O falso dilema de Passos


Pedro Correia,

 

Não sei quem redigiu a moção de estratégia global que Pedro Passos Coelho levará ao congresso do PSD. Mas, na parte que se refere às presidenciais, parece ter sido um dos jotinhas que adoram brincar à política no partido: não reconheço ali aquela gravitas que o actual líder social-democrata adopta nas suas intervenções públicas e que lhe permitiu, por exemplo, estancar a súbita crise governativa de Julho com uma simples frase proferida em tom grave e seco na televisão: “Não me demito, não abandono o meu país.”

Quem fala assim não pode escrever aquilo que lemos na moção referente às presidenciais, ao estilo de um banalíssimo aprendiz de “analista político”. A política exige clareza, lucidez e rigor. Não encontramos nada disto no texto da moção que investe de lança em riste contra um “cata-vento [sic] de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político”.

Nada claro, nada lúcido, nada rigoroso.

 

No partido que apoiou Mário Soares nas presidenciais de 1991 porque não queria desperdiçar energias num combate inútil e que em 2001 inventou Joaquim Ferreira do Amaral como candidato só para não perder por falta de comparência a corrida a Belém, o peso das sondagens será determinante na hora das escolhas definitivas. Porque as sondagens — refiro-me às credíveis e não às que fornecem respostas à medida dos desejos daqueles que as pagam — produzem um duplo efeito: congregam os mais inesperados apoios a quem as lidera e desmobilizam rivais que só gostam de avançar quando se sentem seguros da vitória.

Isto não deixará de ser reconhecido pelo PSD no momento em que ali se deixar de brincar à política.

 

Por outras palavras: Passos não pode apregoar a necessidade de fomentar o mérito na sociedade portuguesa e depois desmentir tais proclamações anunciando o apoio a uma mediocridade de turno (e alguns nomes que correm por aí, como eventuais favoritos ou favoritas do líder laranja, são do mais medíocre que se encontra na política portuguesa).

Que vença o melhor, pois. E quem será o melhor, na óptica do PSD? Não é necessário nenhum desenho: todos os portugueses o conhecem.

8 comentários em “O falso dilema de Passos”

  1. A frase parece varrer tudo o que seja comentador no espaço público.
    Nada mais vislumbro do que diz todos saberem!

  2. O Pedro parece supôr que o povo português vai todo a correr votar Marcelo só porque está habituado a vê-lo na televisão. Eu não tenho a certeza de que o povo português seja assim tão parvo.

    1. A propósito disso, fui ver as audiências televisivas de domingo passado:
      Marcelo Rebelo de Sousa (TVI) – 1.666.400 espectadores
      José Sócrates (RTP) – 608.600 espectadores.
      São números mais expressivos do que muitas sondagens.

  3. MRS perdia toda a graça entronado em Belém e aplicado a comportar-se.

    Apenas na minha modesta opinião, o melhor que faz a si próprio é deixar-se como está… onde já se viu um PR a ir nadar no mar todos os dias do ano? E é comentador político há tanto tempo (e com assinalável independência, para quem é filiado no PSD, de que chegou a lider) que iria ser um alvo fácil de quem se dedicasse a escabichar as opinões que foi emitindo ao longo dos anos.

    Mas também me parece que, ao declarar-se fora de jogo, enfiou apressadamente um barrete demasiado abrutalhado para lhe servir.

    E também é verdade que Durão, que se baldou de ser PM quando tinha o governo praticamente paralisado para ir para onde ainda está e não se dá pela sua acção, ou Rio, que me parece ter um perfil de gestor, muito afastado do de PR, terão decerto sondagens muito aquém das de MRS, que “entrará” muito melhor no eleitorado.

    Enfim, muita água há-de correr e saltar.

    1. O Santana das trapalhadas, um que ameaçou ene vezes sair do que ele chama PPDPSD e fundar um partido próprio, o das santanetes, parece que já declarou que Marcelo é um “adversário” do PPD. Entre os mais medíocres dos mais merdíocres está sem dúvida esse cromo da política portuguesa.

    2. Não faz qualquer sentido, a dois anos de distância, o PSD afunilar os cenários de apoio a um candidato presidencial. Trata-se de um erro político – mais um entre tantos que este partido tem cometido. É como diz: “Muita água há-de correr e saltar.” Lembremos o que sucedeu aos comunistas, em 1985/86: juraram a pés juntos que jamais votariam Soares e no fim reuniram de emergência um congresso só para decidirem… votar Soares.

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