Leituras


Pedro Correia,

 

 

«Estar desempregado pode, em certas condições, tornar-se estimulante. De repente, encontramo-nos fora do sistema, não fazemos parte do mundo, ninguém nos quer, batemos às portas e as portas não se abrem, os conhecidos mudam de passeio quando nos vêem a tempo, ou então enchem-se de piedade, o que ainda é pior. É uma boa altura para sabermos se somos apenas o que fazemos, ou se vamos mais longe do que esse pouco.»

José Saramago, A Noite (1979), p. 66

Ed. Caminho, 2009 (4ª edição)

20 comentários em “Leituras”

  1. Ai da Isabel Jonet, se se atreve a afirmar algo parecido! Ai do governante! E, no entanto, se Saramago se tivesse conformado e esperasse pela reforma, teria perdido uma segunda vida muito mais fascinante do que a primeira, e mais teríamos perdido nós, os apreciadores da sua obra.

    1. Saramago falava pouco de si próprio na sua obra ficcional. Seleccionei este trecho por me parecer de cunho nitidamente autobiográfico: o escritor faz tese geral e abstracta a partir da sua própria experiência, quando se tornou um “desempregado de longa duração” (como agora se diz), aos 53 anos. Nessa altura todas as portas se lhe fecharam – até as do próprio partido político a que pertenceu até ao fim da vida.
      E no entanto se não fosse essa experiência amarga, que tanto o marcou, jamais teria sentido o impulso e a motivação ditados pela necessidade que lhe permitiram começar, precisamente nesse período, uma segunda carreira profissional – desta vez como escritor a tempo inteiro – que viria a desembocar onde desembocou.

    1. Saramago foi um dramaturgo acidental. Esta peça, sobre a noite do 25 de Abril de 1974 no interior de uma redacção de jornal, foi escrita na sequência de um desafio que lhe fez a saudosa encenadora Luzia Maria Martins (que fundou e dirigiu o teatro Vasco Santana, cujas ruínas ainda podem ser contempladas por quem passar naquele decrépito e lamentável quarteirão onde em tempos funcionou a Feira Popular de Lisboa). Uma peça recentemente levada à cena no Teatro da Trindade, com boa adaptação e um elenco de muita qualidade. Sempre com sala cheia. Vi-a em Janeiro e gostei. Curiosamente o trecho do livro que aqui transcrevo é suprimido nesta versão da peça. Gostava de saber porquê.

  2. Gosto de ler Saramago. Alguns livros são um desafio.
    A passagem que o Pedro escolheu aponta um dedo desconfortável á democracia de 79, quando os incómodos se tornavam dispensáveis. Talvez por isso tenha sido suprimida do roteiro.

    Boa noite Pedro e núcleo duro do Delito.

    1. Achei boa a adaptação da peça, embora tenha suprimido personagens, introduzido falas das personagens suprimidas nas que se mantiveram e eliminado cirurgicamente alguns trechos, como este. O conjunto resulta, é dinâmico. E é um dos raros textos da dramaturgia portuguesa centrado no mundo do jornalismo, o que contribuiu para o meu interesse.

  3. Das 4 peças de teatro de José Saramago que li até hoje, esta é a minha favorita, e já a li duas vezes. É uma obra humana, cheia de esperança, e o olhar por dentro do funcionamento dos jornais fascistas, com toda a mecânica da censura, é um brinde acrescido.

    1. Gostei da peça. E no mesmo dia em que a vi comprei o livro, que logo li. Ainda com a visão (e audição) da peça bem fresca. É um texto muito interessante, também pelo que revela da experiência do próprio Saramago nas entrelinhas. Ele está claramente reflectido na personagem do editor de notícias regionais, sem possibilidade de ascensão na hierarquia do jornal nem desejo de alcançar tal patamar.

  4. Nunca me hei de esquecer daquele saudoso post do Pedro Correia, ainda no tempo de José Sócrates como PM, em que o Pedro se queixava de as ruas de Lisboa estarem tão desertas e atribuía isso ao desemprego que então grassava e que o Pedro considerava horrível e dramático.
    Agora que o PM já é mais do gosto do Pedro, ela já consegue encontrar espetos positivos no desemprego (o qual grassou muitíssimo mais desde esse longínquo tempo).

  5. Saramago é uma referência de tenacidade, inconformismo e de liberdade, que soube viver a liberdade que custa.

    Fez excelente escolha, Pedro. Numa época em que o sentido catoniano de uma boa parte da pequenino-burguesa sociedade portuguesa, dita de elite, que se revê no espírito disforme de um espelho governativo que irradia ignorância disfarçada de tecnocracia, e que se se expressa com essa mesma deformação, a referência de seu post deve servir de estímulo a esses muitos que se encontram nas malhas do preconceito, para que saibam que estão entregues a si mesmo e que o único conselho que devem seguir é a voz de seu coração.

    Que estes todos não se deixem perturbar por ofertas de emigração e voluntariado que mais não representam que a miséria de quem só tem isso para lhes oferecer.

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