Barrete


Sérgio de Almeida Correia,

Um tribunal escreve no respectivo acórdão que a expedição de um conjunto de obras de Miró foi “manifestamente ilegal“. E para que não haja dúvidas acrescenta “não ser necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie’s das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos” pela Lei de Bases do Património “e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural” (socorro-me da citação do Público).

Que o presidente do Conselho de Administração da Parvalorem olhe para as obras e em vez de arte e património veja notas de euros, parece-me normal tratando-se de um economista, tendo em atenção as funções que exerce e as tarefas que lhe foram cometidas de espremer as tetas de uma vaca exaurida. Menos curial será a posição do secretário de Estado da Cultura, que depois de atirar para o Governo anterior as culpas do País ter “herdado”, contra vontade, é certo, uma colecção de excepção, ainda se permitiu, quando questionado sobre a manifesta ilegalidade do seu despacho que autorizou a exportação das obras, perguntar se “seria normal que por causa de uma questão deste género eu pondere a demissão?“.

Pois a mim parece-me que fazendo Barreto Xavier parte de um executivo liderado por uma organização juvenil do PSD, afinal o mesmo executivo de onde saiu o senhor Relvas depois de uma fantástica conferência de imprensa, de onde se demitiu “irrevogavelmente” o dr. Portas e de onde fugiu o dr. Vítor Gaspar, depois de um acto de contrição que durou meses a ser preparado, não seria nada normal que ponderasse sequer a hipótese de demissão. Qual demissão qual quê, pá, está tudo doido? Nem por uma “questão deste género” nem por nenhuma outra. O senhor Barreto Xavier ainda se arriscava a ser praxado e não seria bonito vê-lo de gatas com aqueles tipos e aquelas tipas que querem ter “o direito à humilhação” a mandá-lo fazer “béubéu”. Nem pense nisso.

O senhor Barreto Xavier deve continuar onde está. Se possível indefinidamente. E se alguma vez tiver a triste ideia de ponderar a hipótese de sair, o melhor é só fazê-lo depois de garantir, pelo menos, um louvor e a imprescindível condecoração do Prof. Cavaco. Hoje em dia, como sabe, esses ornamentos são fundamentais para a apreciação do mérito de um funcionário, até mesmo dos piores, e o senhor não é menos do que estes. Dava-lhe jeito e teria o efeito dos portugueses já não estranharem na hora da promoção. Fique onde está, homem, tente continuar sempre assim, marimbe-se (esta é do saudoso Azevedo) para a ilegalidade e para essa trampa dos “mirones” e vai ver que chega ao fim do mandato. É limpinho. Fazer figura de parvos, aplaudir filósofos baratos, comer gato por coelho e enfiar barretes, vindos sabe-se lá de onde, tudo isso é connosco. Siga para bingo, sem crise.

6 comentários em “Barrete”

  1. Quem se devia demitir, ou ser demitido é um juiz que se declara incompetente para julgar e, mesmo assim, produz uma “sentença”. Não tem mais nada para fazer? Não há processos para os quais ele é competente a aguardar decisão? Acaso isso é “normal”? Acaso isso é “legal”?

  2. Aposto mil contra um :

    Se Miró ( o verdadeiro) grafitasse um “quadro” no muro da vivenda da Cavanilhas – a ponta de lança da Copa Miró —
    Ela chamava a Policia!

    Como, certamente, 99,99% dos que assinaram o caderno das “providencias cautelares”

  3. Com o País hipotecado, classificado ‘lá fora’ como “lixo”, esta gajada não terá nada de mais interessante em que se ocupar do que bater no ceguinho sobre se a riscalhada do Miró deve ou não deve ser vendida e render alguns cobres aos depauperados cofres do Estado, que o Sócrates e sua gente nos deixaram?

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