Um pouco mais sós


Sérgio de Almeida Correia,

 

Sendo um homem de fé, sou por natureza e feitio anticlerical. Mas habituei-me a ouvir e a respeitar D. José Policarpo. Um homem que soube projectar uma outra dimensão da Igreja portuguesa, pontuando o seu discurso pela lucidez. Sinal da sua atenção aos problemas do seu tempo e que, ao contrário do que alguns teimam em rejeitar, são também os do seu templo. Marcou a sociedade portuguesa com a oportunidade da sua intervenção cívica, com a autoridade do conhecimento e da razão, e tentou renová-la à medida das suas possibilidades. Muitas vezes discordei do clérigo, poucas do homem, porque respeitar é também compreender o outro na discordância. Talvez que o facto de ser um fumador contribuísse para marcar a diferença num mundo que aceita sem resistência o cada vez maior número de espartilhos à liberdade individual em nome de uma sociedade asséptica e amorfa. D. Jorge Ortiga diz tratar-se de um acto normal por D. José ter atingido o limite de idade. Eu acredito que sim. Só que nos dias que correm a sua carta de renúncia, sendo aceite, deixará este país mais pobre. Com menos uma voz como a dele não será só a Igreja a perder. Perdem todos. Ateus e agnósticos incluídos. Pela simples razão de que a humanidade não tem credo, cor, raça, ideologia ou sexo, e depende de homens como ele.

 

Ao que neste blogue escrevi em 18/02/2011 não retiro uma vírgula. Lamento, sim, que o tenham chamado tão cedo, mas faço votos de que também lá em cima lhe estejam reservadas tarefas que façam jus à dimensão do homem que foi.

2 comentários em “Um pouco mais sós”

  1. os homens erram. onde é que este padre errou, para ser considerado homem?
    pelo que descreve o postador, este padre aparenta ser mais um santo da igreja, sacrificado, pelos homens, por ser fumador.

  2. A sua falta sentiu-se logo desde que abandonou o patriarcado, porque deixou uma fasquia alta e o sucessor ainda me parece muito abaixo de sequer tentar segui-la… ao contrário do que poderia parecer.
    Vejamos se a igreja portuguesa ainda conseguirá manter uma voz própria.

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