando em demonstrar que está cada vez mais senil das ideias!!!

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