Agora é a mãe…


fiodeprumo,

Está a tornar-se hábito que os familiares de políticos vejam a sua vida pessoal na praça pública como se exercessem funções que a tal impusessem.

Agora é um jornal que coloca em primeira página que a mãe do engenheiro Socrates deve dinheiro ao fisco por via de mais valias na venda de uma sua casa. Mas o que é que algum de nós tem que ver com a vida da senhora? Se deve, é o fisco e só ele que tem de resolver o assunto. Se não deve, é uma calúnia que merece ser punida.

É evidente que o que se pretende é atingir o ex PM. Mas a continuarmos assim, sem que ninguém se insurja, daqui a pouco estamos a pagar pelo que fizeram os nossos trisavós ou primos em quarto grau.

Não sou amiga do Eng. Socrates nem da sua ascendente. Mas considero inaceitáveis processos deste tipo. Os filhos não respondem pelos pais e o inverso também é verdadeiro. A que propósito é que a vida da senhora é tornada pública, visando uma matéria da sua estrita esfera privada?

A saga da transparência está, no nosso país, a alcançar proporções insanas, que ofendem profundamente o direito à vida privada e à defesa do bom nome pessoal.

25 comentários em “Agora é a mãe…”

  1. A verdade é que o caloiro de filosofia em Paris invocou a sua mãe (e a riqueza a que ela não sabia o que havia de fazer) como financiadora das suas actividades.

    1. O filho pode dizer o que quiser e o deixarem dizer que isso não torna a mãe responsável. A menos que se goste de ver uma mãe vir publicamente dizer que o filho mentiu…
      Aliás, o post é sobre a mãe que não tem funções oficiais. Não é sobre o filho, embora a pretensão seja o de o atingir pelo lado mais fraco, o dos afectos. Lamentável!

      1. “A menos que se goste de ver uma mãe vir publicamente dizer que o filho mentiu…”

        Sim, eu gostaria muito de o ouvir da boca da mãe do Pietro Verri, ai, quis dizer José Sócrates, se ele efectivamente mentiu. A transparência, o escrutínio e a honestidade perturbam a Helena?

        Existe uma história muito mal contada sobre esta mulher que possui um apartamento caríssimo em Lisboa, apesar de não declarar quase quaisquer rendimentos; existem suspeitas de que o filho, enquanto político ao serviço da nação, o comprou com dinhero ilícito. Realmente acredita que a vida desta mulher não deve ser devassada? Pois eu acredito que os nossos plumitivos ainda não a devassaram o suficiente, e fico à espera de um verdadeiro e aprofundado jornalismo de investigação no tocante à sua vida pessoal, apesar de saber que ele nunca virá, pois não temos jornalistas, apenas os tais plumitivos.

        1. A administração da justiça num Estado de direito compete aos tribunais. E o direito à vida privada e ao bom nome não dispensa os jornalistas de provarem o que afirmam.
          Se assim não acontecer as pessoas são julgadas na praça pública e não se podem defender.
          É isto que preconiza?!

          1. Onde está a falácia? Na premissa – subentendida – de que Portugal é um estado de direito. Não apenas não é, como está longe de o ser: é uma republiqueta bastante corrupta – a condizer com a imagem que tem lá fora.
            Ser um estado de direito exige muito mais do que mecanismos formais que produzem verdades apenas formais.
            É altura de se descer à substância das coisas.

          2. Dfg com base nessa argumentação dispensam-se os tribunais. E descendo “à substância das coisas” a opinião pública passa a ser lei, variável consoante o ódio dos julgadores!

          3. Com base nesta argumentação, devia-se perceber que precisamos de fazer algo de idêntico ao que fez a Itália na Sicília com Giovanni Falcone, assumindo oficialmente que estamos com níveis de corrupção do 3º mundo.
            E reformar o estado, aliviá-lo da burocracia, vigiar os partidos, onde há contribuintes com nomes estranhos – e que em qualquer pais europeu daria aso a investigações rigorsas e consequentes, etc, etc…
            Exactamente o contrário do que diz.

          4. Com 10 dias de atraso:
            É um problema nosso. A verdade tem uma força própria. Temos de a ir impondo. E um dos modos é eles saberem – os corruptos ou os meros profiteurs – que não podem contar com a defesa ingénua dos bem intencionados.
            Infelizmente, chegou-se longe demais.

        2. Ah! E claro a transparência, o escrutínio e a honestidade não me perturbam. Vivo do meu trabalho e sou escrutinada sem nunca ter exercido funções políticas. É justamente por isso que posso falar. Espero que o comentador – que tão delicado foi comigo ao pôr-me a questão – possa dizer o mesmo!

          1. Mas é evidente que tem de ser escrutinada. É, no seu caso particular, uma injustiça? É. Remédio para isso: um estado substancialmente de direito e ausência de corrupção. Se estivéssemos na Alemanha os nos States, apoiaria a sua indignação, porque o grau de escrutínio tornaria totalmente impossível – e até absurdas – a existência de situações que aqui se admitem e que agora, parece, se começam a defender, e com apelo a um estado de coisas que bem se sabe não ser o que existe.

        3. Totalmente de acordo. Se estivéssemos num estado de direito teria havido uma investigação séria de todo o caso relacionado com a compra daqueles andares. O refúgio em princípios que, bem se sabe, não têm aplicação ou não tem aplicação plena ( e para isso basta o nível de corrupção existente) faz com que as defesas formais percam já de si sempre parco valor. Diria mesmo que, no estado em que nós encontramos, os particulares têm o dever ético de contribuir para o desfazer de situações como aquela de que falamos.

  2. Não posso estar mais de acordo consigo.
    ……….
    Contudo, a divulgação publica dos devedores ao Fisco e à SSocial, está bem escarrapachada no site das Finanças.

  3. Para além de querer cumprimentar a Sra. D. Helena como grande mulher e mãe que é, quero também dar o meu total apoio à opinião expressa neste seu post. Sou mulher e mãe e se alguma das meninas filhas algum dia neste incerto futuro em que vivemos, cometer um delito passível de ser julgado criminal ou apenas moralmente, não deixará de ser a minha menina, nem deixarei de apoiar e amar menos por isso. As mães têm que ter uma alma imensa que comporte todo o vexame e sofrimento do mundo. Uma espécie de ETAR espiritual, onde se trata a podridão para poder ser consumida familiarmente com alegria. Agradeço – lhe em nome das mães, minha Senhora. Votos de Festas Felizes

  4. Cara Helena, nem os pais têm de pagar pelos pecadilhos dos filhos e vice-versa. O problema é quando os pais beneficiam dos pecadilhos dos filhos e vice-versa…

    1. Pedro Correia,
      sendo um particular, nunca tendo exercido um cargo público ou de algum modo estado em situação de poder usar o poder e bens público para me favorecer ou favorecer ou prejudicar terceiros, sinto-me no direito de manter a minha privacidade quando defendo a transparência da vida pública.
      Bom seria que se percebesse em Portugal, que não há vantagens sem desvantagens e o exercício de cargos públicos é um exemplo de algo que já os romanos sabiam: Ubi commoda, Ibi incommoda
      De qualquer modo, o meu mail é verdadeiro, como facilmente poderá verificar, pelo que está aberta a possibilidade de poder responsabilizado se fizer afirmações que constituam ilícitos criminais ou civis.

  5. Exm.ª Senhora

    Desta vez, estou inteiramente de acordo com o seu postal (não escrevo só para discordar…) e não tenho nenhuma simpatia pelo anterior primeiro-ministro.

  6. Eu compreendo muito bem a posição da Sra. D. Helena e não posso estar mais de acordo, mas gostaria de dizer que não me recordo de alguém ter tido uma posição semelhante sobre os negócios da filha do PR. Aliás, em certa altura esses negócios foram arma de arremesso político e muita gente, que agora se ofende com o sucedido com a mãe de JS, reagiu assobiando simplesmente para o lado.

    1. FF
      Julgo que se quer referir, de facto, ao genro do PR. E ao contrário do que pensa houve gente que reagiu.
      Chamo apenas a atenção para um facto. Aqui ninguém “se ofendeu”. Não haveria por quê. Aqui “reagimos” ao que consideramos injusto, o que é diferente.
      menos

  7. Sra. Dona Helena
    Na minha opinião, a ideia aqui é vender jornais e achincalhar as pessoas na praça pública. Tão só.
    Perdemos demasiado tempo no ” acessório ” e assim se vai o que é realmente importante.
    Enfim, mas sábias são as suas palavras, sábias e justas, especialmente vindo de uma mãe que ofereceu os filhos á politica e ao escrutínio de todos, os bons e os maus.
    Vale bem a pena, tirar-lhe o chapéu, pela sua justeza.

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