Na semana passada, os Gato Fedorento regressaram à SIC para um pequeno programa (ou para um sketch longo) sobre soluções para o país. A coisa, diga-se em abono da verdade, valeu mais pelo esforço de chegar a Steven Seagal do que pela diversão do texto propriamente dito, de resto muito previsível (reconheça-se: há algo invariavelmente divertido na imagem de Steven Seagal, no melhor estilo Delta Force II, a dar cabo do canastro do Governo; de qualquer Governo). Mas passou em horário nobre, logo a seguir ao noticiário das oito, e contou com a presença de Rodrigo Guedes de Carvalho a servir de moderador para o debate que não existiu. Como não podia deixar de ser, deu polémica – devido à participação do jornalista num programa de entretenimento.
Um caso que nem é novo. Em Novembro, o jornalista (também da SIC) João Moleira viu-se envolvido numa polémica muito semelhante devido à sua participação voluntária e não-remunerada no sketch de apresentação do álbum de banda desenhada “As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”. Esse sketch (genial; podem vê-lo aqui) apresenta-se como uma peça noticiosa na qual são mostradas… aranhas gigantes em Lisboa, penduradas na ponte 25 de Abril (é alusivo a um momento do álbum, cuja leitura, já agora, recomendo). O jornalista foi criticado pela sua participação numa peça que simula conteúdos noticiosos verdadeiros quando, na prática, se destina a promover um produto comercial (pergunto-me se a mesma questão seria suscitada se o mesmo jornalista tivesse ido apresentar, na Fnac ou na Bertrand, o livro de um dos escritores da moda…).
Passe o cinismo, não entendo o espanto. Há muito tempo que os noticiários televisivos deixaram de ser espaços puramente noticiosos, lugares de rigor e de objectividade (ou da objectividade possível). Já todos vimos no espaço dos telejornais a promoção a programas e a conteúdos do respectivo canal, por vezes de carácter mais ou menos noticioso e muitas vezes nem isso. Isto, claro, para nem entrar noutras questões de qualidade informativa, de isenção e de critérios daquilo que hoje em dia passa por informação. Não é a participação de dois jornalistas num programa que é evidentemente entretenimento ou num vídeo que é evidentemente falso (se a composição causar dúvidas, o que já exigirá muita falta de atenção, a premissa será sem dúvida notória pela sua inverosimilhança) que torna oficial uma qualquer ausência de “distinção entre jornalismo e entrenimento”, como referiu o presidente do Observatório de Imprensa. Essa distinção, em termos práticos, já deixou de existir há muito tempo.

Para já não falar na propaganda ao lançamento de livros escritos pelos apresentadores de telejornais, nos próprios telejornais. Se é propaganda grátis está mal, se não é pior está, por ser num espaço, que bem referiu, não é ou não deveria ser destinado a promoções comerciais, mesmo que disfarçadas.
E os outros escritores? Onde está a tão falada “equidade”?
Os meus cumprimentos
José Leite
Não está. Resta saber se a malta dos tacho-perdão, das “entidades reguladoras” da comunicação e dos “observatórios” de imprensa também rasga as vestes aí (é possível).
À boa maneira portuguesa, é fácil a resolução:
… Antecedendo cada noticia, ler-se em rodapé: ” Verdade” — “Gozo”.
Boas Broas… “verdade”
O problema é que neste país a verdade tende a ultrapassar o gozo pela direita…
“pergunto-me se a mesma questão seria suscitada se o mesmo jornalista tivesse ido apresentar, na Fnac ou na Bertrand, o livro de um dos escritores da moda…”
Que mauzinho…tem de entender que nesse caso é “cultura”.
João Campos, devia saber que é diferente um jornalista apresentar um livro na fnac, seja de um escritor da moda ou fora de moda, e fazer uma simulação de noticias com intuito comercial. Um jornalista não está impedido de apresentar livros, num evento organizado para o efeito, de um amigo ou um conhecido, ou de prefaciar livros, etc. Isso é pacífico. Mas já é deontologicamente incorreto simular a apreentação de um noticiário com intuitos comerciais. Caso diferente desses dois é a situação do Rodrigo Guedes de Carvalho. Mas o João Campos mistura tudo. É até estranho que não se percebam as diferenças e eu só posso entender isso como um sintoma de que a deontologia é uma coisa descartável.