Postais de um Fotógrafo de Bairro (XIV)


Bandeira,

José Bandeira

 

Não fosse eu a mexer-me e o Euclides deixava que o Natal passasse pelo Café Africano sem árvore nem luzinhas nem nada. Bem sei que ele não tem um tostão, ou se tem é para mandar para o filho na ilha de Santiago, mas estabelecimento de comes e bebes sem árvore de Natal nesta altura do ano é como Campo de Ourique sem a Ferreira Borges, perdoe o paroquialismo. Pergunto ao Euclides onde é que no Dafundo se vendem decorações de Natal e ele diz, “Na loja do chinês”. Parvoíce a minha, a resposta seria a mesma aqui como noutro bairro qualquer. “Olha, uma daquelas latinhas para as pessoas porem moedas é que era”, diz. Metade desta gente tem reformas de brincar, os outros ou estão desempregados ou são mal empregados, há-os até que dormem debaixo da ponte da estação da Cruz Quebrada, e no entanto a ideia não me parece absurda, sei lá porquê. Vou ao chinês e escolho a árvore e uma fiada de luzes. Latas é que só as há com notas de banco estampadas, e logo de 20, 100, 200 e 500 euros. Todas custam o mesmo, 1,5 euros, veja como de facto há diferença entre preço e valor. Pergunto à menina da loja se não tem latas com um motivo mais da época, umas renas, flocos de neve, coisas assim, ou pelo menos que não façam lembrar tanto a alta finança. Ela diz que não com uma expressão que eu poderia jurar de genuína tristeza nos olhos orientais. Decido-me por uma de vinte. Por iniciativa própria, a menina acrescenta-lhe uma estrelinha amarela que faz toda a diferença.

 

Hobbes escreveu no seu Leviatã que roubar um pobre é crime mais grave do que roubar um rico, mas ele publicou isso há já uns quê, quase 400 anos e veja como as coisas evoluíram. Nunca fiando: é preciso engendrar um modo de prender a lata ao balcão. Um dos reformados de serviço à mesa do dominó sugere – talvez por ligeireza na abordagem técnica do problema, ou então é piada, com eles nunca se sabe – que se use cola-tudo. Já o senhor P., que divide o interesse pelo que ali se debate com o que lhe suscita um prato de frango com esparguete, propõe que se lhe faça, à lata, uns buraquinhos e que por estes se corra um arame, sendo depois questão de o prender a qualquer coisa rija; não os havendo na casa, ele mesmo está na disposição de fornecer os materiais, leia-se o arame e a broca, e os imateriais, que são a mão-de-obra. Alguém aponta um buraco no balcão. Era por ali que dantes passava o tubo para a máquina de tirar imperiais que se foi por falta de dinheiro para a manter, já me tinham explicado o mistério daquele buraco, enfim, enquanto houver minis há esperança. É fácil passar por ali o arame. Ainda assim o Euclides está renitente, diz que lhe custa estragar a lata. Só depois de confirmar que ela não tem abertura fácil, que é um sistema fechado, opaco como o são todos os sistemas financeiros, parece conformar-se.

 

Conheço o Euclides, sei que ainda vai dedicar um bocadinho de tempo a pensar no assunto, talvez mesmo esperar pela opinião do Zé, o tal que em miúdo andou ao colo da Condessa de Ribamar e que tem resposta para todas as questões do lado de cá da Física. Logo vão juntar-se uns cinco ou seis de volta da lata e do balcão e da árvore e cada um dará o seu palpite. O Euclides tem todo o tempo do mundo, esta é a sua fortaleza no deserto dos tártaros, se ele está seguro de alguma coisa é de que tão cedo não vai a lado nenhum.

11 comentários em “Postais de um Fotógrafo de Bairro (XIV)”

  1. Para quê a lata? Aumenta o preço das minis, do lado de fora afixa um cartaz com os dizeres de que é só um arredondamento solidário. Convém que o cartaz seja de papel, para a chuva ir condenando ao esquecimento.
    O método é mais velho do que a da lata, até esta na moda.

  2. Espero sempre por estas notícias do Café Euclides.Dava um livrinho como sugerem acima.
    Segure-se bem na jangada.Há mais náufragos.E temos que sobreviver.
    tiudózio

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *