Confesso que estava receosa do filme ser muito violento, porque Eichmann foi alguém que atravessou a minha infância e simbolizou os delírios hegemónicos da Alemanha. Mas venceu a pressão familiar, a troco do meio bife no Café Império da minha juventude. Cedência contra cedência portanto, ou como dizem os meus colegas de profissão, um caso de win/win.
Gostei imenso da película. Talvez porque me relembrou a importância de “pensar” – tantas vezes esquecida ou mal entendida -, a intransigência, a dureza, enfim, o lado claro escuro da vida.
Hannah Arendt foi uma filósofa que obrigou a rever muito do pensamento da época em que viveu – só muito mais tarde seria devidamente apreciada – e que prova bem como julgar as pessoas fora do contexto em que cresceram e viveram pode ser injusto.
Não se trata apenas do julgamento de Eichmann, nem sequer da incompreensão de que esta mulher foi, durante muito tempo, vitima. Trata-se de algo muito mais profundo, e que pode resumir-se dizendo que se pretendeu, de facto, fazer um julgamento da História.
Um filme a não perder, sobretudo por todos aqueles que, como eu, são fiéis leitores de Arendt. Iria dizer seguidores. Mas seria exagero, porque tenho algumas divergências com o seu pensamento filosófico. Mas isso será matéria de que, um dia, quem sabe, talvez me venha aqui a ocupar.


partilho o teu receio, e tudo o resto. beijos
«Hannah Arendt foi uma filósofa que obrigou a rever muito do pensamento da época em que viveu – só muito mais tarde seria devidamente apreciada – e que prova bem como julgar as pessoas fora do contexto em que cresceram e viveram pode ser injusto.»
Esta sua frase parece conter uma contradição ao afirmar que a Hannah Arendt foi “mal julgada” no contexto em que viveu, só muito muito mais tarde sendo devidamente apreciada. Assim, às vezes os julgamentos fora do contexto parecem melhores do que os contemporâneos…
JJAmarante
E foi, de facto, mal “julgada”. Tanto e tão dolorosamente que os amigos a abandonaram e só há pouco tempo teve direito à “oliveira dos grandes” em Israel e à publicação e venda dos seus livros.
Isso, Helena. Mas palmas também a Margarethe von Trotta por ter contribuído para re-colocar questões de fundo que importam continuar a discutir.
Excelente reflexão, Helena. Vi o filme e pensei escrever sobre ele, ainda bem que não o fiz pois não teria lançado melhor as questões.
Raios, ainda não consegui ir ver o filme e quero muito vê-lo. Talvez alguém me ofereça um bife no Império, quem sabe? 🙂 A propósito, o bife ainda é bom?? Não vou lá há anos.