
Por razões profissionais estive na semana passada na Alemanha e pude assistir à campanha eleitoral alemã. Da mesma pude concluir que a aspiração de tantos políticos portugueses de que alguma coisa possa mudar após essas eleições é perfeitamente ridícula. Angela Merkel está de pedra e cal na chancelaria, e não vai alterar um milímetro a política que desenhou para a Europa. Quanto a Peer Steinbrück, já tinha concluido que tinha tantas hipóteses de ser eleito chanceler como o Reichstag de dançar o samba. Mas depois desta entrevista bem pode ir já para casa. Merkel vai ser assim naturalmente reeleita e a única dúvida é se os seus parceiros de coligação, os liberais do FDP, conseguem ou não entrar no parlamento. Mas, com eles ou sem eles, não haverá solução de governo que não tenha Merkel na chancelaria.
Verifiquei ainda que o discurso radical contra os países do sul da Europa está a ter grande sucesso na Alemanha. Por todo o lado vi cartazes com frases como esta: “os gregos que paguem sozinhos as suas dívidas”. Ou: “os resgates do euro põem em causa as nossas pensões”. É espantoso que a opinião pública alemã não se aperceba do que o país já ganhou com a crise do euro. Mas como a política não é racional, é de prever que a prazo termine a paciência dos alemães para continuar a financiar estes resgates.
Neste enquadramento, não deixei de achar curioso que Wolfgang Münchau tenha vindo cá sugerir a Portugal que ameace com a saída do euro como estratégia negocial para obter melhores condições para nele permanecer. Acho que se Portugal adoptar essa estratégia o mais provável é do outro lado ouvir: “Excelente ideia! Estávamos mesmo a pensar propor-lhe isso”.

Acho que a ideia do Münchau funciona justamente por causa disso: porque depois de a opinião pública alemã reagir com um Excelente ideia! Estávamos mesmo a pensar propor-lhe isso”, as elites alemãs seriam obrigadas a explicar à opinião pública alemã que se calhar o mito do sul perdulário não era bem assim e que a crise do Euro, tal como o próprio Euro, os beneficiavam de forma absolutamente desproporcional.
Será? Se calhar não aceitariam de tão bom grado é que a seguir saía a Grécia, Espanha………. Se assim fosse já não veriam dinheiro algum e os seus bancos como ficariam?
Nem tenha dúvida de que a opinião pública alemã não se apercebe do que o país já ganhou com a crise do euro. Garanto-lhe que não fazem mesmo ideia! Como, se ninguém lhes diz?
Ainda hoje li um panfleto de um pequeno partido que, entre outras coisas, apelava ao seguinte: nem mais um cêntimo para os países em crise! Porque não havemos de utilizar esse dinheiro para reparar as nossas estradas?
Algo funciona muito mal, nesta nossa Europa. O problema deve estar em tantas línguas diferentes, uma autêntica Torre de Babel.
Essa de que “a Alemanha é forte, e permanecerá”, transporta-me à antiguidade de Hitler. Vejo que o cartaz de Merkel, por suas atitudes, pretende tocar a reminiscência do carácter germânico que tanto imperou por esse período e outros anteriores.
Quanto à saída de Portugal do euro: para quê? se permancermos assim todos caíremos. Porquê tantas conjecturas sobre esta questão quando se sabe que desta vez ou nos safamos todos ou morremos todos?
A Alemanha tem vivido também à conta da instabilidade de vários países, de que beneficiou anteriormente, beneficiando também agora; e quando diz que perdoa uma dívida ela recupera com os juros da negociação seguinte, dilatando os prazos de pagamento da dívida. Isto é negócio para ela.
Se Portugal, Grécia, Espanha, Itália saíssem da zona euro a Alemanha não só perdia por via das receitas usurárias como também daquelas que deixavam de resultar das transacções com ela. A Indústria alemã sofria um rombo enorme.
Nem a Alemanha tem culpa solitária da situação portuguesa nem Portugal per si. A culpa é, e foi, dos governantes portugueses e europeus.
Bom dia,
Este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Portal SAPO