Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.
Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.
Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta — tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem — uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira “fonte de inspiração”, capaz de nos revelar “aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo”, como dele disse Barack Obama.
Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião — o tal “olho por olho” que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo — e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico — durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros — aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.
Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.
E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.
No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.
É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.
Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.
Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.


Precisamente ao contrário do seu vizinho Moçambicano…
Onde, no período dito de transição (governo português/Frelimo) milhares de colonos — muitos ex-militares do Exercito português — foram massacrados e presos.
Posso testemunhar: – Só na estrada Lourenço Marques /Matola, foram queimados vivos – repito: queimados vivos, centenas!
Os responsáveis portugueses sabem-no bem! Choram Mandela… será de remorsos? !!!
…” Sr Presidente , o que fazemos aos colonos? Deitem-nos aos tubarões”…
O presidente está bem vivo e continua “revolucionário”.
Moçambique e África do Sul: um impressionante contraste. Mas em vez de Moçambique poderíamos escrever Somália ou Etiópia ou Guiné-Bissau ou Nigéria ou Congo ou República Centro-Africana ou Ruanda ou Sudão. Por isso e por muito mais o exemplo de Mandela é marcante. Num continente tristemente marcado por meio século de chacinas, morticínios e violência de todo o género, o Nobel de 1993 deixa-nos um verdadeiro legado de paz. Oxalá o seu exemplo continue a inspirar as novas gerações de sul-africanos. E que o país, apesar de todos os problemas nele existentes, se mantenha como oásis num continente que tarda em encontrar um rumo de estabilidade e prosperidade.
Obrigada. Gostei muito do texto. Li duas vezes. Não porque não tivesse percebido à primeira, mas porque realmente gostei. Simples assim.
Se não se importa “roubei” o link deste seu texto para dar alguma dignidade ao meu pequeno espaço. Posso devolver se assim o desejar.
Um bom domingo.
Eu é que agradeço, Maria. Obrigado pelo destaque que fez ao meu texto no seu blogue.
Tenha uma boa semana. E continue a aparecer por cá.
“É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.”
E é quase cómico (se não fosse tão patético) ver como muitos deles se põem em bicos de pés para nos dizer como eram os melhores amigos de Mandela. Alguns cruzaram-se com ele uma única vez por razões profissionais, outros nem isso, mas de repente todos eram íntimos. Enfim.
Patético sim, Ana. Dizes muito bem. Nestas alturas, infelizmente, as mentes pequenas tornam ainda mais evidente a sua imensa falta de nível.
“…manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano…”
Desculpe lá uma pergunta, mas sem ser no continente africano o Pedro conhece ou conheceu ou ouviu falar de algum estadista com mais qualidades tanto quantitativas como qualitativas que um estadista deverá ter, que sejam superiores às do Nelson Mandela?
É que (na minha opinião claro) reduzir Nelson Mandela ao continente africano será muito redutor, ou o Pedro considera o Reagan e a Teacher ou mesmo o PCP (por exemplo) melhores estadistas que Nelson Mandela?
Parece que o Pedro quer relativizar um pouco tanto a grandeza de Nelson Mandela, bem como relativizar também a posição que Portugal tomou em 1987, ao lembrar (noutro post ) que o PCP se opôs a um voto de pesar pela morte de Václav Havel , como se tivesse algum paralelo essas situações. Em primeiro lugar, porque um estava preso e precisava de todo o apoio possível para ele e para a sua causa, enquanto que no segundo, trata-se apenas de um gesto simpático, pois em nada alteraria a situação dele, pois acabara de falecer. Em segundo lugar porque ao contrário de muitos, que no passado nada fizeram para ajudar Nelson Mandela (tendo tido hipóteses de o fazer), vêm agora bater no peito dizendo maravilhas dele, o PCP se fosse de novo proposto um novo voto de pesar pela morte de Václav Havel , opor-se-ia igualmente (e com isto não estou a defender a posição do PCP, que aliás é contrária à minha).
Não leve a mal, mas é o que me parece, e já agora, estou curioso por saber quais os outros estadistas de outros continentes que o Pedro acha superiores a Nelson Mandela.
Ainda não percebeu que Mandela foi bom para a África do Sul e mau para África?
O que Mandela ensinou foi que basta seguir a penitência do homem branco para ser considerado bom.
A pionião que se vê nos jornais Europeus é todo sobre a perspectiva da expiação dos crimes dos brancos.
Quando falam de Mandela os “humanistas” por exemplo do Delito não falam da sorte dos pretos africanos falam muito mais sobre a sua condição de brancos e da culpa colectiva que carregam.
Por isso é mais ou menos irrelevante que Mandela tivesse apoiado ditaduras Africanas que chacinaram milhares de Africanos.
Porque os africanos pretos nunca estiveram em causa, mas sim como o homem branco se sente consigo próprio.
Os únicos factos sólidos onde Mandela foi superior foi escrito neste texto: a limitação do poder e abdicação do poder.
Não lhe levo nada a mal, Artur, mas quem lhe disse que reduzo Mandela ao continente africano?
Pelo contrário.
Basta recordar-lhe que escrevo isto:
“Aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo .”
E isto:
“Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta — tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem — uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças”.
Ou seja: considero-o uma figura contemporânea verdadeiramente inspiradora à escala universal – e também um exemplo para as próximas gerações, vivam elas onde viverem. As palavras que transcrevo acima não permitem lugar a dúvidas.
Considero-o ainda “o maior estadista de que há memória no continente africano”, algo que me parece incontroverso. E mais que justo.
Não gosto de formular juízos categóricos e absolutos que resultam de comparações entre personalidades muito diferentes oriundas de épocas muito diferentes. Não posso comparar Mandela – um homem do século XX – com centenas de estadistas da história milenar de outros continentes, como a Europa e a Ásia, ou da história bicentenária da América. Nem o comparo sequer com um DeGaulle ou um Churchill, também figuras do século XX dignas da nossa maior admiração por tudo quanto fizeram. Desde logo por nos terem legado um mundo mais livre e mais justo.
Tal como não digo que Churchill seja superior a De Gaulle, ou vice-versa. Todos eles – e Mandela também – merecem ser lembrados pelos melhores motivos.
Não vou discutir a posição do PCP sobre Havel. Lamentável, a todos os títulos: até pelo mais elementar desrespeito por um morto. O facto, ocorrido há menos de dois anos, é suficientemente expressivo para falar por si. E por aqui me fico.
Mas o meu ponto essencial é este: todos quantos usam hoje o nome grande de Mandela para manobras de pequena política mostram-se indignos do essencial do seu legado.
Não esqueceram nada, não compreenderam nada.
Pedro,
sobre o nosso Madiba não escreverei mais para além do que já por aqui comentei. Agora é o momento de deixá-lo partir.
Porém gostaria de escrever umas palavrinhas sobre a nossa condição e também sobre a votação na ONU. Começarei pelo último:
A votação de Cavaco (Portugal) dividiu-se em duas partes:
1 – Votação contra a violência legitimada quando o objectivo era precisamente uma transição pacífica para um território com as características que todos conhecemos. Certamente que nesta posição estavam bem presentes os acontecimentos do ex Congo Belga, de Angola, Moçambique, Guiné o ex Biafra etc. etc. etc. etc.;
2 – Votação a favor da libertação de Mandela na 2ª. parte da resolução apresentada.
Só os ignorantes desconhecem a realidade africana e vêem com falsa indignação estas votações. E mais não digo.
O caminho do Homem é feito de momentos aparentemente incoerentes e contraditórios, quando visto sob a falsa perspectiva da malfadada coerência que aperreia o desenvolvimento e crescimento do indíviduo e da sociedade.
O homem coerente é aquele que vive e que se aceita como estrangeiro. Estrangeiro perante si e estrangeiro perante a raíz de sua cultura. Considerando-se passante, nesta condição que melhor permite deixar-se acolher e acolher, porque destituído de vínculos viciantes, vive as dores do crescimento com o olhar de quem vê e de quem se observa, sempre em contínua vigilância para que nunca perca esta condição.
Estrangeiro não é o homem que estranha, mas o que se entranha na raíz interrogativa da existência e do seu sentido. E sempre que as respostas vão surgindo, qual candeia de inquieta e tremeluzente chama, vai subindo os ásperos degraus da pirâmide da vida até ao momento em que desgatado nada mais lhe resta senão as asas que o conduzem à terra de sua origem.
Sim, Pedro, parafraseando um ditado chinês, convenhamos que «as folhas caídas regressam smpre às origens». E como o Outono está aí nada melhor que contemplar a natureza.
Concordando com a sua reflexão, meu caro, permito-me reproduzir algo que já deixei acima, na resposta a outro leitor: todos quantos usam hoje o nome grande de Mandela para manobras de pequena política mostram-se indignos do essencial do seu legado.
E quem não perceber isto não percebe nada.
Ora nem mais.
Devo dizer-lhe que gostei muito também da reflexão sobre Mandela no seu blogue, João Pedro. Um abraço.