Ser convidado nunca é tão bom como estar em casa


joaomsandre,

Este post, especialmente a parte em baixo, que se refere à experiência de sair do país e da adaptação a outras realidades, deveria ser lido por qualquer pessoa que pensa em emigrar. Estando há já quase 10 anos continuamente fora do país (aos quais adiciono um ano e picos que já tinha feito no passado), sei o que custa sair do nosso rectângulo. Há vantagens na emigração (não houvesse e ninguém emigraria), mas há coisas que se perdem irremediavelmente.

 

Interlúdio para a frase fundamental do post citado e que vale todo o meu texto (o meu título é também adaptado de uma frase do post):

«Julgava que, sendo de um país da União Europeia, ir viver para outro país da Europa seria como ir para uma cidade que fica só um bocadinho mais longe e onde se fala uma língua diferente. Não é.»

 

A pergunta sobre aquilo de que mais sinto falta tem evoluído com os anos. Começou por ser a família e os amigos (nunca desaparece), passou pela língua (a cabeça virava automaticamente sempre que ouvia português na rua) e pelo sol (ainda e sempre), a certa altura é mesmo a comida (mesmo que má) e passa sempre pelo estilo de vida (sinto por vezes falta do caos). Actualmente aquilo que me falta é o sentimento de pertença. Não me sinto como pertencendo a lado nenhum. Mal conheço a cidade onde nasci e cresci, a cidade das minhas felizes recordações universitárias parece ter desaparecido e a seguir não cheguei a ficar em lado nenhum tempo suficiente para criar raízes. Acrescentando a isso não ter uma companheira portuguesa e acabo por ser um estranho em todo o lado.

 

Quando me contavam o corajoso que eu era por sair – há dez anos – pensava que isso dizia mais sobre a falta de coragem dos amigos e conhecidos que da coragem que eu tinha. Hoje percebo que era eu que me equivocava, que não tinha consciência daquilo que ia fazer, das dificuldades emocionais por que ia passar. Penso mesmo que, quando se opta por mudar de país, é bom que não se tenha a certeza daquilo a que se vai. Saber demasiado poderá aumentar a indecisão e complicar a vida mais que uma simples recusa em partir. A partida deve ser em busca de uma vida de facto melhor ou de uma aventura.

 

Não vou aqui elencar as dificuldades nem as soluções. Cada pessoa é diferente e aquilo que custa a uns pode ser mais fácil para outros. Apenas aponto um conselho a quem queira sair: percebam que não sabem ao que vão. Informem-se sobre o destino, se possível através de amigos e conhecidos, mas tenham consciência que vão sair surpreendidos e que tudo será mais difícil, com o tempo, do que aquilo que se esperaria.

43 comentários em “Ser convidado nunca é tão bom como estar em casa”

  1. João: gostei deste texto, em que revejo muitas das minhas dúvidas e perplexidades que senti quando vivi longe de Portugal (em dois períodos e destinos diferentes, totalizando 12 anos e meio).
    À distância temporal, não tenho a menor dúvida em considerar que o balanço é largamente positivo. Abrimos horizontes, conhecemos novas línguas e culturas, fazemos novas amizades, ganhamos arcaboiço para enfrentar o inesperado.
    E sobretudo – gostaria de sublinhar isto – saímos de um atmosfera social que demasiadas vezes nos empurra para baixo. Refiro-me ao desânimo, ao desalento, à mentalidade do não-vale-a-pena, à convicção de que tudo só muda para pior, às certezas de que todos os esforços são inúteis. À atmosfera de crise permanente, do queixume como senha de identidade, da insistência em ver o copo meio vazio mesmo quando está cheio porque o resto da tribo também o vê assim.
    Enquanto estive fora, na maior época de ‘vacas gordas’ em Portugal, quando cá vinha de férias só ouvia falar em crise. Crise do jornalismo, da televisão, do teatro, do cinema, do comércio, da cultura, da indústria, da política. Como sucedia dez anos antes, como continuou a ser dez anos depois (já com as vacas bem magras, quase esqueléticas).
    Encontrei as mesmas pessoas nos mesmos bares, sentadas nas mesmas cadeiras, com as mesmas conversas, dizendo mal de tudo e de todos. Uma década depois.
    Disso não tive saudades. Nem voltaria a ter se voltasse a emigrar. Falta-nos mentalidade mais positiva, algo que muitas vezes só adquirimos quando saímos, quando vivemos em países de brumas e regressamos com saudades do sol.

    1. Pedro, como disse no post, cada caso é um caso. Depende muito das experiências e depende das perspectivas que se tenham para o futuro, as quais não são necessariamente condicionadas apenas por questões económicas. No meu caso, e por razões pessoais, vejo como difícil o meu regresso. Isso muda um pouco as perspectivas.

      Seja como for, nunca disse que não sinto o mesmo do que falas, esse desânimo está sempre presente, esse hábito de falar mal (que é hábito de cada país, cada um com o seu “código”, mas presente em todo o lado), esse descontentamento permanente. O que se torna curioso é que a certa altura esses defeitos se tornam, para mim, como que mensagens de boas-vindas. Não pelo que é dito, mas pelo calor humano, que é diferente daquele que eu vou sentindo todos os dias. Claro que convém dizer que apesar de ter oportunidades para isso tenho muito pouco contacto com outros portugueses, e isso torna-me algo diferente de muitos outros emigrantes lusos.

    2. Pedro,
      faz agora vinte anos que emigrei para Portugal, já vivi antes um ano aqui, e um outro na Índia. Não vou negar que o pessimismo e o queixume é algo de que se gosta em Portugal, mas a frase “encontrei as mesmas pessoas nos mesmos bares, sentadas nas mesmas cadeiras, com as mesmas conversas, dizendo mal de tudo e de todos. Uma década depois.” podia ter eu escrito sobre as minhasvisitas a minha terra natal, não só na Alemanha, mas numa das partes mais ricas e beneficiadas da Alemanha! Há sempre muitos que preferem queixar-se do que fazer qualquer coisa, e seja isso so ir para um outro lugar…
      Pois, também não tenho pena de ter ido embora. Acho que a diferença entre os que ficaram e os que foram para outros mundos, tem menos a ver com os lugares ou países do que com as pessoas, que têm curiosidade e coragem (va lá, não acho me nada heroi, mas talvez sou, em comparação) para se aventurar num mundo maior, ou não a têm.

      Mas sim, o JAA tem razão: paga se um preço. Nomeu caso, da emigração no sentido inverso, não posso queixar-me da comida, nem de falta de sol, nem de caos, mas percebo aquestão da falta de pertença. Senti-me um alien, um “legal alien” mas um alien, e a falta de conforto que vem com a pertença. Mas carmaba, disse-me: isso não faz parte de crescer? Mas posso dizer ao JAA, na segunda década da minha vida de imigrante, as coisas melhoram. Hoje sinto-me bastante em casa aqui.

      1. Agradeço o incentivo Lutz. É o que espero. Mas também eu poderia escrever o mesmo (as queixas) em relação à Holanda com um espaço de uma década. Como escrevi acima, todos os povos se queixam, apenas o farão dentro do seu “código”, da sua cultura. Para um estrangeiro poderá ser difícil penetrar e compreender o que é dito, mas assim que se perceba, parece que estamos no nosso país.

      2. Ó Lutz, lá por te sentires em casa não é motivo para abandonares o teu blogue QuaseemPortugues. Ainda notei um ou dois erros no texto, a tua escrita mantém-se assim quase em Português, bem podias escrever um post de vez em quando, a um ritmo assim do género alentejano.

      3. O melhor disto tudo, não desfazendo, é mesmo reencontrar o Lutz nisto das bloguices. Devias reblogar-te.
        Concordo com o postal, quem quer emigrar que se informe antes ao que vai – parece um lugar comum mas há muito apardalado. Ou, pelo menos, eu encontro muitos apardalados nesta minha emigração. E, pior, há muitos apardalados arrogantes. Os mesmos assustadiços servis na Europa do Norte que brotam doutorices abaixo dos equadores.
        Há um ponto negativo na emigração, e isto nota-se mais na segunda década, quase terceira: a família envelhece, nós desaproveitamo-la e desapoiamo-la. E depois morre. E também nós.
        Há um ponto positivo na emigração: quando saí de Portugal só rurais comiam caracóis (presumo que acompanhados de bolota). Hoje não se pode ir à Pátria Amada sem cruzar moles frenéticas a sorver aquilo. Se não tivesse emigrado já teria emigrado

      4. O melhor disto tudo, não desfazendo, é mesmo reencontrar o Lutz nisto das bloguices. Devias reblogar-te.
        Concordo com o postal, quem quer emigrar que se informe antes ao que vai – parece um lugar comum mas há muito apardalado. Ou, pelo menos, eu encontro muitos apardalados nesta minha emigração. E, pior, há muitos apardalados arrogantes. Os mesmos assustadiços servis na Europa do Norte que brotam doutorices abaixo dos equadores.
        Há um ponto negativo na emigração, e isto nota-se mais na segunda década, quase terceira: a família envelhece, nós desaproveitamo-la e desapoiamo-la. E depois morre. E também nós.
        Há um ponto positivo na emigração: quando saí de Portugal só rurais comiam caracóis (presumo que acompanhados de bolota). Hoje não se pode ir à Pátria Amada sem cruzar moles frenéticas a sorver aquilo. Se não tivesse emigrado já teria emigrado

  2. Caro João,

    Depende. Já fui (três vezes, uma por um período mais longo) e já voltei e digo-lhe com toda a sinceridade – se hoje fosse há dois anos atrás, quando decidimos voltar, não voltava. Sou Português com muito orgulho, adoro o meu País, mas ser Português passou a ser (apenas) o ponto de partida e não forçosamente o de passagem ou chegada. Sinto-me parte de muito lado e tanto me diz o Porto (onde vivo), a Maia (onde nasci), como Dortmund (onde fiz parte da minha formação) ou Epsom (onde vivi e trabalhei).

    Mas há maneiras e maneiras de se ir: há quem saia daqui só em corpo e não em alma e se procura integrar na comunidade lusa local logo que possível (e passados um dezena de anos ainda fala mal a língua local), há quem vá e corte com tudo (Portugal é o país das férias) e há aqueles – como eu – que vão e mantêm algumas coisas (alguns ingredientes para comida, algumas viagens sem serem de férias “puras e duras”) mas recusam outras (a tal integração na comunidade “expatriada”). Os primeiros sofrem sempre, os segundos serão cada vez menos Portugueses conforme passa o tempo mas aqueles como eu – e admito que sejamos a maioria nesta nova vaga de emigração – somos apenas um reflexo da nossa história de há meio milénio. Verdadeiros cidadãos do mundo, com Portugal no coração, mas com o coração aberto para partilha com outros.

    1. Eu estarei algo entre o segundo e o terceiro grupo. Não digo que tenho orgulho em ser português porque não consigo ter orgulho de algo que não controlo (não escolhemos o local onde nascemos e crescemos), mas isso é outra conversa.

      Repare que no seu caso tem voltado sempre, mas eu não creio que um dia volte (nada teria contra o regresso, mas a situação pessoal torna essa hipótese algo remota). Isso muda um pouco as coisas. Seja como for, o meu caso vivi em: Leiria, Batalha, Coimbra, Göttingen (Ale), Enschede (Hol), Maastricht, e agora Recklinghausen (Ale)/Maastricht. Falo as línguas, mas nunca me integrei completamente (creio que só em certas circunstâncias isso é possível, seja onde for) e perdi o contacto em Portugal. Falar em ser “cidadão do mundo” é bonito, mas ignora que na maior parte dos vezes isso significa que não pertence a lado nenhum.

  3. Como tenho dois filhos que emigraram já entradotes nos 30s , rapazes bastante habilitados profissionalmente mas pouco acomodados na vida e por isso mesmo (já com família) arriscaram partir aqui há uns anitos atrás , gostei muito deste seu post .

    Esses meus dois filhos voltaram há uns dois anos e estão hoje melhor do que antes de írem porque – acho eu – aprenderam o valor de muita coisa e regressaram ainda mais dispostos a lutar cá .

    O seu post é bem realista e desmistificador das balelas que por aí se ouvem e lêem , normalmente ditas ou escritas por malta que nunca levantou o rabinho da cadeira nem sabe o que é trabalhar longe (eu sei algo porque mesmo “cá dentro” trabalhei durante 20 anos em 4 distritos diferentes , foi o “possível” , e só via a família ao fim-de-semana).

    Se me permite também englobo neste elogio o comentário como sempre lúcido do “nosso” Pedro Correia .

    P.S.- Caricaturando , chego a pensar que o incentivo constante ao “fujam daqui” é a única maneira de alguns arranjarem espaço para eles próprios eliminando a concorrência …

    1. Saí já com 28 anos de idade, por isso compreendo um pouco essa perspectiva. Sair com família, no entanto, torna as coisas mais fáceis, especialmente se são portugueses. As raízes ficam mais marcadas. Mas é verdade que há muitas mistificações e que não se explica correctamente o que significa sair do país. Não que muitos tenham alternativa.

  4. Talvez seja exagero considerar este post como um verdadeiro “serviço público”. Mas é assim que eu o vejo.

  5. Interessantíssimo post e não menos interessantes os comentários, que deixam os que, como eu, nunca partiram para viver longe daqui, a pensar nas vantagens e desvantagens de ir ou de ficar.
    Sem saber do que falo, mas conhecendo-me como me conheço, acho que teria dificuldade em viver fora daqui, mesmo que este não seja “o melhor dos mundos”.

    1. Penso que o essencial é precisamente uma pessoa conhecer-se a si mesma para poder tentar prever as reacções. Seja como for, como escrevi, ficamos sempre surpreendidos. Algumas pessoas que ue nunca imagiei como emigrantes estão plenamente integradas na sociedade de acolhimento. Outras que sempre vi como perfeitos emigrantes decidiram voltar.

  6. Como o compreendo meu caro! No meu caso já lá vão quase sete anos e posso afiançar que tem razão em quase tudo o que diz.
    Há momentos em que nos sentimos esquizofrénicos, somos estranhos em qualquer lugar, no país de acolhimento e no nosso, que cada vez menos compreendemos mas cujas saudades apertam cada vez mais com os anos. A mudança muda a nossa perspectiva de onde viemos, daí as férias serem sempre acompanhadas de um sentimento misto de incompreensão e intolerância (principalmente para com o nacional-lamentismo) juntamente com satisfação por estarmos em casa.
    Discordo apenas quando diz que com o tempo tudo será mais difícil, pois aqui o país de acolhimento pesa imenso; não compare um destino europeu onde a nossa casa está a um par de horas de avião e a afinidade cultural é grande, com um destino africano ou asiático.
    Não pela mesma ordem, mas aquilo que sinto falta é o mesmo que refere, excepção para o caos, já que este mora mesmo no país de acolhimento, pois comparar Luanda com Lisboa, ou com a minha terra natal, não faz sentido algum. Por isso saudades mesmo é da tranquilidade e qualidade de vida do nosso país.
    Quanto ao sentimento de pertença, bem aqui a coisa também podia ser algo confusa para mim que sempre vivi com um pé em Elvas, outro em Badajoz e agora em Luanda, mas uma coisa é certa: acima de tudo Alentejano. Pois esteja onde estiver sei que a planície alentejana, essa terra onde o tempo não voa, antes caminha plácido e tranquilo, estará calmamente a aguardar pelo retorno deste seu filho (só não sei para quando!).

    1. Sem dúvida que o país é fundamental para os sentimentos. Eu sinto falta do caos na Holanda e Alemanha (a Holanda, apesar de tudo, é mais ordenada que a Alemanha), mas imagino que em países africanos ou sul-americanos a história fosse diferente. E sim, saber que podemos estar em algumas horas em Portugal facilita, mas mesmo isso é relativo. Repare, numa viagem para “casa” tenho habitualmente cerca de hora e meia até ao aeroporto, um mínimo de uma hora no aeroporto, duas horas e meia de voo, mais uma hora no mínimo no aeroporto de chegada e depois ainda um mínimo de hora e meia para chegar ao destino. Viagem completa, no mínimo? 7 horas e meia. Em média: 9 horas. O tempo de voo, apesar de tudo, engana.

        1. André, não é o tempo de voo, é mesmo o tempo de viagem para, e espera no aeroporto. Basta adicionar meia hora extra de viagens do e para o aeroporto por causa de trânsito ou atrasos com comboios/autocarros. Outra meia hora no aeroporto de partida e mais uma meia horita no de chegada e temos a hora e meia extra que é adicionada.

          Note-se que quando se dá o tempo de voo é mesmo entre descolar e aterrar, o embarque, o período entre o terminal e a pista de descolagem, o período entre a aterragem e a chegada ao terminal (ou ao estacionamento algures em Setúbal quando aterramos na Portela + autocarro até ao terminal), caminhada até à zona de bagagens, espera por aí, ir buscar o carro de quem quer que me tenha ido esperar, etc, tudo isto são pequenos períodos que somados dão uma hora ou duas extra.

          As minhas viagens mais simples são: Maastricht-Porto-Leiria; Maastricht-Eindhoven-Porto-Leiria; Maastricht-Colónia/Düsseldorf-Lisboa-Leiria. Considerando que lhe espeto umas duas horas extra por não ter aeroporto ao lado de casa (aqui), dá para as horas extra do voo Luanda-Lisboa (mesmo contando com o tempo na inspecção de passaportes).

          1. Compreendi perfeitamente. Tava apenas a “mangar” consigo, caro João.
            Eu tenho a vantagem de ter aqui o aeroporto a 15min de casa.
            Abraço aí para a Holanda!

          2. Percebi-o mal. Coisas de estar a responder a isto em pausas de um relatório que se revela frustrante.

            Abraço da Alemanha/Holanda

  7. Interessante post a que os comentários acrescentam novas perspectivas,sem se excluírem.No meu
    caso,já sem possibilidades de me expatriar,vou-me sentindo estrangeiro no próprio país.A pacata vila onde nasci,onde brinquei com os amigos nas ruas largas e arborizadas,com prédios de proporções humanas,com arredores campestres e para os quais a sofreguidão imobiliária e camarária se poderia expandir sem estragar o que preexistia,essa vila desapareceu;ir lá é sempre uma tortura.A praia extensa onde passávamos as férias estivais desapareceu também.Os locais arborizados,limpos, em que acampava com amigos e colegas foram devastados,quando há anos quis mostrá-los a meus filhos encontrei lixo,barracas,cacos,pestilência,nem um arbusto.O resto da minha vida está agora ameaçado pelo pagamento de dívidas que outros contraíram,sujeito pela terceira vez às misérias das bancarrotas.
    Resta-me olhar para dentro,para as memórias de uma vida simples e alegre.
    Desejo ânimo aos que ainda puderem emigrar e refazer vidas.

    1. Não se pode voltar ao sítio onde se foi feliz. Já não existe.

      E depois ainda há as dívidas dos outros. É por causa disto que me sinto por vezes culpado de ser bem sucedido neste país de acolhimento. Sinto que deveria ajudar o meu, aquele que, apesar detudo, ainda é aquele onde me sinto melhor.

  8. Gostaria de vos poder contar algumas coisas sobre mim, mas não o vou fazer. Tendo viajado das mais diversas formas, dou graças a Deus por nunca ter sido emigrante. E dou graças a Deus por uma simples razão: parece-me que os emigrantes só são diferentes em Portugal. Em todos os demais países que visitei e aqueles com quem convivi permitiu-me concluir que somos mesmo todos iguais, até iguais ao que dizemos não querer ser, ou seja, aos habitantes das terras de emigração. Fujamos, mas não nos escondamos de nós mesmos.

    Viver em Portugal é uma aventura, é estar num país de faz de conta onde quem o não quer fazer também tem de fazer de conta que não percebe o faz de conta. E depois de feitas as contas a este jogo do faz de conta também fazemos de conta que as nossas contas de não fazer de conta não dizem respeito ao faz de conta. E as vezes fico a pensar se a conta do não fazer conta neste faz de conta que não faz ficará bem feita com a conta feita ou sem ela.

  9. Parabéns, João André, pelo sentido de oportunidade, quando tantos portugueses ponderam emigrar, e pela honestidade do texto, sem maniqueísmos e desprovido dos habituais clichés sobre o que distingue os que vão e os que ficam, para os quais já não há paciência. Obrigada. Como já disse o tiro ao alvo, este post faz serviço público, assim como a caixa de comentários que suscitou.

    1. Teresa, este é um post que já vinha a adiar há uns tempos por aind anão ter tido a oportunidade de o escrever nem o ponto de partida para o fazer. Sinceramente sempre me pareceu que escrever o mesmo que toda a gente não serve de nada. Falar nas aventuras, nas (potenciais) vantagens financeiras, na organização (quando aplicável) do país, na história do “cidadão do mundo”, etc, é tudo muito simples. Falar nas saudades também é óbvio, qualquer pessoa as notaria. Aquilo que vai faltando é essa reflexão sobre os novos emigrantes, aqueles que fazem um trabalho mais qualificado, que não têm que trabalhar 80 horas por semana (como, segundo leio, se retrata no filme Gaiola Dourada), que se integram algo mais, etc. Apenas deixo a minha contribuição.

  10. Tendo nascido num país que já não existe nunca me senti integralmente portuguesa, apesar da nacionalidade que trago no passaporte. O sentido de pertença, ou a sua sua ausência, foi o que me levou há 17 anos a trocar Lisboa por Bona. No entanto, mesmo sem esta “portugalidade” intrínseca não foi nada fácil deixar Portugal. Faltou-me o colo de mãe, as tertúlias com os amigos e a luz que só Lisboa tem. E nunca deixei (deixarei) de ser uma convidada, bem acolhida e respeitada é certo.

    Apesar de todas as dificuldades emocionais, a minha pátria afectiva, a Alemanha, ofereceu-me perspectivas profissionais/pessoais quais as quais dificilmente poderia sonhar em Portugal.Sem cunhas e fruto de muito trabalho.

    Regressar a Portugal é uma perspectiva que não me coloco nas próximas décadas e há muito que deixei de fazer férias na “pátria” em Agosto (perdi a paciência para as piadolas sobre emigrantes, que a crise tem amenizado mesmo assim).

    A vida é feita de escolhas, de alguns acasos e poucas certezas. Para além da chuva (da neve, granizo e um ou outro, raro, corpo celeste) nada cai do céu.

    Obrigada pela sua interessante reflexão.

    1. Helena, o seu blogue e as suas reflexões são daquelas que sigo com muita frequência. Por ir desbravando algum caminho e por me dar mais algumas luzes sobre a sociedade alemã vista pelos olhos de uma portuguesa (ou seja, os factos com “tradução cultural” já feita).

      Também começo a fazer menos férias em Agosto em Portugal. Aliás, pouco as faço. Agosto é insuportável, sempre preferi Junho/Julho, mesmo antes, sempre que tinha possibilidade. Hoje em dia prefiro outros destinos, o mundo é excessivamente grande para desperdiçar o meu tempo livre a ir fazer praia para as mesmas praias de sempre.

  11. Bom post. Reconheco-me em muito do que escreve.
    Penso agora em voz alta:
    Tambem eu fora de Portugal ha mais de 10 anos e com perspectivas remotas de retorno.
    Reconheco em particular essa sensacao de “nao pertenca”. E um facto. E o custo de quem se tenta integrar no pais de acolhimento.
    Existem outros, os que emigram mas tentam emigrar numa bolha, querem ir para fora mas nao querem perder os habitos e rotinas da terra natal, aprendem apenas o essencial da lingua de acolhimento, nao comem o que eles comem, nao procuram os mesmos divertimentos, chegam a so ver e ouvir radio e televisoes natais, tentam trabalhar no estrangeiro mas no final de todos os dias, regressar a Portugal. Na minha experiencia esses, de facto, nunca se desenraizam mas tambem aguentam pouco tempo no pais de acolhimento – 1 ano, talvez 2 – e o que e mais triste e que acaba geralmente em lagrimas. Devo dizer que nesse aspecto ja convivi com emigrantes de outros paises europeus e os Espanhois sao particularmente susceptiveis a criarem essas “bolhas”, Polacos tambem. Os Portugueses costumam ser um pouco melhores mas tambem os ha.
    Em termos estrategicos creio nao me enganar ao dizer que o unico caminho e a integracao no pais de acolhimento, pelo menos para la ficar por periodos longos de tempo.
    Em termos tacticos a coisa envolve varias accoes que se entrelacam.
    Aprender a lingua de acolhimento e fundamental em meu entender, nao so o aspecto formal mas os dilectos, calao e origem de certos termos. Amigos locais tambem e importante, re-criar a rede de amizades que se teve no pais natal.
    Aprender a historia do pais de acolhimento, nao so porque nos qualifica para melhor perceber algumas das coisas que se passam a nossa volta mas tambem porque tao frequentemente esbarramos ou com a historia Portuguesa tambem ou vemos aspectos que incidem uma nova perspectiva sobre o nosso Portugal.
    Experimentar acima de tudo, ter curiosidade para com os habitos e costumes do pais de acolhimento apesar dos nossos inevitaveis preconceitos que resultam da nossa cultura natal.
    E esperar que o tempo passe. Concordo o Lutz, isto melhora com o tempo. Talvez porque a medida que se envelhece todas a fomes psicologicas ficam eventualmente saciadas. Talvez porque finalmente percebemos que o conhecimento e enriquecimento pessoal que se adquire vale o preco pago.

    Uma ultima nota, nao concordo com a nocao aparentemente generalizada nesta caixa de comentarios de que Portugal e um pais especialmente mais susceptivel ao “nacional-lamentismo”. Nao e. Todos os paises tem como diz, o seu proprio codigo para se comiserar com “os seus problemas”. E talvez por isso, por usarem o seu proprio codigo, a sua propria forma cultural de se expressarem nao seja as vezes tao perceptivel logo a primeira visto que os outros tambem se lamentam.

    1. O seu comentário é interessante, mas tenho que discordar, em parte, quando diz que há aqueles que emigram numa bolha. Toca num tema interessante e que dá pano para mangas… Nós portugueses temos realmente uma capacidade de adaptação enorme e é com grande rapidez que o fazemos a qualquer realidade. Ora bem, isto aos olhos de outros estrangeiros não é capacidade de adaptação, mas sim falta de identidade nacional. Passo a explicar: eu convivo em Luanda com uma considerável comunidade anglo-saxónica (ingleses, norte-americanos e sul-africanos) e estes nem sequer tentam aprender português, não provam sequer um prato angolano e fazem questão de manter todos os seus hábitos, não se misturam e não convivem nos mesmos locais que a maioria, são uma comunidade muito fechada. Ora eu não sou desse extremo, mas faço parte daquele grupo que você refere que nunca se desenraíza e que todos os dias regressa a casa, mas não regressei ao fim de 1 ou 2 anos, já lá vão quase 7… Curiosamente, ou não, também é raro ser tido por Português por estas bandas, sendo que já me deram uma série de nacionalidades diferentes (desde Brasileiro a Espanhol!).
      Tudo isto para lhe dizer que o tema é muito complexo, cada pessoa é um mundo que vive a emigração de forma diferente e cada país tem as suas características que obrigam a uma abordagem própria, por isso as generalizações são muito vagas e sem grande sentido.

    2. A questão das bolhas é de facto importante, mas creio ser mais notória em dois grupos: emigrantes mais velhos que nunca se integraram muito; e jovens profissionais que no início da sua experiência de emigrantes ainda se sentem como que em Erasmus. Isto é mais notório em pessoas que estejam a fazer doutoramentos, uma vez que a atmosfera de uma cidade com universidade a isso convida.

      Outro aspecto importante que refere é o calão da língua do país de acolhimento. Não necessariamente para se entender o que é dito (claro que é importante) mas porque um bom termo em calão, correctamente usado, muda a atitude de muitas pessoas perante o emigrante.

      1. Respondendo a ambos:
        Tem razao ao dizer que as minhas consideracoes nao sao universalmente generalizaveis. Em jeito de defesa relembro que o grosso do texto e precedido pelo aviso de que eram pensamentos em voz alta. Nao era objectivo sistematizar a coisa toda.
        Dito isto entao clarifico. A minha experiencia esta circunscrita a Europa. Ora a emigracao para a Europa, ou para paises mais desenvolvidos que Portugal e necessariamente diferente da emigracao para paises menos desenvolvidos. Ai, penso que, sem ter qualquer tipo de conhecimento no terreno friso, o fenomeno emigratorio e muito diferente. Ai geralmente, e especialmente estas ultimas vagas emigratorias, especialmente patrocinadas por multinacionais ligadas a exploracao de recursos naturais ou da exploracao de partes muito especificas da economia desses paises sao fenomenos de neo-colonialismo. Vai-se para la sim, mas a multinacional tratou de primeiro cravar no territorio uma parcela para si propria e seus funcionarios. Assim sendo eu argumentaria que efectivamente conseguiram criar um posto de comercio mas e uma incrustacao dentro do territorio deles. Quem para ai vai emigra sim senhor mas nao para Angola, ou Mocambique, ou Chad, ou Argelia, ou Bolivia, Dubai etc… emigra isso sim para a colonia da multinacional. Se a multinacional for anglo-saxonica esta a emigrar, “de facto”, para uma colonia ango-saxonica.
        Assim sendo concluo lancando a especulacao de que a sua longa estadia em Luanda acaba por resultar nao de uma integracao em Angola, correcto mas se calhar pouco relevante. Resulta isso sim de uma integracao bem sucedida na terra de acolhimento relevante: a colonia criada pela(s) multinacionais.
        Potencialmente polemico e talvez nao inteiramente correcto… mas como dizia Keynes, antes mais ou menos certo que rigorosamente errado. Hm?

        Joao Andre, aqui falando de um contexto inteiramente europeu. Aqui creio que tem razao, o meu raciocinio nao incorpora adequadamente os exemplos das comunidades que conseguem ganhar massa critica suficiente para criar “bolhas” ou melhor, chamemos as coisas pelos seus nomes: ghetos. Estes serao sustentaveis para alem do curto-prazo de 1 ou 2 anos mas no longo prazo, a historia vai mostrando as dificuldades que representam.

        1. Eu quis evitar o termo ghetto porque me evoca as bidonvilles dos anos 50 e 60. Eu quis falar mais das gerações recentes, que apesar de viverem dentro de uma determinada bolha, não estão assim tão ghettizadas. Os ghettos modernos são diferentes, muitas vezes inter-culturais, apenas não absorvem muito (nem são absorvidos por) a sociedade em redor.

  12. Também me reconheço neste texto, principalmente, quando diz: “Actualmente aquilo que me falta é o sentimento de pertença. Não me sinto como pertencendo a lado nenhum”. Depois de 21 anos na Alemanha, com marido alemão e com pouco contacto com portugueses que aqui vivem (já tive mais, quando dei aulas a crianças portuguesas), sinto-me bastante desenraizada, quando vou a Portugal. Apesar de muitas coisas permanecerem, na verdade, o país já não é o mesmo do daquele longínquo ano de 1992, em que vim para aqui, sem emprego e sem nada, para o que e rescindi o meu contrato na RDP/Norte, onde trabalhei durante cinco anos, apenas porque casei com um alemão (que, à altura, também não tinha emprego, pois acabara de tirar o curso). Enfim, nunca passámos fome 😉 e, hoje em dia, podemos dizer que “estamos bem na vida”.
    Mas voltando à questão da “desenraizada”: é difícil, quando não impossível, penetrar em conversas sobre temas, séries, programas de televisão, artistas e músicas de que nunca ouvi falar. A própria família, apesar de se alegrar com a minha vinda, não consegue disfarçar uma certa distância (ou sou eu que me distanciei, não sei). Para piorar isto tudo, também não há um local a que possa chamar a minha terra natal. Nasci num sítio, vivi noutro, até sair daí, com 27 anos, e os meus pais, depois de se reformarem, também já mudaram duas vezes de casa (e de localidade)!

    Quanto à questão da “bolha”, de que já se falou aqui: conheço, apenas, o caso da cidade de Hamburgo, onde há autênticas “bolhas” de portugueses. As duas gerações mais recentes estão mais integradas, até porque a maior parte nasceu aqui, onde estudou. Mas mesmo entre esses, é raríssimo, por exemplo, haver pares mistos, quase todos os portugueses escolhem portugueses como parceiros para a vida. Entre os mais antigos, que emigraram nos anos 60/70, há gente que mal sabe falar alemão, portanto, nunca chegou a integrar-se, apesar de ter trabalhado aqui durante décadas. Sonharam regressar a Portugal, quando se reformassem, mas não o fazem, porque os filhos e os netos se estabeleceram aqui. Também noto mais tendência para formar a “bolha” (e, com isto, não estou a diminuir ninguém, apenas a constatar) em pessoas com menos formação académica.

    Desta nova “leva” de emigrantes, que saíram do país nos últimos anos, não posso falar, pois ainda não contactei com ninguém nessas circunstâncias.

    1. A bolha “académica” é de facto um ponto interessante. Não é uma questão de snobismo, mas é natural que as pessoas com mais educação procurem pessoas com interesses e experiências semelhantes. Isso faz com que os novos emigrantes enjeitem as comunidades portuguesas que há anos que estão no país (é o meu caso). Isto traz algumas desvantagens uma vez que, mesmo não sabendo muito a língua e não se integrando na sociedade, os emigrantes antigos conhecem habitualmente muitos “truques” (chamemos-lhe assim) que escapam aos locais porque têm um estilo diferente de vida.

      1. É verdade, João André, eu também “enjeito as comunidades portuguesas”. No início, quando ainda me sentia muito solitária, sem portugueses à minha volta, ainda fui a algumas iniciativas e espetáculos das comunidades portuguesas. O contacto com outros portugueses não deixava de ser gratificante, mas eu, quando estou em Portugal, também não vou a espetáculos que intitulamos de “pimba”, com aqueles artistas que se conhecem do meio. Aqui, confesso que tem outro charme, mas cansa (e bem depressa).
        Enfim, não tem a ver com snobismo, como o João André diz. Em todo o lado, se procuram pessoas com interesses comuns.

        Nos últimos anos, a internet permite-nos ter estes simpáticos contactos 😉

        1. Exacto, as sardinhas podem ser muito saborosas, mas confesso que as músicas que vão passando me tiram um pouco o apetite :).

          É verdade, valham estes contactos blogosféricos. Não é o mesmo, mas vai ajudando.

    2. “Mas voltando à questão da “desenraizada”: é difícil, quando não impossível, penetrar em conversas sobre temas, séries, programas de televisão, artistas e músicas de que nunca ouvi falar.”

      Sim. E a ausencia do convivio do dia-a-dia.
      Na minha experiencia isso melhora com estadias mais longas ou com estadias em Portugal imediatamente seguidas de estadias deles por ca. Infelizmente nem todos podem fazer isto. E preciso tempo para se comecar a criar um embriao de convivialidade.

  13. Lisbon revisited (1926)

    «Nada me prende a nada.
    Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
    Anseio com uma angústia de fome de carne
    O que não sei que seja –
    Definidamente pelo indefinido…
    Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
    De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

    Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
    Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
    Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

    Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
    Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
    Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
    Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

    Compreendo a intervalos desconexos;
    Escrevo por lapsos de cansaço;
    E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
    Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
    Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
    ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

    Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…
    E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
    Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
    (E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
    Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
    Onde supus o meu ser,
    Fogem desmantelados, últimos restos
    Da ilusão final,
    Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
    As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

    Outra vez te revejo,
    Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida…
    Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

    Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
    E aqui tornei a voltar, e a voltar.
    E aqui de novo tornei a voltar?
    Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
    Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
    Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

    Outra vez te revejo,
    Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

    Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,
    Transeunte inútil de ti e de mim,
    Estrangeiro aqui como em toda a parte,
    Casual na vida como na alma,
    Fantasma a errar em salas de recordações,
    Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
    No castelo maldito de ter que viver…

    Outra vez te revejo,
    Sombra que passa através das sombras, e brilha
    Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
    E entra na noite como um rastro de barco se perde
    Na água que deixa de se ouvir…

    Outra vez te revejo,
    Mas, ai, a mim não me revejo!
    Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
    E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –
    Um bocado de ti e de mim!…»

    Álvaro de Campos

    O «post» e os comentários lembraram-me Álvaro de Campos.
    Sou emigrante no meu próprio país. Hoje vivo em Lisboa, afastado quase 400km do meu berço. Nunca vivi e senti a tua experiência, não dessa forma. Não vou tocar nela, mas deixem que vos diga aquilo que Pessoa me ensinou: a Língua é a minha Pátria. Fará sempre parte da nossa identidade, por muito que ela germine a olhos distantes. «Somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram/Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória/Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?». Abraço!

    1. Sim, é verdade, a língua acaba por ir sendo a minha pátria. Ao contrário do que se diz, a palavra saudade tem traduções, mas nenhuma delas evoca exactamente os mesmos sentimentos que a portuguesa, porque essas outras palavras não são portuguesas. A língua é a minha pátrias porque expressa da forma mais exacta que eu consigo os meus sentimentos. Não sou um português de sangue, mas de língua.

      E todos os pretextos são bons para ler Álvaro de Campos.

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