«A ideia de que todo o escritor escreve forçosamente sobre si mesmo e se retrata nos seus livros é uma das puerilidades que nos foram legadas pelo Romantismo (…) As obras de um homem retratam muitas vezes a história das suas nostalgias ou das suas tentações, quase nunca a sua própria história, sobretudo quando se pretendem autobiográficas. Nenhum homem ousou jamais pintar-se tal como é.»
Albert Camus
Hoje perguntaram-me se escrevo sobre mim. Também, respondi. Mas, acrescentei, escrevo sobretudo sobre o que vejo e o que oiço, que é bem mais interessante.
Quando me sentei à secretária para trabalhar, dei com a transcrição feita acima, que foi retirada pelo Pedro Correia de um livro de Marcelo Mathias. Como gosto dos três, lembrei-me da conversa que acabara de ter e sorri por causa da coincidência (que a Margarida Rebelo Pinto diz não existir, e é capaz de ter razão).
Não sendo, como é evidente, nem escritora – costumo dizer que sou escrevinhadora – nem comparável a Camus nem a Marcelo, ou mesmo ao meu querido Pedro, aquilo sobre que “peroro” tem muito pouco a ver com a minha história pessoal. Tem, sim, a ver com o meu olhar sobre o que me rodeia, o que , parecendo ser o mesmo, é, de facto, bem diferente. O que eu vejo, o que eu oiço, o que eu penso, não é o que eu vivo. O que eu vivo vai muito para além do que escrevo e, em certas ocasiões, vai mesmo para além de mim própria.
Talvez seja por tudo isto, que nunca publiquei um romance, apesar de ter dois quase escritos e o meu saudoso Mário Castrim me ter incitado a fazê-lo…

Querida, há muito que te passou o rótulo de escrevinhadora e o Castrim estava cheio de razão, venha o romance:) Nós nunca escrevemos sobre nós, escrevemos sobre o que vimos do mundo a partir de nós, pelo menos é assim que entendo. Lucien Freud diz que todo o retrato é um auto-retrato e David Lodge diz que os escritores são os melhores histórias de sempre, batem antrópologos, sociólogos, historiadores, por contarem o reflexo do seu tempo, assim se quisermos saber da Inglaterra no século XIX lemos Dickens e os exemplos seguem por aí. Como dito, venha o romance:) beijo-te imenso
Tenho a certeza de que esse romance virá, caríssima Helena. E eu estarei entre os primeiros com vontade de lê-lo.