O comentário da semana


Pedro Correia,

«Há duas coisas que me parecem na entrevista à senhora Isabel Jonet:

1 – Parece-me que a senhora pretende transformar o serviço de voluntariado em algo obrigatório, que não dependa do interesse e da vocação de quem se apresenta para um serviço desta natureza. E parece-me também que a senhora se esquece do serviço, voluntário, que as redes sociais prestam a obras semelhantes em que a senhora Jonet também tem a oportunidade de revelar seus pensamentos e criar algum protagonismo social quer seja em benefíco da instituição e das pessoas alvo para a qual se voluntariou quer seja para a prelecção moral do que julga ser geral e/ou verdadeiro;
2 – parece-me também que a senhora Jonet se esquece da importância que as redes sociais também tiveram na mitigação de suas declarações a propósito do bifito.

O serviço de voluntariado é algo que deve ser oferecido com alma e consciência que é isso mesmo que o voluntário pretende oferecer à sociedade, e não ser usado como uma espécie de desenrascanço para hipotéticos momentos mais apertados no que respeita a uma eventual logística de uma qualquer instituição de solidariedade.
Ao chamar a atenção para a questão do bifito pretendo somente alertar que qualquer pessoa em situação de carência extrema e grave não comerá um bifito assim como até mesmo uma sardinha, provavelmente comerá pão e beberá leite, ou fruta e/ou até mesmo um ovo cozido, se tiver onde o aquecer.
Mas também estou consciente que qualquer pessoa que viva com dificuldades e com filhos infantes e/ou adolescentes/jovens, e que saiba a importância proteica de um qualquer bifito (isto aplica-se a qualquer tipo de carne), certamente que deixará de comer uns pães e carne para proporcionar o crescimento físico e psíquico saudável a seus descendentes que a carne/bifito também proporciona.

Espero que os desempregados continuem a usar as redes sociais e a net para a busca de emprego, envio de e-mails para candidaturas, para procurarem informação relevante sobre todas as matérias relevantes, incluindo a situação económica, social, política, financeira que o país atravessa, para socializarem e jogarem, e, mais ainda, para poderem pesquisar sobre eventuais upgrades ou actualizações que entendam conveniente à sua formação profissional, porque o que recebem em matéria de formação nos centros de emprego não passa de uma forma para queimar as calorias que se recebem dos fundos europeus e que não proporcionam uma objectiva formação em tempo.

Por último, considero que alguém que se ofereça como voluntário deve oferecer-se a si mesmo, como certamente a senhora Jonet louvavelmente também o faz, e não os seus conceitos e/ou preconceitos sociais.»

 

Do nosso leitor Vento. A propósito deste texto da Marta Spínola.

14 comentários em “O comentário da semana”

  1. Vamos então esperar que apareça por aqui alguém disposto a defender a formação nos centros de emprego, mostrando ao senhor Vento que está dispensado de partilhar connosco os seus conceitos e/ou preconceitos sociais.

    E possa chegar depressa esse admirável mundo novo em que os voluntários o serão de alma e consciência, libertos para sempre das garras de uma qualquer instituição de solidariedade com eventuais necessidades de logística sujeita a hipotéticos momentos mais apertados que exijam uma espécie de desenrascanço por parte de um pseudo-voluntariado.

      1. Perdi? Eu percebo tanto do funcionamento dos centros de emprego como o senhor Vento perceberá do funcionamento de instituições de solidariedade.

        1. O que o impede de nos fazer entender todo esse conhecimento? Se pretende encontrar uma variável externa ao meu comentário, eu posso acompanhá-lo. Mas se quiser ficar pelo sentido do comentário, também não me nego.

          Eu só o posso acompanhar depois de dar o pontapé de saída. Eu já dei o meu. A maneira como se apresenta não passa de uma mera afirmação: “agarrem-me senão vou-me a ele”.

  2. «Mas também estou consciente que qualquer pessoa que viva com dificuldades e com filhos infantes e/ou adolescentes/jovens, e que saiba a importância proteica de um qualquer bifito (isto aplica-se a qualquer tipo de carne), certamente que deixará de comer uns pães e carne para proporcionar o crescimento físico e psíquico saudável a seus descendentes que a carne/bifito também proporciona.»
    isto é o que se chama não tirar do prato dos filhos para por no seu. antes pelo contrário. Podemos chamar-lhe equidade intergeracional ou direitos adquiridos. Foi o que se fez depois do 25 de Abril. Os seus filhos tiveram sempre prato cheio e grande aporte calórico.

    1. O seu comentário possui todas as características inerentes ao que me leva a repudiar um sem número de atitudes: o moralismo, as suposições, a idolatria do dever e o uso e o abuso levado a efeito por parte dos que pensam ser donos dos outros, em particular dos mais fragilizados.

      Sem me referir ao comentário seleccionado, devo dizer-lhe que usar a condição dos outros para alguém se colocar em bicos de pés é uma característica que define alguns falsos caridosos (estes até me fazem lembrar os fariseus da Bíblia que passavam longas horas em orações em casa das viúvas). Há um ditado que ainda hoje deverá fazer pensar muita gente: “não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu”. E quem se encontar nesta condição reveja suas atitudes.

      1. Caso não tenha sido claro, só para esclarecer que a partir de seu comentário realcei outros aspectos que observo em certas atitudes. Não pretendi referir que foi essa a forma ou fórmula com que produziu seu raciocínio.

      2. «o moralismo, as suposições, a idolatria do dever e o uso e o abuso levado a efeito por parte dos que pensam ser donos dos outros, em particular dos mais fragilizados.»
        o anti-moralismo é também uma forma de moralismo. O amoralismo é ainda pior. O proselitismo moralista é uma cena que não me assiste. Suposições ? Quais ? Três bancarrotas em 40 anos não foi consumir os recursos que agora nos faltam e que os tais 130000 por ano têm de ir buscar fora do país para não serem esmifrados cá dentro ? Idolatria (onde ? não me revejo neste epíteto…) do dever é pior que a idolatria do direito (adquirido ou não) ? Donos ? dos outros ? donos da verdade ? Donos do politicamente correcto ? do direito de coercivamente apropriar-se do alheio para fazer boas acções caridosamente solidárias, mostrando a cara, a mão, publicitando, arregimentando, clientelizando ? De caminho ficando com a melhor parte (quem parte e reparte…) Quanto à Bíblia, sem moralismos, nem fariseismos, estou mais com os samaritanos do que com fariseus ou guardiães de templos, sejam eles quais forem. O ditado completo deverá fazer pensar muitos mais: “Não peças a quem pediu, não devas a quem deveu, nem sirvas a quem serviu; pede a quem o herdou, que não sabe o que lhe custou”. Haja saúde.

        1. O anti-moralismo é uma forma de moralismo, quando este, o moralismo, se coloca em posição dominante e dominadora. Não vejo em suas palavras nenhum indício que contrarie a posição que assumi no meu comentário.

          Mais uma vez informo que estou disposto a dialogar sobre o tema de minha reflexão, que foi escolhida como o comentário da semana. Quero deixar claro que dialogar sobre o tema significa isto e somente isto, nunca sobre a pessoa cuja atitude foi inspiração ao tema.
          Sem dúvida que a figura do samaritano é bastante simpática, mas também ajuda a revelar que quem guarda o templo contraria o tempo, “pois quem deita as mãos ao arado e olha para trás não está preparado para o enfrentar”.

          Revela também sua preocupação procurando demonstrar que o que herdou foi obra de seu trabalho, mas esquece que há tantos que herdam o mau trabalho dos outros. É sobre estes que quero reflectir.

  3. Isabel Jonet tem um único problema: é estar sob fogo do possidonismo.
    Outra vítima foi Manuela Ferreira Leite que chegou a ser apontada como um ser pouco sofisticado intelectualmente em comparação com o desenhador da câmara da Covilhã…

    A verdade é que, tirando casos extremos como a do “inconseguimento” é a linguagem da Esteves que tem o favor dos jornais na explicação da realidade.

    Nota – Qualquer nutricionista já explicou – e sem que tenha caído o Carmo e a Trindade – que carne barata ou peixe barato têm as mesmas qualidades do caro.

    Quanto ao FB, creio que Isabel Jonet não disse que não serve para encontrar emprego (para alguns será mesmo importante) mas que há o perigo de se tornar numa ilusão perigosa.

    1. «Mas também estou consciente que qualquer pessoa que viva com dificuldades e com filhos infantes e/ou adolescentes/jovens, e que saiba a importância proteica de um qualquer bifito (isto aplica-se a qualquer tipo de carne)…».

      1. Não, não se aplica a qualquer tipo de carne. Carne para bife não é qualquer tipo de carne. É uma carne cara, que pode custar 70 ou 80% mais do que uma carne usada num empadão, sem ter qualquer vantagem nutritiva.
        Isabel Jonet – ou qualquer pessoa que tem contacto com a realidade – sabe que, por vezes, tão importante como os alimentos, é necessária a reconversão de hábitos e o ensino de rudimentos de gestão doméstica.
        O bife – uma carne cara e que exige pouco trabalho (e tempo) acaba por ser um símbolo de erros de gestão muito comuns: quem anda no terreno sabe que pode encontrar crianças mal alimentadas numa família onde entravam perto de 2500 euros por mês (para 6 pessoas) – e a viver numa casa própria, já paga.

        Não sei como se diz isto em inconseguez.

        1. A sua primeira afirmação transportou-me ao miserabilismo dos gestores domésticos. É possível fazer um bom bife raspando diversos tipos de carne, o que até é recomendado para os infantes. Assim elimina-se as partes que não possuem valor nutritivo. E se por exemplo optar-se por uma jardineira e sobrar carne pode-se sempre fazer croquetes com as sobras e manter o aporte energético e nutritivo dos alimentos.
          Os hábitos alimentares que refere não se adquirem com dinheiro, com moral, com crítica, mas com informação e conhecimento.

          Espero ter contribuido para esta informação e conhecimento. E sim, uma vez que não deu informação específica na matéria o seu comentário apresenta um grande inconseguimento.

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