Passo por uma loja e volto atrás. Não para ver qualquer produto exposto na vitrina pós-natalícia mas para reler um letreiro que me ficou na retina. “Estamos a executar a montra”, reza o aviso. Executar? Será possível que aquele comerciante tenha instintos homicidas, como tais palavras indiciam?
Mais adiante, noutra loja, outro letreiro promete “fazer as unhas” a quem se digne passar por lá. Como se as ditas não estivessem já feitas de origem.
E nesta ronda, como tantas vezes sucede, vou sentindo uma absurda estranheza perante o meu próprio idioma, tantas vezes maltratado, abastardado, vítima de aberrações lexicais que lhe são totalmente alheias não no sentido em que um Alexandre O’Neill ou um Mário-Henrique Leiria o “desconstruiam” mas devido à mais chocante ignorância.
A palavra-chave é esta mesmo: ignorância. Vivemos numa sociedade onde continua por implantar a cultura do mérito. Só isto explica que um responsável editorial escreva sem rasto de ironia, num dos principais jornais portugueses, que fulano de tal “houve o telejornal”. Ou que um editor de cultura numa publicação de difusão nacional se gabe de não frequentar há longos anos uma sala de cinema.
Seria quase divertido se não funcionasse como espelho fiel da realidade, desta chocante falta de exigência que leva tantas vezes à promoção dos menos aptos e dos menos capazes. Não admira por isso que perante tais exemplos um jovem jornalista, escrevendo sobre uma promessa da música lusa algures na diáspora, faça notar que ela “tem descendência portuguesa” quando queria dizer exactamente o contrário. Ou que outro profissional do jornalismo em início de carreira considere essencial que “o professor haja” de outra forma na sala de estar. Ou que um elemento da direcção de um jornal diário, num editorial assinado com nome próprio, escreva esta pérola: “Se não houverem sobressaltos…”
Podia multiplicar os exemplos por cem ou por mil — exemplos que não se circunscrevem à realidade portuguesa, como se pode comprovar aqui. Para chegar sempre à mesma conclusão: é lamentável ver tanta ignorância à solta. Escandalosamente impune. Quase como se fosse culta.


Há um erro que se está a tornar tão vulgar, mas tão vulgar, que quando jornalista NÃO o faz volto atrás atrás para ver o nome:
«Está na hora da criança dormir.»
Eu “colecciono” erros desses, Isabel. E já tenho várias cadernetas de cromos preenchidas com frases como a que menciona.
“Se não houverem sobressaltos…“»
Caro Correia, distinto linguista, e se em vez de dizermos «Se não houverem sobressaltos», se dissermos: «Se sobressaltos não houverem»?
Julgo que “haverão” muitos sobressaltos em 2014.
Por estas e por outras é que, salvo raras excepções, não há jornalistas cá no burgo. Há mas é muitos jornaleiros…
Vou ali “executar” uma montra e volto já.
Exigência não se coaduna com regime social-populista que temos.
Agora tente usar outra palavra mal conotada pela cultura social populista: “Intolerância”
Todos sabemos que um tipo intolerante é alguém mau, logo alguém intolerante com o mau português é alguém mau.
As palavras num regime populista tendem a ter uma só conotação: má ou boa.
As contradições são as esperadas, apesar destas palavras quando sinónimas muitos portugueses aceitam algumas e rejeitam significando a mesma coisa.
Intolerância
Rigor
Exigência
Qualidade
Discriminação
A palavra passível de maior aceitação pelos portugueses que está na lista é a palavra Qualidade.
Se dissermos que queremos qualidade no português todos ou quase aceitam.
Exigência já é um pouco menos boa, já tem conotação de esforço…
Já se apontarmos erros e pedirmos para corrigir muitos nos vão dizer que somos Intolerantes e que somos Discriminatórios.
E é verdade.
E assim uma cultura que tornou as palavras intolerância e discriminação unívocas, significando apenas algo mau, escolhe usá-las como armas de retórica populista para se defender do esforço de de corrigir algo errado.
O essencial é que cada um de nós “haja”.
Sim, «tanta ignorância à solta. Escandalosamente impune. Quase como se fosse culta», e que o abjecto AO90 apenas veio aumentar…
Tão abjecto que se tornou ‘abjeto’.
Uma tristeza, e cada dia há mais asneiras para juntar à tua caderneta de cromos.
O mais chocante é quando pérolas destas saltam da pena ou do teclado de jornalistas com cargos de direcção, Ana. Que belo exemplo dão a quem com eles trabalha…