Mãe, eu sei que não vais gostar de ouvir isto, mas se eu me der bem por lá, não volto. A voz dele, cada vez mais aguda, a ajustar-se a um miúdo de bochechas e cabelos louros, anelados. Não quero ficar toda a vida a marcar passo. Tão bonito que as pessoas na rua até se viravam para o ver melhor. A ganhar uma miséria. Podia ser o que quisesse, revelaram anos depois os testes vocacionais. Bonito, inteligente e saudável. Uma benção. Um orgulho de que se podia morrer.
Daqui a seis meses, quando acabasse o contrato o mais certo era não mo renovarem só para não terem de me meter no quadro. Podia ser o que quisesse, mas gostava era de filosofia e de música, duas vocações bonitas. Não dá para continuar nesta indefinição. Duas vocações de alto risco. È impossível, mãe. Trocou-as por uma carreira mais viável, de que aprendeu a gostar. Mas é impossível, mãe nem assim.
Quando ele nasceu, tão bonito, sentiu que a partir daquele dia aguentaria tudo desde que pudesse, pela vida fora, continuar a vê-lo sempre.
