Dias de cão


Rui Rocha,

Aux Champs-Élysées, au soleil, sous la pluie, à midi ou à minuit, il y a tout ce que vous voulez. E havia também, há dias, um pedinte atravessado no caminho de quem se dirigia ao Arco do Triunfo, ali por alturas da loja da Yves Rocher. Ao seu lado, um enorme cão branco e um cartaz: temos fome, o cão e eu. Ou qualquer coisa deste género. Estranho mundo este. Não se trata já de notar a enorme contradição entre o luxo de algumas lojas e a indigência, assim colocados, aos olhos de quem quiser ver, a uns escassos metros de distância. Agora a coisa vai mais fundo. O marketing da miséria ajusta-se aos novos tempos. Se um ser humano quiser despertar a compaixão do seu semelhante tem menos hipóteses de sucesso se o fizer em nome próprio. Todavia, se invocar o nome ou a circunstância de um animal, é provável que não o faça em vão. E que receba, a seu reboque, um bom punhado de moedas. O conceito de animal de companhia já conheceu épocas mais gloriosas. Sucede-lhe agora o do Homem como companhia do animal. Vivemos, dir-se-ia, verdadeiros dias de cão.


9 comentários em “Dias de cão”

  1. Em Portugal penso que não é muito comum. Mas em França, na Bélgica, é bem sabido dos clochards que ter um cão ao lado quando se pede na rua funciona muito melhor do que pedir sozinho.

  2. Surpreendi-me com esse letreiro (moi et mon chien nous avons faim) ao ver, trinta e um anos atrás, em Montpellier, calmeirão barbudo a mendigar, acompanhado por pastor alemão, nenhum deles com aspecto faminto. Técnicas de marketing, suponho. Que não lograram convencer bolseiro a livrar-se de uns ‘sous’, que tanta falta lhe faziam para comer no Restaurant Universitaire comida imprópria para estômago português — só a necessidade (fome?) obrigava a engolir aquelas coisas.

  3. Posso estar enganado, mas terá muito a ver com a ideia de que se alguém mendiga, fá-lo porque quer (i.e. podia ir trabalhar, que tem bom corpo, etc.). Já o cão, coitado, não tem culpa. E o se o mendigo trata do cão, se calhar até é boa pessoa.

    No fundo, as pessoas acabam por dar esmola ao cão e ao seu tratador, em vez de a dar directamente à pessoa que a pede. É uma distorção moral (no meu entender) comum na nossa sociedade – a desumanização do “pecador” e a humanização da “pureza animal”.

    Relembro só, a título de exemplo, que no Reino Unido a RSPCC (“Royal Society for the Prevention of Cruelty to Children”) surgiu como um “ramo” da RPSCA (“Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals”) e um bom par de anos depois. Isto diz tudo sobre a inversão moral de uma sociedade.

    1. Nessa coisa da RSPCC e da RPSCA não vejo inversão moral da sociedade, caro Carlos. Vejo, sim, uma sociedade altamente hipócrita, sem coragem para admitir, durante muito tempo, que havia crianças sujeitas a crueldade. Tinha (e tem) vergonha de o admitir e preferia esconder. Leio muito sobre abusos a crianças dentro das famílias e pasmo sempre com as reações, por parte de familiares, vizinhos e conhecidos: esconder, silenciar, isso é lá com eles, etc. Isto é um problema antigo, tão antigo como a Humanidade, infelizmente 🙁

      Já admitir a crueldade a animais é mais fácil, por não provocar tantos problemas de consciência. Essa pode ser a explicação por a RPSCA ter surgido mais cedo.

      1. Cara Cristina,

        A NSPCC (é National, não Royal, as minhas desculpas) quando foi fundada não pretendia proteger as crianças no seio da famílias, mas antes evitar as tragédias dickensianas (vd. Oliver Twist) de exploração do “trabalho” infantil (com muitas aspas, infelizmente). O que acontecia dentro das famílias (menos infanticídio e muito dependente de classe social) não era tocado.

        Eu vivi recentemente uns anos em Inglaterra e posso-lhe dizer, com toda a franqueza, que apesar das condições para criar uma criança serem boas (se calhar melhor que cá) a perspectiva social sobre as mesmas é má. A título de exemplo, é normal em restaurantes não ser permitida a entrada (como clientes) a crianças abaixo de uma certa idade. Ainda recentemente se discutia aplicar a mesma regra a alguns vôos (“children-free flights”), sendo que hotéis já os há. As crianças são muitas vezes vistas com empecilhos.

        1. Não fazia ideia de prerrogativas desse género e nunca ouvi falar de tal, na Alemanha. Vivo numa rua, chamada “rua de brincar” (Spielstrasse), em que a velocidade máxima é de 10 km/h (está a ler bem: 10 km/h, velocidade de passo – e em Portugal já se reclama por se querer impor 30 km/h em bairros habitacionais de Lisboa!), para que as crianças possam brincar à vontade (até há um sinal rodoviário próprio para ruas destas, que não tem nada a ver com um sinal proibitivo, com o vermelho à volta de um número; é um sinal em azul, em que se vê uma casa, um carro, uma e uma bola). E as crianças brincam, pulam, gritam, andam de bicicleta, jogam futebol, desenham no chão com giz, fazem trinta por uma linha. Parece que vivemos no meio do recreio de uma escola 😉

          Acho que os ingleses (e talvez os portugueses) têm algo a aprender com os alemães…

          P.S. Os animais, aqui, também são bem tratados. Até vêm muitos cães de Portugal, porque parece que aí não há quem possa tomar conta deles…

  4. Ah, Rui, parece-me que quase nos cruzámos por lá!
    Não vi essa dupla, mas também vi pedintes em Paris em locais insuspeitados. Ao lado, saldos de sapatos que passaram de 900 euros para 450…

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