Há lugar para tudo. Para todos também, embora alguns nunca cheguem lá. Durante meia dúzia de horas trocam-se abraços, sorrisos, palavras piedosas, votos e presentes, muitos, sobretudo inúteis, porque faz parte da quadra, do espírito. Tretas. De permeio empanturram-se de bacalhau, de broas, bolo-rei e afins, esquartejam perus, desafiam as leis da natureza com as quantidades colossais de álcool e de doces que ingerem e ficam no ponto para atacar o Ano Novo com redobrado vigor. Até que a sua parte mais genuína volte ao caminho de sempre, ao alheamento, à rotina, aos números, aos atropelos diários, ao esquecimento, à intolerância. Ao ano civil.
O resto é a revisitação do apelo. O reencontro. O que me faz levantar os olhos e olhar para o lado. Não os ver sentindo que estamos juntos. Como se fora aqui. Sem chorar. Saber que apesar de tudo ainda é capaz de gostar de mim mesmo quando não O reconheço nas entrelinhas, no caminho que me fez chegar até aqui. Não será uma bênção. Mas é seguramente uma parte boa. Talvez a única que me consegue confortar.
Feliz Natal.

Também eu me deixei escravizar pelas obrigações natalícias consumistas e gastronómicas. Sabes, nem sempre é assim tão mau. A mim ajudou-me a não pensar no essencial, que foi a perda recente e irreparável de familiares demasiado próximos, sem os quais jamais voltarei aos natais que tive. Subscrevo essa crítica que fazes à futilidade e hipocrisia da quadra, embora tenha descoberto agora que em certas circunstâncias tem a sua utilidade. Beijo, Sérgio.
Compreendo perfeitamente, Teresa. E penso que fizeste muito bem.
Não critico a quadra, critico os excessos. Todos, para além do desvirtuamento do sentido último do Natal.
Um Bom Ano para ti e um beijo.
Para ti também, Sérgio.