Arrumar a biblioteca (XV)


Pedro Correia,

 

Merkel, Otelo e Salazar

 

Às vezes questiono-me sobre a ironia do destino. Que leva autores de orientações estéticas muito diferentes e quadrantes políticos muito diversos a permanecer lado a lado nas bibliotecas, irmanados na eternidade quando tudo os separou enquanto vivos.

Penso nisto enquanto confiro as lombadas dos livros de escritores portugueses. José Saramago e Ruben A, por exemplo. Tornaram-se vizinhos de prateleira na minha biblioteca onde figuram em lugar de destaque pelo simples motivo de possuir várias obras de ambos e gostar deles enquanto leitor, cada qual a seu modo.

Certamente se conheceram pessoalmente, numa altura em que o meio literário lisboeta era ainda mais pequeno do que é hoje. Eram da mesma geração, separados por ano e meio. Ruben, signo Gémeos, nascido a 26 de Maio de 1920; Saramago, signo Escorpião, nascido a 16 de Novembro de 1922.

Mas, embora ambos detestassem o regime salazarista, seguiram trilhos políticos diferentes. Isso tornou-se mais evidente após o 25 de Abril de 1974: Ruben era social-democrata, Saramago era comunista.

Ignoro se alguma vez tiveram uma polémica pública, mas é inegável que cultivavam estilos literários muito diferentes. Ruben era discípulo directo dos modernistas e foi claramente inspirado na escola surrealista, Saramago provinha da escola neo-realista e manteve-se de algum modo fiel a ela, adaptando-a ao seu estilo muito próprio, mesclado com influências do chamado “realismo mágico” latino-americano.

Personalidades nada confundíveis, mas ligadas afinal pelo longo abraço da literatura.

 

Continuando a observar as prateleiras, observo encontros ainda mais inesperados. Nos livros políticos escritos por autores portugueses, que acabo de reunir noutra estante, um ex-ministro de Salazar encontra-se quase ao lado do principal estratego militar da Revolução dos Cravos — e ambos a centímetros de Mário Soares e do seu Portugal Amordaçado na histórica edição da Arcádia. Separados apenas, entre eles, por António José Saraiva e o seu Herculano e o Liberalismo em Portugal. De Soares separa-os António Barreto (Tempo de Mudança e Uma Década) e Vasco Pulido Valente (Esta Ditosa Pátria).

E agora reparo que este livro de Pulido Valente está desgarrado: devo juntá-lo às outras obras que tenho do autor (O Poder e o Povo, O País das Maravilhas, Portugal — Ensaios de História e de Política, Retratos e Auto-Retratos e Um Herói Português).

Reparo também que devo juntar esta obra de Saraiva a outras que tenho dele, nomeadamente o Dicionário Crítico e Maio e a Crise da Civilização Burguesa.

Já os três volumes encadernados da sua História da Cultura em Portugal, que herdei do meu avô, permanecem em justificado lugar à parte.

 

Mantenho um apreço muito especial por estes dois livros escritos por tão irredutíveis adversários políticos. O sexto e último volume de Salazar, que me foi oferecido pelo biógrafo do antigo ditador, e Alvorada em Abril, uma obra muito detalhada e bem escrita sobre a operação que levou ao derrube do Estado Novo e as horas subsequentes ao 25 de Abril — também oferecida pelo autor. Desde logo, pelo manifesto interesse histórico de ambas. No caso de Salazar trata-se do volume mais relevante pois deriva quase todo do testemunho directo do autor, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1961 e 1970, e revela episódios inéditos, como um Conselho de Ministros em Junho de 1968 no qual o então presidente do Conselho revelou claríssimos sinais de perturbação mental, repetindo tudo quanto dissera na reunião anterior. Mas sobretudo porque os dois exemplares estão autografados. No caso de Otelo, com uma data muito significativa: 25 de Abril de 1984, quando passava uma década exacta desde o derrube do regime de Marcelo Caetano.

 

Tenho algumas dezenas de livros autografados: são estes, compreensivelmente, aqueles de que mais gosto na minha biblioteca. Livros de escritores tão diversos e de épocas tão diferentes como Jorge Amado, Fernando Arrabal, José Saramago, Dinis Machado, Manuel Alegre, Fernando Namora, Couto Viana, Romeu Correia, Modesto Navarro, Manuel António Pina, Adolfo Simões Müller, Mário Castrim, Maria Ondina Braga, Baptista-Bastos, José Augusto Seabra, Clara Pinto Correia, Inês Pedrosa, João Aguiar, João Tordo.

Hei-de falar deste tema com mais algum pormenor, mas por agora troco as arrumações pela leitura dos períodicos, que nunca consegue estar em dia. Sobretudo das publicações estrangeiras, como a revista Veja. Que nesta última edição, em prosa assinada por Mario Sabino, ajuda a explicar o êxito político de Angela Merkel com uma frase clara, concisa e exacta: “No poder desde 2005, ela é difícil de marcar pela oposição, porque se desloca da direita para a esquerda, e vice-versa, sem nunca perder o centro.”

 

Tudo isto ao som de Rodrigo Leão. Cinema: um “filme” que ouço sempre com agrado.

 

Até amanhã.

 

8 comentários em “Arrumar a biblioteca (XV)”

  1. Eu tenho o Saramago e o Gabo juntos, eles que eram tão amigos.
    Isto porque tenho os autores do Nobel, por ordem cronológica, em duas prateleiras (quem será o próximo?) e uma só com Saramago e García Márquez.
    Do Saramago destaco a edição especial do Memorial do Convento autografada e a Colóquio Letras, que acho lindíssima.
    Destes 2 autores apenas tenho os filmes “A Jangada de Pedra”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Amor nos Tempos de Cólera”.
    Quanto à música só posso dizer que adoro o Rodrigo Leão.
    🙂 Antonieta

    1. É uma boa maneira de arrumar livros, essa da sequência cronológica dos galardoados com o Nobel. Isso levar-me-ia a pôr todos os livros que tenho do Hemingway entre os do Mauriac e os seis volumes de ‘The Second World War’, as memórias de guerra de Winston Churchill, Nobel de 1954.

      Do ‘Ensaio sobre a Cegueira’ gostei mais do livro do que do filme do Fernando Meirelles. Apesar de ter a Julianne Moore no elenco.

      1. Faço o mesmo com os Man Booker, só que ponho os vencedores e os shortlisted. E nestes tenho montes de filmes.
        Pedro, e livros de viagens?
        Além daquela colecção da Tinta da China e dos Guias da American Express, tenho umas ‘prateleiritas’ deles.
        Por exemplo, já fui à Patagónia (the impossible dream) com o Chatwin, com o Theroux, com o Sepúlveda e também com o Cadilhe e a Maria João Ruela.
        E com o Ernesto Guevara (livro e filme).
        E com o David Byrne nos Bycicle Diaries.
        E ao Alaska com o “Into the Wild” , livro e filme, e com a fantástica voz do Eddie Vedder.
        E tantos outros…
        O Pedro que já viajou tanto, deve ter muito que contar!
        Para quando um livro?
        Antonieta

        1. Bem, com o Byrne só fui até Buenos Aires ;-).
          Se por acaso um escritor foi galardoado com os dois prémios, caso de W. Golding, Coetzee, Naipul, Doris Lessing ou Nadine Gordimer (sortudos!), ponho-os no Nobel.
          E aqueles livros do DN com o ano na lombada
          são óptimos separadores.
          E hoje, juro, já não melgo mais!
          Antonieta

  2. Que inveja! Palmilhei tantos alfarrabistas à procura dos livros do Franco Nogueira, sabe Deus o trabalho que me deu encontrá-los a um preço jeitoso (nunca me hei-de esquecer daquele símio da avenida de Roma a pedir-me 230 euros pela biografia do Salazar)… e nem autógrafos nem nada. Está certo que estava o homem a morrer e andava eu na escola primária, mas mesmo assim. Um homem de outro calibre, de outra estirpe. Só posso imaginar a mágoa que deve ter sentido quando viu as profecias anotadas nos seus diários confessionais, todas elas, uma por uma, realizadas em menos de nada.

    O Dicionário Crítico do Saraiva foi outro que me deu uma trabalheira encontrar. Já não se edita nada disto, a História da Cultura comprei uma edição sem dignidade nenhuma do Público, mas, vá lá, ainda consegui comprar as Crónicas e a História da Literatura em edições como deve de ser. O resto consegui em mau estado, livros manchados, rasgados, enfim. Estes intelectuais, intelectuais verdadeiros, estão condenados a desaparecer. Não dão rendimento, não despertam interesse do «consumidor». Não deixa de ser triste.

    1. Quando as editoras deixaram de pensar em leitores e começaram a pensar em “consumidores”, as coisas mudaram. E muito. Felizmente há os alfarrabistas. E vai-se ampliando o comércio de livros em segunda mão onde, com persistência, se conseguem óptimas obras a preços razoáveis.
      Eu comecei a coleccionar livros muito cedo e tive a sorte de conhecer pessoalmente diversos escritores, das mais variadas tendências e géneros e escolas literárias e gerações. Aguardo há anos por uma edição das obras completas de António José Saraiva, um dos maiores pensadores portugueses do século XX, mas essa iniciativa editorial tarda em aparecer. Lamentavelmente.
      De Franco Nogueira tenho outras obras. Nomeadamente ‘Um Político Confessa-se’, fundamental para entender os anos crepusculares do salazarismo.

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