Um rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político


josegomesandre,

Nas últimas duas décadas, a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), entidade pública financiada pelo Governo português e por fundos europeus, tem feito um esforço notável de promoção da investigação em Portugal, através da concessão de bolsas individuais, projectos de investigação, centros científicos, etc. O número de Doutorados em Portugal cresceu exponencialmente, aproximando-se dos números europeus. Nos últimos dois anos, a contenção orçamental obrigou a uma compreensível estagnação nos fundos alocados, mas permitindo ainda assim a continuação de uma aposta clara na ciência num país quase analfabeto. 

 

Tudo isto desabou nos últimos dias. A atribuição de bolsas individuais levou a cortes escandalosos e inexplicáveis. Bolsas de Doutoramento, durante anos atribuídas a mais de 1500 investigadores, desceram para 729 este ano (já incluindo os novos “Doutoramentos FCT”). E as bolsas de pós-doutoramento, estabilizadas em 700 por ano desde 2007, desceram para 238 este ano. O que projectam estes números? Que estratégia encerram? Que futuro permitem adivinhar?

 

Pires de Lima explica: “não é possível alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”. Estas declarações são todo um programa. Visam estabelecer uma dicotomia entre “fazer” e “pensar”, dividir o mundo entre quem “produz” e quem “reflecte”, quem “faz avançar” e quem “assiste”, quem “empreende” e quem “se resigna”, quem “cria” e quem “observa”. Ficou por dizer que os investigadores não-produtivos (ou seja, todos os que trabalham nas ciências humanas e sociais e boa parte das ciências exactas teóricas) são uns preguiçosos, apreciadores do sofá. Mas lá chegaremos. 

 

Em 1822, há quase duzentos anos, escreveu James Madison, 4º Presidente dos EUA: “Um governo popular, sem informação popular, ou os meios para adquiri-la, não é senão um prólogo a uma farsa ou uma tragédia, ou talvez a ambas. O conhecimento governará para sempre a ignorância; um povo que deseje ser o seu próprio governante terá que se dotar do poder que o conhecimento oferece”. Há dois séculos que os EUA têm sido campeões na promoção da ciência, com os resultados que se conhece. Neste cantinho à beira-mar plantado, regressámos à separação entre “ciência” e “vida real”, a uma distorcida e divisão entre o “conforto” do mundo da investigação por contraste com a “dureza” do mundo empresarial. Eis um modelo do agir e do pensar nos antípodas dos ganhos civilizacionais, culturais e científicos conquistados nos últimos três séculos. Como é que chegámos a isto, a este triunfo da ignorância, à celebração do mais rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político?

 

Disclaimer: não fui afectado por nenhum destes concursos; usufruo de uma bolsa de pós-doutoramento desde 2010, cuja continuidade nada tem que ver com estes concursos.

7 comentários em “Um rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político”

  1. Não serve de muito, mas enquanto doutorando cuja única bolsa que usufrui é a do seu próprio bolso, não posso estar mais de acordo.
    Ainda bem que há quem esteja atento.

  2. Há uma divisão cada vez mais perigosa na ciência em Portugal. Quem quer estudar ou investigar História, Sociologia, Ciência Política é conotado com a preguiça, o desperdício de dinheiros públicos, a não produção de “valor económico”. Estamos a dizer a jovens investigadores nestas áreas, com contratos precários e que não são reconhecidos como trabalhadores, que não prestam, não contribuem para o crescimento do país e são por isso parasitas. Nem todas as áreas cientificas se prestam a ligações com o “mundo real”, como diz o ministro Pires de Lima. Estamos a dizer aos jovens estudantes que não podem estudar aquilo que gostam, que têm obrigatoriamente de seguir uma área das ciências naturais ou tecnológicas para obter uma bolsa de estudo. Se eu fosse estudante de doutoramento em Ciências Sociais e Humanas pirava-me já deste país…

  3. Muito bem posta a questão, Zé. Preocupa-me sobretudo essa dicotomia de que falas, visivelmente traduzida nas opiniões de gurus do culto da economia como único centro de interesse. Um exemplo? O brilhante Camilo Lourenço, que defende a inutilidade do investimento em cursos superiores que não sejam da área de economia ou gestão.

  4. Vamos ver, eu não colocaria as coisas nestes termos e acho que também não foi o que o ministro quis dizer.

    O que me parece é que os fundos públicos não são ilimitados. Como tal, o estado deve decidir qual a prioridade de aplicação dos fundos que tem.

    Perante os projectos de bolsas que tem à frente, deve ser dada prioridade àqueles que tenham uma maior probabilidade de num período razoável devolverem ao país aquilo que neles foi investido.

    Isto parece-me razoável, lógico e até saudável na gestão dos dinheiros públicos.

    Caso alguém veja que a sua bolsa não foi aprovada, então tem três opções. Ou a desenvolve noutro local que tenha esse assunto como prioridade (e lhe aloque fundos), ou muda de tema ou investe ele próprio no desenvolvimento desse tema. Não me parece que isto deva ser algo polémico ou trágico. É o que muitas pessoas e empresas fazem todos os dias.

    Não me parece razoável que tenha que ser o estado a financiar toda a investigação em Portugal nem que todas as “investigações” tenham que ser apoiadas apenas pelo facto de o serem.

  5. De brilhante o Camilo Lourenço só tem o suor na testa bronzeada.

    Brilhante, mesmo, é ver a quantidade de doutorados que este governo decidiu pura e simplesmente deitar fora. Deve ser a isto que chamam “criar valor”. Para outros países.

    Da minha parte, nada disto é surpreendente. Já se falava há meses nos corredores da”academia” que os resultados deste concurso seriam assim. Mas, enquanto parte da imensa maioria de candidatos dispensados pela FCT, posso acrescentar que, mais vil que cortar de forma tão brutal o financiamento a projectos individuais, é a forma como as avaliações foram feitas. Pude constatar, no meu caso e através de diversos colegas na mesma situação, que os painéis de avaliação nem sequer para fazerem o trabalhinho sujo que lhes tinha sido solicitado tiveram competência suficiente.

    Em alguns países que os portugueses, na sua imensa ignorância, consideram atrasados, aquilo que vi seria suficiente para impugnar o concurso. São países onde, no próprio edital de abertura de um concurso, são dadas informações aos potenciais candidatos de como contestar e mesmo impugnar o concurso caso detectem alguma irregularidade. Por cá, toda essa informação é convenientemente “esquecida” ou escondida, não vá algum lírico achar que vive num Estado de Direito.

  6. E aqui temos mais um bom exemplo da esquerda camaleonica.

    Hoje foi a fase Aristocrática com disfarce chamada de “Cultura”
    Temos direito a isto, mesmo que o povo não queira paga.
    O privilégio do Aristocrata e a sua Moral.
    Embora fuja a sete pés dessa palavra que lhe lembra a outra Igreja concorrente.

    Daqui a uma semana “muda” a pele : os portugueses não têm dinheiro, a pobreza alastra, faltam medicamentos, o povo sofre.

    Será a fase Popular.

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