Penso rápido (27)


Pedro Correia,

O problema dos aparelhos partidários, tantas vezes zurzidos pelos comentadores em voga ao sabor das conveniências de ocasião, é um bom problema. Porque a verdade é que não existe democracia sem partidos e estes por sua vez não existem sem aparelhos partidários. Navego contra a corrente dominante nesta matéria, bem sei, mas paciência. Penso assim. Com o à-vontade de nunca ter pertencido a partido algum. Sempre entendi, e não vejo razão para mudar, que o livre exercício de direitos é inseparável dos respectivos deveres. Se eu não pago quotas nem aceito sujeitar-me às normas disciplinares de nenhum partido a que título posso reivindicar o direito de voto em eleições partidárias?

8 comentários em “Penso rápido (27)”

  1. Concordo consigo. Venho concordando com o que escreve, como escreve e descreve. Gosto de o ler e de o comentar. Mesmo em discordância é sempre correcto.
    Fui militante Partidária na Idade da Inocência e dou graças per ter visto a luz antes das trevas da Idade da Corrupção.
    Pode sempre reivindicar o direito ao voto ( que é um dever cívico de cada cidadão) que lhe confere o seu livre arbítrio e um estado eleito democraticamente.

  2. Você não precisa de reivindicar nada, eles dão, aliás eles querem que você vote!

    É mais uma forma de justificarem a sua existência além dos cada vez maiores poderes a que se arrogam e o mesmo vem acontecendo nas eleições legislativas e demais.

    Para quê votar num programa se depois tudo é distorcido e aldrabado.

    Não tenho a mais pequena dúvida que lá Outubro António Costa virá dizer que o PS está forte porque conseguiu mobilizar centenas de milhares de votantes e que irá com todas as forças (dele) procurar estar á altura do desafio que sobre ele recai e da divida que tem para com as Portuguesas e Portugueses que nele confiam.

    E o Seguro ainda vai a Ministro!

    1. Isto parece-me populismo do pior. Quase um acto de desespero para arregimentar partidários num sistema de pesca por arrastão por não ter funcionado o sistema anterior, de pesca à linha.

  3. Compreendo e partilho a dicotomia direitos/deveres, mas…
    Suponhamos que alguém se limita a pagar as quotas de um partido, sem fazer rigorosamente mais nada, como tal não tendo que se sujeitar às normas disciplinares desse partido.
    Esse alguém, sendo para todos os efeitos militante, tem direito a voto.
    Também já se tem ouvido falar, embora normalmente essas coisas fiquem em águas de bacalhau, em “militantes” cujas quotas são pagas pelo patrão ou por um qualquer cacique e que votam em quem ele manda.
    Será raro isto ou, pelo contrário, serão assim a maioria dos militantes partidários?
    Que deveres cumprem eles – pagar uma “reles” quota?! – que os habilitem mais do que à esmagadora maioria dos seus concidadãos para escolher um tipo que, com grande probabilidade, será, mais do que um secretário-geral de um partido, o senhor que se segue na cadeira do poder?
    Não será mais representativa da vontade do povo uma amostra/eleição com uns milhares de votos do que outra com algumas dezenas ou centenas de arregimentados feita num congresso?

    1. Vamos lá ver: se esse sistema é válido, segundo sustenta, então porque não estendê-lo a todos – mas todos mesmo – os partidos?
      Nessa hipótese cada um de nós deveria poder votar na eleição interna de qualquer partido político. Incluindo aqueles partidos políticos nos quais jamais sonharíamos votar em eleições legislativas, europeias ou autárquicas.
      Reconheça que faz pouco sentido. Mas recolocando a questão no campo dos princípios o que faz ainda menos sentido é haver direitos sem deveres. O caminho não pode ser esse.

  4. Eu também nunca pertenci a nenhum partido nem sequer fui simpatizante nem me passaria pela cabeça preencher uma ficha declarando simpatia por qualquer um que fosse, mas primárias partidárias abertas a “simpatizantes” há por aí, não muito longe, logo ali em Espanha, em França, na Itália… O Tozé não inventou nada, e por sinal foi contra essa “abertura” quando ganhou a Assis, que a defendia.

    1. Eu sei que há por aí, não ponho isso em causa. O actual Presidente francês, aliás, chegou ao Eliseu tendo conquistado primeiro o poder interno por esta via. Mas não reconheço credibilidade a uma democracia onde sejam distribuídos direitos sem os respectivos deveres. O caminho não pode ser esse.

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