Ouço uma personalidade com presença assídua nos ecrãs televisivos referir-se a várias figuras europeias. É curioso: são todas “senhoras” ou “senhores”: os graus académicos — correctos ou incorrectos — tão em vigor entre nós desaparecem mal aludimos a gente de além-fronteiras. Mas subitamente a referida personalidade alude ao presidente da Comissão Europeia em termos diferentes dos utilizados para Angela Merkel, Van Rompuy, Mario Draghi, Martin Schultz ou François Hollande — chamando-lhe “doutor Durão Barroso”. Imporia a mais elementar uniformidade de critérios que, no caso de Barroso, o “doutor” desse lugar ao “senhor” reservado para todos os outros. Mas não: mesmo residente em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia continua a ter direito ao respeitinho lusitano.
Doutor é só ele. Senhores são todos os outros.


É a habitual parolice à portuguesa: um país de doutores e engenheiros, em que até os que o não são se intitulam frequentemente como tal.
Dois exemplos paradigmáticos: os que ao telefone se identificam deste modo “daqui fala a Dra. Sandra”, ou os que põem Dr. nos cheques…
O mais intrigante para mim continua a ser a falta de critério: essa mesma gente qualifica de “senhora” ou “senhor” quem viva para lá de Badajoz, por mais doutoramentos que essa pessoa tenha…
Julgo que haverá duas razões para isso:
1. Os jornalistas portugueses não conhecem os graus académicos das tais figuras europeias.
2. Soaria mal chamar a essas figuras “doutor” ou “engenheiro”, pela simples razão que isso não se usa por lá.
A solução seria obviamente deixar de pôr esses epítetos às nossas figuras.
Para além de evitar situações como a relatada neste artigo, acabaria ainda com as patéticas licenciaturas “tipo Relvas”, ou seja, aquelas que são feitas/compradas apenas para colmatar um complexo de inferioridade dos seus detentores.
Esta saloiice é tão ridícula que chega ao ponto de algumas pessoas não licenciadas nem complexadas terem que andar permanentemente a dizer que não são “doutores”.
Enquanto isso não se resolve, continuamos em Portugal a ter duas categorias de “figuras”: “doutores” e “engenheiros”. E o País continua a definhar…
Ouvi várias vezes pessoas tão diversas como Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa e Baptista-Bastos recusarem o tratamento de “doutor” por não corresponder à verdade.
Doutor é quem tem doutoramento. Na monarquia constitucional compravam-se títulos ao desbarato, com a consequente inflação de barões e comendadores. A república começou por traduzir as formas de tratamento do francês, em nome do igualitarismo jacobino: em França havia ‘messieurs’; aqui, por reflexo mecânico, passou a haver uma proliferação de ‘senhores’.
Mas cedo foi instituída uma nova casta – a dos falsos doutores – que afronta a raiz da cidadania, como um sucedâneo do baronato de antanho.
Senhor, por cá, passou a ser um termo quase depreciativo – reservado aos novos súbditos. O que diz muito dos hábitos instituídos pelo nosso republicanismo de fachada.
Pedro fizeste-me lembrar uma história familiar.
As minhas duas cunhadas têm cursos superiores. À mais velha, um dia, a costureira tratou-a por Senhora D. Ana Maria e logo pediu desculpa por não a ter tratado por Dra Ana Maria.
Lesta, a minha cunhada respondeu: ” não se desculpe Maria Amélia, porque doutoras há muitas. Senhoras é que há poucas…”
É bem verdade, Helena, é bem verdade.
Presença assídua quando lhe cheira que o país está muito mas mesmo muito precisado de sua excelência. Calculo que seja esse, porque ao zappar o vi e obviamente mudei de canal, porque um sujeito que (segundo os relatos da imprensa de hoje, mas não seria a primeira vez) tem a lata de afirmar que os governos de Sócrates foram bons enquanto lá esteve e deixaram de o ser quando saíu (por motivo de dores na coluna, sublinhe-se, não por divergências declaradas na altura), isto para não falar doutras reviravoltas, não me merece atenção.
Não escutei Sua Iminência. Quando está iminente a sua aparição na pantalha mudo de canal.
Bolas, parece que se referia ao que trata os GNR por “senhor guarda” quando os manda desaparecer e não ao que ontem deu uma entrevista, se não me engano na RTP Informação…
Havia de os tratar por “doutor guarda”, não?
Só se fosse ao guarda marítimo em situação de afogamento…
Aquela do catavento de opiniões não seria dirigida ao juriconsulto da Quinta da Marinha que mora numa casa que está em nome dos filhos? Se calhar o Marcelo julgou que era com ele e vai-se a ver…
Vou ali a uma jurisconsulta e volto já.
jurisconsulto, caraças.
Vou dar já uma volta de 180 graus a ver se percebo de quem se trata.
Situação mais estranha se pensarmos que, mesmo em Portugal, se omitem os títulos de figuras públicas.
Diz-se Presidente Cavaco Silva e não Presidente Professor Cavaco Silva, Primeiro Ministro Passos Coelho e não doutor Passo Coelho. Do mesmo modo temos o escritor António Lobo Antunes e não o escritor dr António Lobo Antunes, por ex.
Barack Obama é jurista. Mariano Rajoy também concluiu o curso de Direito. David Cameron tem licenciatura em Ciência Política. Angela Merkel é doutorada em física quântica.
No entanto, nunca são tratados por qualquer título académico cá na parvónia. A doutora Merkel é sempre tratada por “senhora Merkel”, como se fosse a dona do lugar da hortaliça ali do bairro.
Será mesmo uma deferência, neste caso, a expressão “Doutor” ?. Ou, uma mais cuidada observação demonstrará apenas um traço de ironia , á altura do personagem, como diria o Álvaro?.
Admito que sim. E detecto também ironia, por vezes, na utilização da palavra “engenheiro”…
Doutores que são esmagadoramente apenas licenciados. E então, correctamente, a fazer questão nessa fanfarronice da ostentação do grau académico, seriam todos “lic.”. “Lic.” nisto e naquilo e até em engenharia (que “engenheiro” não é grau académico).
Mas, enfim, por cá desde o disparate bolonhês que se é mestre ao final dos anos de estudo que até então fariam um licenciado (e ser-se licenciado ou mestre pré-Bolonha é por isso uma legítima vaidade). Não se trata de democratização do ensino. Antes da sua desvalorização. De mais uma faceta do geral triunfo da mediocridade.
Costa
Não por acaso, uma das frases mais famosas do século XX português foi proferida por Vasco Santana no filme ‘A Canção de Lisboa’: “Ó tias, já sou doutor!”
Caríssimo,
concordo. O título é expressivo.
Gosto de títulos expressivos, meu caro. Sempre gostei.
Um abraço.