Um sonho de criança


joaomsandre,

Como muitos saberão, costumo ter umas discussões – por vezes intensas, por vezes engraçadas, por vezes irritantes – com o nosso comentador lucylucky. Aqui há uns tempos pedi-lhe numa caixa de comentários que me explicasse o seu pensamento, como via o papel do Estado. Gentilmente respondeu-me em comentário. Por o considerar interessante, decidi dedicar-lhe um post que espero ser pouco maçador. Um ponto: caro luckylucky, não pretendo em momento nenhum do texto ser ofensivo ou menorizar as suas ideias. Apenas apresento as minhas razões para as refutar. Como sempre, pode fazer o mesmo com o meu texto na caixa de comentários.

 

Começo sendo facilitista: vejo o mecanismo de pensamento de luckylucky como semelhante ao de um comunista ou de um religioso fundamentalista. Tem uma visão a que chamarei em provocação d’os amanhãs que cantam e nela crê com todas as fibras do seu ser. É semelhante aos comunistas que crêem que a igualdade absoluta pode ser atingida. São visões dogmáticas que selectivamente ignoram os obstáculos. A maior diferença é que o luckylucky tem perfeita noção que as pessoas são diferentes umas das outras, algo que o comunismo puro e duro (nem sei se em versão marxista-leninista ou adicionando-lhe o -estalinista) prefere ignorar ou simplesmente negar.

 

Escreve o luckylucky, grosso modo, que quanto mais leis, mais probabilidades de cercear as liberdades. Em termos puramente abstractos é verdade. Mesmo quando as leis protegem as liberdades, estarão a restringir alguma liberdade de alguém. Se impedirem o homicídio estarão certamente a limitar a liberdade dos homicidas. É a tal questão da diversidade. Por outro lado, luckylucky defende que qualquer grupo de pessoas poderia viver num sistema comunista, desde que tal desejassem. Da mesma forma, quem quisesse viver fora desse (ou de outros) sistemas, deveria ter possibilidade de o fazer.

 

Não preciso de apontar as falhas deste raciocínio porque o próprio luckylucky já o faz. Aponta como caminho o estabelecimento de colónias, no mar, debaixo da terra, noutros planetas, etc, para poder criar o espaço físico capaz de englobar toda esta diversidade. Tem consciência que se um determinado grupo de pessoas quiser criar um sistema político numa determinada região, um outro grupo de pessoas não poderá viver dentro dos seus critérios no mesmo espaço físico. Se 99,99% dos habitantes de uma cidade decidirem que querem viver num espaço sem fumo, não podem permitir que dois ou três indivíduos fumem. Aqui entramos no óbvio problema: exercer a liberdade de uns limitará a liberdade de outros. Isto é verdade independentemente dos números de indivíduos que estejam de um lado ou outro da barricada. A situação complica-se quando em relação a outro tema a separação dos indivíduos é feita de forma diferente (por exemplo, 99,99% dos indivíduos não querem o roxo na cidade e outros dois ou três apenas desejam essa cor, mas esses três indivíduos não são os mesmos que desejam fumar). No limite, por cada indivíduo teremos um sistema político diferente.

 

E é por isso que surge a ideia de colónias. Cada um poderia encontrar um espaço onde vivesse de acordo com as suas próprias regras. É uma ideia simples, mas faz-me lembrar as “Robot series” de Isaac Asimov, que descrevem um planeta, Solaria, onde os seus habitantes não suportam encontrar-se fisicamente, vivem em propriedades com o tamanho de países e onde se encontram com o/a cônjuge apenas e só para poderem reproduzir-se (numa versão mais tardia os habitantes usam engenharia genética para se tornarem hermafroditas e cortarem todos os laços físicos com outros habitantes). Nestes livros, esta sociedade contrasta com a da Terra, onde existem mega-cidades que contêm toda a população humana, o espaço pessoal é mínimo, as casas de banho e os refeitórios são públicos e partilhados entre todos e apenas aqueles de mais elevada casta teriam alguns privilégios extra.

 

No fundo, luckylucky descreve a sua utopia, esperando que um dia a tecnologia a permita. Asimov, na sua clarividência, descreve como esse caminho estaria cheio de obstáculos numa direcção (pseudo-comunismo) ou noutra (liberdade pura). Inteligentemente, Asimov não toma um partido óbvio, procurando simplesmente um meio-termo. Pessoalmente opto pelo mesmo. “A Democracia é o pior de todos os sistemas à excepção de todos os outros” é uma frase que deveremos lembrar sempre. A Democracia, num sistema ou noutro, é imperfeita. Mas num mundo onde temos, imperativamente, que partilhar recursos (espaço, água, terra, ar, etc), ainda é aquele que nos tem servido melhor.

 

O mundo (ou universo) de luckylucky talvez um dia venha a ser possível. Até lá, vejo-o simplesmente como um sonho de criança que ainda não despertou para a realidade.

34 comentários em “Um sonho de criança”

  1. Os “universos” habituais da obra do Peter F. Hamilton rodam muito à volta desses sistemas. Às vezes de forma quase central para a história (no caso da trilogia Night’s Dawn), outras vezes quase como pano de fundo (The Great North Road).
    Acho que o lucky havia de gostar de ler.
    Aliás, não só o lucky. Eu aprecio imenso a obra do P.F.H, e tenho entendimentos às vezes diametralmente opostos aos do lucky. 😉

    1. Não conheço a obra de Hamilton, apenas lhe conheço o nome (e mesmo assim, com um nome tão “simples”, pode ser confusão minha). Fico também eu com a referência, obrigado :).

  2. Se ainda não leu “O Caminho Para a Servidão” de Hayek recomendo vivamente. Perceberá melhor a visão do lucklucky e como o mundo cada vez mais parece caminhar para o “Admirável Mundo Novo” de Huxley ou o “Brasil” de Gilliam.

    1. Não, ainda não li o livro dele. Li textos avulsos, umas vezes retirados d’O Caminho, outras suponho que de artigos ou outros livros. Muitas vezes são citações em sites de liberais. Confesso que, sendo intelectualmente estimulante, como objectivo final a visão de Hayek perturba-me tanto como o comunismo. E pelas razões que apresentei acima.

      Quanto a esses futuros distópicos, como sempre pegamos nas partes que nos interessam dos mesmos para apontarmos que estamos a caminhar nessa direcção. Pessoalmente vejo-nos bastante longe do futuro de Huxley (nunca o individualismo – diferente de individualidade – foi tão cultivado), mas os avanços em engenharia genética podem dar essa impressão.

  3. Sempre que se coloca a definição dos méritos de um ou outros sistema político em função da liberdade penso que é útil recuperar os dois conceitos de liberdade de Isaiah Berlin. Ele define liberdade negativa, “freedom from”, e liberdade positiva “freedom to”. Assim, a liberdade negativa é aquela definida pela ausência de coerção, ninguém obriga ninguém a nada, e a liberdade positiva é a presentça de capacidades (adicionando aqui o conceito definido por Amartya Sen). Isto de forma simplista, e segundo percebi.

    As pessoas como o comentador Lucy tendem definir a LIberdade em termos estritamente negativos: ausência de leis, e normalmente escolhem ignorar as consequências disso numa sociedade real, em que os que por uma razão ou outra (história, sorte, herança, mérito etc) atingem uma posição dominante e por ausência de leis que os impeçam, exercem esse dominio sobre os outros, cerceando a sua liberdade. Exemplos disso abundam em nosso redor, mesmo com as leis que temos.

    Já a ideia de liberdade positiva parece-me muito mais construtiva.
    Não adianta ser livre se se vai morrer de fome amanhã, se nunca se aprendeu o suficiente para garantir o sustento próprio, se formos incapazes de superar uma deficiência física ou outra que nos assola desde o nascimento.
    Por isso um entendimento da liberdade enquanto capacidade para fazer coisas, leva-nos a que uma sociedade que maximize a liberdade, seja necessariamente solidária e mais equalitária. O que são palavras feias para muita gente.

    1. Parece-me que o seu comentário adiciona pontos muito importantes. E tem muita razão: teríamos sempre que distinguir entre as diferentes formas de liberdade e compreender que existem compromissos. Isto é válido para qualquer tipo de ideologia.

  4. Bom isto parece uma conversa particular, mas como esta aqui exposta creio que é um convite aos transeuntes.
    Sinto a coisa tocar em filosofia, e muito bem, pois se não fosse a ciência do pensar isto não passava da Terra das plantas. Mas acreditar que por ser capaz de pensar sou Deus é ir longe demais, é ir ao extremo oposto ao da planta, que é ir até à alucinação.
    Não, de nada serve ao nosso presente e ao nosso futuro que andemos por aqui com ideias de que é possível fazer disto um paraíso onde todos vamos ser muito românticos, onde todos vamos tocar no botão virtual e logo vem um belo bife e uma boa pinga… Igualdade total é igual a morrer, e igualdade circunscrita por nichos é igual a fascismo, e dessa já temos em fartura.
    Falemos sim de justiça, pergunte-mo-nos se é justo que aquele que semeia o trigo viva mais mal do que aquele que come o pão, e já que temos cabeça para pensar também devia-mos perceber que se aquele que semeia passa mais mal do aquele que só come logo quem semeia vai se deixar desses trabalhos para se dedicar só a comer e depois não vai sobrar ninguém para semear e depois…é só inventar para comer até que finalmente a fome nos traz de volta à realidade e vendo que não temos pão, lá vamos pedir esmola àqueles que se consolam as custas do ciclo da vida do animal estúpido.

    1. A conversa naturalmente que não é privada, caso contrário eu não a traria aqui.

      Pessoalmente nada tenho contra futuros utópicos: são por natureza inatingíveis mas servem de guia, de indicação para o que se pretende. Os compromissos torná-los-ão impossíveis, como disse, mas tentar atingi-los, de forma pacífica, pode levar a um mundo mais próximo deles.

      Apesar de não ter qualquer interesse no mundo ideal de lucylucky, gosto que ele lute por ele. Também não gostaria que o mundo evoluísse nesse sentido, mas haverá sectores da nossa sociedade que poderão beneficiar do simples facto de tal mundo ser idealizado e defendido.

  5. Isto é tudo muito bonito, mas todos salvam o mundo desde que não salvem ninguém à sua custa. Ou de outra forma. Nunca tantos, viveram tanto tempo com a qualidade com que se vive na Europa. Vão ver que vos resolve grande parte das preocupações filosóficas.

    1. A questão da qualidade (de vida) é importante. Para os nossos tecnocratas, gira tudo à volta de PIB, balanço de exportações e importações e crescimento económico. Por vezes valeria a pena pensar qual o objectivo disso tudo. A economia deveria servir a sociedade, não o contrário.

    2. Se juntar à sua equação o factor evolução vai ver que o que diz não faz sentido nenhum. Pois se é para olhar para traz então olhe logo para o principio, quando por exemplo o Homem ainda vivia nas cavernas. O retrocesso que estamos a ter face à recente sensação de evolução que experimentamos, é violento e até absurdo, pois o único resultado que se vê é a expropriação do trabalho, do fruto do labor de um par de décadas de muita gente. Acha que é fácil para um individuo que após 20 anos de trabalho para por exemplo um lar e agora desempregado têm de o entregar a um banco? São vinte anos de escravidão. Não, isto não são cantigas nem tretas, é sim a realidade que muita gente está vivendo. Mas para alguns, para os que estão por cima da crise este é o momento para o verdadeiro manjar. O derradeiro triunfo dos porcos.

  6. João André sem margem para dúvidas que a democracia é o melhor!!!……. Imagine que a criança um dia sonhou com o comunismo tal como foi idealizado e o fascismo e ficou completamente perturbada. A criança pergunta-lhe qual o melhor: comunismo ou fascismo? Porquê? Atenção o comunismo tal como foi idealizado e não como foi aplicado.

    1. Eu compreendo a diferença entre os “dois comunismos”, mesmo que não exista um “comunismo tal como foi idealizado”, porque o próprio Marx foi mudando a sua visão global à medida que nela reflectia. Adiante.

      Na sua visão pura, assumindo que possível, e perante essa pergunta, diria que o comunismo é melhor que o fascismo, isso parece-me evidente para quem me lê. Simplesmente não creio que a natureza humana permita essa forma de comunismo. Tentativas de o implementar acabariam por resvalar para repressão – ou pelas massas ou pelas elites. Por isso concordo com a primeira frase: a democracia, perante as alternativas, é a melhor opção.

  7. Se o João André frequentar o blogue O Insurgente, verá que Lucklucky apenas é um dos membros de uma seita com as caraterísticas muito adequadamente descritas neste post. Trata-se de uma seita fundamentalista de pessoas que tomam uma série de autores como se eles contivessem toda a verdade – em vez de Marx e Lenine usam Hayek e Mises -, que têm um espírito sectário de que só eles é que estão de posse da verdade e de que não se deve colaborar com ninguém, e que sonham com uma utopia.

    1. Sim, esses todos são quase iguais, diria, mas sem a herança dos seguidores dos anteriores.
      Acho um excelente exercício existir uma contra-corrente a estas garantias disto e daquilo que algumas leis nos “supostamente” proporcionam. Penso que o equilíbrio é a chave, mas este equilíbrio é viável em democracia, já num regime comunista ele nem sequer se põe. Não me parece que os defensores de Mises, Hayek, entre outros, tenham ideias de de controlo de massas, políticas dirigistas e afins que trouxeram aquilo que hoje sabemos. Mais do que solução única, no meu ponto de vista, apresentam visões alternativas de um problema que é real e só um cego não vê. Até porque este paradoxo actual, tanto dá para impor mais regulação a X e Y, como de repente essa mesma regulação ao proteger quem sabe, lança aos leões quem dela percebe pouco. Por outro lado, a ausência de algumas regras poderá permitir um darwinismo criativo que tem vindo a desaparecer de alguns sectores hiper-regulados, mas que tem prosperado noutros mais livres, como o caso das tecnologias e internet.

      1. É claro que essa corrente política tem alguma utilidade e alguma razão. Mas é lamentável o seu sectarismo (a incapacidade de efetuar negociações e compromissos com outras correntes políticas) e o facto de não reconhecerem que a sociedade que preconizam não passa de uma utopia irrealizável no tempo presente.

      2. Seria interessante comparar o parecer dos “insurgentes” sobre a bondade de haver limites orçamentais na constituição com a sua afirmação de que não defendem políticas dirigistas.

      3. Permita-me dizer que os defensores mais acérrimos de Marx não são defensores de controlos de massas e estão absolutamente a favor da democracia. Não imaginam um marxismo sem democracia. A ideologia em si não defende, ao contrário do que é costume pensar, um conceito totalitário. É a aplicação prática que o exige, uma vez que a ideologia passa por cima das diferenças individuais e dos desejos pessoais.

        O caso do liberalismo é, para mim, semelhante mas começando pelo lado oposto do espectro. Os defensores de Hayek não rpetendem de forma alguma um totalitarismo, mas tentando criar uma liberdade absoluta, acabariam por criar um totalitarismo real, onde aqueles que prosperassem se sentiriam forçados a oprimir os outros para poder defender a sua posição – conquistada à custa de trabalho e talento. É o conceito do feudalismo: defender a posição adquirida e passar os poderes – conquistas – aos descendentes. Claro que exagero, mas num mundo onde todos teriam liberdade para tudo e mais alguma coisa, os mais fortes defenderiam as suas liberdades melhor que os outros.

        1. Grande volta que foi dar!

          Para si e no caso de Marx é indubitável que os acérrimos defensores são democratas, já os liberais são feudalistas, bom, é uma conclusão incrível. Mas eu nem sequer vou entrar por aí, os meus livros estão neste momento a cometer suicídio saltando das estantes. Brincadeira!:)
          Não me parece que o liberalismo versão Mad Max de que fala, fosse dar origem a qualquer coisa de feudal, pois este não me parece a mim ser nenhum néctar só acessível a uma qualquer casta ou morgado. A defesa “da prosperidade” que julgo ser geral para todos, não pode justificar tudo e sobretudo qualquer tipo de comparação com formas de exercer poder. O facto de eu querer manter-me como sou junto com a minha família, não irá passar por construir nenhum reduto em volta da minha casa. Mas mesmo que assim fosse, conhece algum regime (ou alguém) que se ponha em risco de forma voluntaria? A manutenção está lá sempre não é um exclusivo. Adiante.
          Também me parece que o darwinismo que fala é algo comum a qualquer exposição do humano ao mundo, não me parece que seja uma característica especial liberal, até porque um mundo onde se identificam ” os mais fortes”, obviamente que haverá mais fracos por comparação. Isto por si só não necessita de vir atrelado a nada, é apenas natureza. Talvez a diferença é que no liberalismo ser forte pode estar ao alcance de qualquer um, noutros regimes, esses sim mais feudais, “a força” e a sua sobrevivência perpetua-se artificialmente não pelo valor, mas pela manutenção de um qualquer status quo, mascarado de qualquer coisa, como uma sociedade sem classes, por exemplo.

    2. Estou um pouco atrasado na resposta caro Luís, mas não o esqueci.

      Sim, conheço o Insurgente e há já muito tempo (essencialmente desde que surgiu). Pessoalmente penso que passou por um processo de radicalização semelhante ao de outros blogues à esquerda (5 Dias) ou à direita (Blasfémias). Nada tenho contra ideias diferentes das minhas (embora, por serem diferentes das minhas, estejam naturalmente erradas… 😉 ), mas é devido à posição intransigente perante o debate que não gosto de os ler. Conheci no passado muitas pessoas semelhantes no partido comunista (devido à minha história pessoal foi um dos meus primeiros pontos de contacto com a política) que ainda hoje perfilham as mesmas posições de há 20 anos, sem mudarem uma vírgula ou acrescentarem um ponto. A única diferença dos liberais de cartilha é o uso de mp3 em vez de cassetes, suponho.

  8. Na realidade o lucky é verdadeiramente um sortudo. Porque a democracia dá-lhe campo para libertar as ânsias contestárias que transporta. É esta uma virtude da democracia que muito subtilmente os poderes internacionalmente procuram explorar para melhor poder controlar.

    Significa isto que o ideal preconizado pelo lucky já se encontra instituído, mas com a diferença que para o realizar é necessário poder.
    A Índia, através da crença religiosa, sempre dispensou a democracia na implementação do sistema de castas. E este ideal de castas quer as ditaduras de esquerda quer as de direita nunca o negaram e até mesmo o implementaram pela alienação ideológica.
    Na realidade qualquer destes sistemas ou ideais, incluindo a democracia, só existem se tiverem quem os sirva e siga.

    Aqui chegados não é de espantar que o ideal do lucky se assemelhe a qualquer das ilustrações referidas anteriormente ainda que com alguns laivos esotéricos.

    Porém a utopia está para a acção social da mesma forma que a experimentação está para a ciência. Quero com isto dizer que a democracia só é falível e opressora na medida em que o Homem, por preguiça, egoísmo, acomodação e viciação, esquece que possui o gene da evolução. E são as situações de crise que o leva a repensar sua acção no mundo.

    Sim, eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que não seja necessário sonhar para tornar o mundo e a existência bem melhor do que se apresenta.

    1. «a utopia está para a acção social da mesma forma que a experimentação está para a ciência»

      Confesso caro Vento que não entendi aquilo que quis dizer. Talvez quisesse escrever “teoria” em vez de “experimentação”? Se não, então não o entendi.

      Mas eu até subscreveria o seu sonho se não fosse o facto de eu não acreditar que alguma vez a sociedade deixaria de sonhar. Basta ver que nas sociedades abastadas há indivíduos perfeitamente confortáveis com o seu nível de vida e que parecem ter de experimentar de tempos a tempos o estilo de vida mais primitivo (campismo, casas no meio do nada sem água ou electricidade, etc) para poder apreciar o que têm. O Homem é um ser permanentemente insatisfeito. Penso que isso não mudará tão cedo (e se mudar será pela via da evolução genética, não pela via filosófica).

  9. Bom dia a todos,
    Queria dizer algumas em relação a este post. Eu assumo-me como um minarquista, cada vez mais inclinado para o anarco-capitalismo. Tenho pena que este texto e os respectivos comentários, falem dos liberais e dos libertários como se fossemos tolinhos e tão perigosos como a extrema-esquerda. A nossa luta é uma coisa muito básica, queremos liberdade a sério, queremos ter liberdade de fazer o que quisermos com a nossa vida, sem que ninguém tenha a haver com isso. Só temos uma regra-base, o princípio da não-agressão, ou seja o ataque à vida, liberdade ou propriedade de outro ser-humano. Se isto é ser tolinho ou extremista então sou-o com muito orgulho. Cada vez somos mais, somos de uma faixa etária muito jovem (a grande maioria abaixo dos 30) e não se preocupem que cada vez vão ouvir falar mais de nós e mais cedo ou mais tarde vai haver um partido liberal em Portugal e aí vão ver a quantidade de gente que está farta do Socialismo (Social-Democracia é exactamente igual). Melhores cumprimentos a todos e só peço um bocadinho mais de respeito pelos “tolinhos”.

    1. Na América usa-se uma analogia muito curiosa, que é a seguinte: Se até aos 30 fores da direita és insensível e se depois dos 30 fores da esquerda és burro.

      1. Não é só na “américa” e acho-a disparatada. É uma tentativa óbvia de menorizar o opositor num debate. Infantilizar ou desvalorizar argumentos de esquerda. O comentário derrota-se a si mesmo entre gente inteligente.

        1. Ou será antes uma constatação do inevitável. Isto ao fim e a o cabo fica com dois tipos de gente: os que exploram e os que são explorados. Depois cada qual faz a sua escolha segundo as possibilidades e crenças que tem. Até aqui tudo bem, mas a partir daqui, acho eu, a democracia devia entrar em acção através dos governos, pois o governo eleito por votos de uma determinada população deve representar essa mesma população não só na tomada de posse mas também na sua forma de governar. Acho que é Marx quem disse, antes de outros, que o governo representa o força que detém o poder, e essa é sempre dos exploradores. Se não é isto que ele disse, paciência, devia ter dito, porque é uma inevitabilidade, mas nem por isso é o determinante absoluto, pois se vamos votar para legitimar esse poder é porque os exploradores precisam que os explorados se comprometam a aceitar essa condição. Logo fica claro que a Democracia serve para regular essas vontades e necessidades de toda uma sociedade, e só existe pela alienação dos explorados, uma vez que os exploradores são por si mesmos o objecto de desejo dos demais, ou seja. são o verdadeiro poder. Por isso se hoje estamos mal, a culpa é de toda a sociedade e cabe ao governo demonstrar isso mesmo, repartindo por todos, com equidade, o preço a pagar pelos nossos erros. Mas quando olhamos as noticias vemos mais do mesmo ou até ainda pior, pois o número de milionários em Portugal tende a aumentar, as reformas a sério teimam em não ser feitas e neste cenário a única conclusão que posso chegar é que os exploradores continuam a explorar sem dó nem piedade.
          Meu caro amigo, o povo não domina os mecanismos do sistema mas o povo é sábio e o povo português sabe que em Portugal quem não rouba nem herda não tem se não só merda.
          De ex moribundo

    2. Bom noite meu caro António,

      essa dos tolinhos é sua; e, tal como afirma, tem total liberdade para se fazer ouvir e é-lhe legítimo perseguir um ideal. Vá em frente, as árvores morrem de pé!
      Mas devo dizer-lhe que se quer um partido liberal o melhor é alistar-se em um dos vários bancos internacionais que nos “resgatam”, ou em uma das “sete irmãs”, porque são eles os donos do liberalismo.
      Ao preconizar este seu alistamento devo confessar-lhe que tenho em mente a esperança que consiga estabelecer aí esse princípio da não-agressão.
      Se necessitar de mais detalhes, por favor, não hesite em vir à “fala”.

      Já agora, na sua caminhada nunca se esqueça deste hino que partilho consigo:

      http://www.youtube.com/watch?v=RaF16IlysQc

      1. Caro De Vento,

        Caso não saiba, todos os libertários são contra bailouts. Nunca o dinheiro dos contribuintes deve ser usado para salvar uma empresa privada, mesmo que esta seja considerada “too big to fail”. O que você chama de liberalismo eu chamo-lhe “crony-capitalism” ou socialismo. Dizer que um adulto vê o mundo como uma criança é exactamente o mesmo que dizer que alguém é tolinho.E deixo-lhe uma frase famosa do Gandhi: “First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win.”

        P.S- Devo dizer que tem um gosto musical horrível.

        1. Caríssimo,

          obrigado pelo elogio sobre o meu gosto musical. Fiquei satisfeito em saber que ficou bastante tocado por esta escolha.
          Agora sobre o crony-capitalism, refira um único sistema que não se alimente do contribuinte e cujo poder não gire em torno das relações entre capital (seja de estado seja privado) e fantoches (políticos). O que você aponta sobre os bailouts não contempla o facto dos estados terem usado o dinheiro do contribuinte para apostar na roleta. E nesta situação o argumento falso é exactamente esse: “to big to fail”.
          Mas deixe-me dizer-lhe que o liberalismo é isso mesmo: socializam-se as perdas e privatizam-se os ganhos.

          O meu caro António apresenta uma versão do liberalismo ao estilo de woodstock, só que desta feita ao invés de me apresentar o símbolo da era aquariana lança-me uma sentença que atribui a Ghandi e que não passa de uma introdução poética ao que não referiu.
          O facto de se afirmar libertário recorda-me a origem deste pensamento. As suas origens remontam ao taoísmo e a outras correntes posteriores, sendo que estas, as posteriores, tiveram como princípio moldar o liberalismo clássico.
          O que o meu caro António apresenta nada mais é que o revivalismo daquilo que já foi percorrido, mas como todos quanto estão em crescimento julgam ter a posse das ideias, da inovação e do conhecimento.

          Deixe-me também dizer-lhe que o grave problema dos adultos é não conseguirem ver o mundo pelos olhos de uma criança. E ao cilindrarem-se neste estágio agem, pensam e afirmam como tolinhos.
          Já agora:
          http://www.youtube.com/watch?v=9r6FqT7F1s0

    3. Caro António, a sua opinião não é atacada. Apenas apresentei as razões pelas quais, do meu ponto de vista, o liberalismo tal como o luckylucky – e creio que o António – o defende não é viável. A sua perspectiva é obviamente válida mas vejo-a pessoalmente como não totalmente reflectida (e é aqui que faço a referência à “criança”, não falando nunca em “tolinhos”). Tem, e isto parece-me indesmentível, óbvias falhas argumentativas, tal como o outro extremo – comunismo absoluto – as tem. Talvez um dia as identifique, talvez não. Seja como for, uma sociedade plural – impossível no comunismo ou anarco-capitalismo – precisa de todas essas visões para se questionar permanentemente.

      1. Caro João,

        Se me disser quais as falhas argumentativas do libertarianismo eu tenho todo o prazer em tentar rebate-las, nem que para isso demore horas.

        Melhores cumprimentos

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