Arrumar a biblioteca (IV)


Pedro Correia,

Billie Holiday, Alexandre O’Neill e Fernando Seara

 

O nosso João Campos costuma chamar a atenção para a perda de qualidade das capas dos livros que vêm sendo editados em Portugal. Está cheio de razão. Lembro-me dos tempos em que as principais editoras confiavam a grandes artistas plásticos a autoria das capas. Almada Negreiros, Bernardo Marques, Maria Keil, Cândido Costa Pinto, Lima de Freitas, Sebastião Rodrigues, Infante do Carmo, Armando Alves, Luís Filipe de Abreu e tantos outros conceberam capas que fizeram história no mercado editorial português.

Artes e letras conjugavam-se de forma perfeita em benefício do leitor.

Esses dias parecem já muito remotos. Quase tão remotos como a voz magoada e dolorida de Billie Holiday, acompanhada pelo fabuloso saxofone de Lester Young em All of Me — um dos momentos mais marcantes da história da música do século XX. Fixei a data da gravação: 21 de Março de 1941, primeiro dia de Primavera em Nova Iorque. Não por acaso, Frank Sinatra considerou a intérprete de Lady in Satin “a maior influência vocal na música popular norte-americana dos últimos 20 anos”. Palavras de 1958.

Figuras trágicas, ela e ele. Morreram estupidamente cedo, com quatro meses de intervalo, em 1959. Lester partiu primeiro, a 15 de Março, com 49 anos; ela foi ter com ele a 17 de Julho, tinha apenas 44 anos.

 

A capa do CD Billie Holiday/Lester Young é banal: uma fotografia dela, ligeiramente desfocada. O mesmo não posso dizer das capas de alguns livros que tenho à minha frente: o João certamente gostará tanto delas como eu. Na parte que me toca, por coincidência ou talvez não, existe uma correspondência directa entre a admiração pelas capas e a devoção pelas obras.

Que livros são?

A Paixão de Martin Eden, de Jack London (editora Civilização). Terna é a Noite, de Scott Fitzgerald (editora Relógio d’Água). O Céu que nos Protege, de Paul Bowles (editora Assírio & Alvim). Fiesta, de Ernest Hemingway (editora Ulisseia). Com excelentes capas assinadas respectivamente por João Aguiar, Fernando Mateus e Luiz Duran. Ignoro apenas quem concebeu a do grande romance de Bowles: falta a indicação na ficha técnica, algo que me parece imperdoável numa editora como a Assírio & Alvim.

 

Ficamos também sem saber, segundo leio na edição de hoje do i, o montante dos cachets televisivos dos dois principais candidatos à corrida autárquica em Lisboa. “Costa e Seara não dizem quanto ganham como comentadores”, titula este jornal na primeira página. Transparência sim, ma non troppo. Até porque ambos poderão receber bem mais por aparecerem na TV do que por exercerem funções políticas.

Tudo isto enquanto a Comissão Nacional de Eleições persiste em interferir nos critérios editoriais das empresas televisivas. Com um resultado péssimo já à vista: ao pretender que tudo seja transmitido, objectivo que não poderia ser alcançado nem que as televisões multiplicassem por dez os seus quadros redactoriais, a inútil régua e o inútil esquadro da CNE conseguem apenas que quase nada mereça destaque na campanha que se avizinha. Sucede a quem tem mais olhos que barriga, como costumamos dizer às crianças. Don’t be that way, apetece-me recomendar à CNE, adoptando o título do clássico de Benny Goodman, que agora escuto — extraído do memorável concerto do 40º aniversário da carreira do clarinetista e chefe de orquestra, em Janeiro de 1978, no Carnegie Hall. Um concerto que originou disco duplo, pérola da colecção musical existente cá em casa.

 

Deparo com outro livro com uma capa de que também muito gosto. É uma das obras que mais estimo na minha biblioteca: Poesia Completa 1951/1983 de Alexandre O’Neill. Edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, inserida na colecção Biblioteca de Autores Portugueses — cara mas imprescindível. Esta é a segunda edição, datada de 1984 (ainda O’Neill vivia, embora já com graves problemas de saúde) e a capa é de Armando Alves, que nos anos 70 foi responsável pelo excelente grafismo da Inova, uma editora com sede no Porto que deixou muito boa memória na vida cultural portuguesa.

Olho este livro e, fazendo uma rápida analogia, questiono-me se Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, teria conhecido o sucesso que conheceu em 1967 — com mais de seis meses no top de vendas britânico e ainda hoje considerado o melhor disco de sempre pela Rolling Stone — sem a inovadora, impressionante e irresistível capa de Peter Blake.

 

Estás cheio de razão, meu caro João Campos: nestes casos o hábito faz o monge.

 

Até amanhã.

 

12 comentários em “Arrumar a biblioteca (IV)”

  1. Entre Costa e Seara não escolho nenhum, o que a seguir indico respeita apenas a um deles porque me recordava de o ter lido (a notícia é de 26/06/2012). Quanto ao outro, não tenho ideia, não digo que seja menos ou mais. Mas sempre comenta assuntos de política e não do jogo da bola, nesse aspecto está em vantagem (digo eu).

    http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/lazer/tv–media/tvi-paga-6-mil–a-fernando-seara

  2. Faz mesmo. As “stock photos” arruinaram as ilustrações dos livros, para prejuízo geral – dos ilustradores, que têm menos trabalhos; dos autores, cujos livros são publicados com capas genéricas e irrelevantes; e das lojas, com prateleiras e expositores de estética duvidosa. Enfim, é o que as editoras querem.

  3. Pedro, chegou a encontrar os Contos da Misogínia?
    Eu li-os ontem. São irónicos, sarcásticos, corrosivos, alguns fizeram-me lembrar o Retrato de Mónica, da Sophia (Contos Exemplares), um dos meus livros preferidos.
    Dos 3 da Patrícia que já li, o melhor é mesmo o Eleven.
    Ela tem mesmo uma fixação com caracóis, aquele dos bichos gigantes é horripilante!
    Só me falta ler A Casa Negra.
    Boas arrumações!
    Antonieta

    1. Não, Antonieta, ainda não encontrei esse. Mas já tenho vários da PH reunidos nas estantes, facilmente localizáveis a partir de agora, sem necessidade de nenhum GPS livresco.
      São estes:
      – O Desconhecido do Norte Expresso
      – O Observador de Caracóis
      – Inocência Perversa
      – Gente que Bate à Porta
      – O Talentoso Mr. Ripley
      – Ripley Debaixo de Água
      – Doce Doença
      – Pena Suspensa
      – O Grito do Mocho
      – A Cela de Vidro
      – Contos Póstumos
      Onze, portanto. Falta assinalar que ‘O Talentoso Mr Ripley’ (descobri agora) tenho em dose dupla. Esta é uma das consequências de se manter a biblioteca doméstica em estado caótico. Hei-de falar também disso aqui, no âmbito desta série.
      Ainda bem que gostou dos contos de ‘Eleven’: o do caracol gigante é extraordinário, como símbolo do combate sempre desigual entre o homem e a natureza. Que nós pretendemos dominar de todas as formas quando acabamos por ser invariavelmente dominados por ela.
      Dão pano para mangas, como se percebe.
      Vá aparecendo por cá.

  4. Não sou do tempo dessas capas bonitas e bem desenhadas mas creio que ainda se fazem algumas com bom nível com especial destaque para as da Tinta da China que são acompanhadas de grande qualidade de edição.

    1. Tem razão, Filipe: ainda há bons redutos de qualidade nessa matéria que procurarei realçar aqui. E essa editora que mencionou destaca-se pela positiva. A regra, no entanto, é confrangedora. Como também procurarei demonstrar. Até porque gosto sempre de sublinhar o que digo ou escrevo com exemplos concretos.

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