«Foi em 1943 que estive em Ferreira do Zêzere. E nunca lá voltei.
Cheguei depois da meia-noite, com os meus colegas, numa galera (carroça de quatro rodas puxada por mulas, como os wagons da conquista do Far-West).
Quando estávamos ainda a tentar dormir mais um pouco, deitados no chão duma sala do teatrinho, já alguns aldeãos conduziam cavalos e mulas à trela na direcção da praça principal de Ferreira do Zêzere, onde estacionariam à nossa espera.
Éramos quinze talvez, vindos de Leiria, de comboio até Tomar e depois na galera. Alunos dum curso de sargentos milicianos, acompanhados por um oficial miliciano e pelo veterinário do quartel.
Estávamos talvez no mês de Outubro, com a farda do exército desde Agosto desse ano.
Constava que Hitler decidira ocupar a Espanha e Portugal. Seria recebido condignamente, aqui, mas no quartel de artilharia ligeira de Leiria não havia cavalos e mulas que chegassem. Só para cada canhão eram necessárias seis mulas.
Ao entrarmos de manhã na praça principal de Ferreira do Zêzere (armados apenas com uma pistola presa no cinturão e sem balas), aquilo parecia uma feira.
À hora do almoço o veterinário tinha concluído a selecção dos animais requisitados. A organização havia sido primorosa. As famílias mais abastadas dariam almoço a um ou a dois milicianos. Eu fui levado a uma casa senhorial. Almocei no primeiro andar, sozinho, numa varanda das traseiras, muito ampla e com cobertura. Tinha uma vista linda para campos cultivados e arvoredo distante, e havia nessa varanda uma colmeia. Ouviam-se risos abafados das criadas, que apareciam e desapareciam rapidamente. Eu evitava gestos bruscos para não espantar as abelhas e fingia que não via as criadas.
Das estupendas sardinhas assadas, com batatas cozidas e salada de pimentos, pediu desculpa a dona da casa, dizendo não sei o quê. Não confessei que um banho e roupa lavada eram as coisas que mais me apeteciam.
Comi tranquilamente. Agradava-me a proximidade de tanta vegetação. Destacava-se uma horta bem tratada que vinha de longe abeirar-se da varanda.
Já não pensava na sala do teatrinho onde tentáramos dormir e onde encontrámos a poeira no ar e o cheiro a corpos suados, do baile concluído pouco antes.
Numa rua por onde se sai da praça principal, logo ao princípio, se bem me recordo as casas do lado esquerdo estão um pouco recuadas. Numa delas talvez alguém confirme que na varanda das traseiras, no primeiro andar, em tempos houve uma colmeia.
Entretanto, depois do almoço estávamos prontos para partir. Cada um montaria um cavalo ou uma mula e levaria pela arreata à sua direita dois outros animais.
Avançaríamos a passo pelas estradas, cavalgando de manta e cilha (sem selim, os pés a baloiçar), em coluna de três animais de frente. Percorreríamos assim nessa tarde 20 km até Tomar, e no dia seguinte 40 km até Leiria – onde chegaríamos já pela noite dentro, em plena escuridão.
—
Para quem é sentimental tenho aqui um segredo.
Eu sabia que os cavalos gostam de açúcar. Parti de Leiria com uma algibeira cheia de rebuçados. E ao entrar na posse da mula que cobicei dei-lhe um rebuçado. Gostou. Dei-lhe outro.
O homem que a tinha trazido estava parado e calado a olhar. Finalmente falou. Diria ao dono da mula que não estivesse triste, os animais seriam bem tratados, até lhes davam rebuçados.
Pouco depois acrescentou, em tom confidencial, que o dono da mula não tinha querido vir, pedira-lhe a ele que viesse. Tinha ficado em casa a chorar.»
Do nosso leitor Fernando Marques Pinheiro. A propósito deste meu texto.
Imagem retirada daqui.


Excelente.
Um privilégio, ouvir estas histórias!
Eu tenho a certeza que teriam dado conta do recado, caso Hitler tivesse passado a fronteira: as mulas e os milicianos.
Um excelente documento, este comentário.
Enquanto alguns dos nossos políticos estão a banhos no Algarve, estes voluntários tentam salvar o que “resta das nossas riquezas naturais” para que não sejam delapidadas.
Estes homens e mulheres não vão de férias para a Coelha ou para Manta Rota.
Não têm dinheiro e tempo!
São voluntários!
E mais 10% nas reformas, nem subvenções vitalícias!
E os que morrem fazendo voluntariado?
As moscas em Armação de Pêra ou o Tony em Olhão são mais importantes?
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id _news=649881
Graças às mulas de Ferreira de Zêzere o basofão do Hiltler cortou-as….
Hoje, com tantas mulas e cavalos não conseguimos dar temor a um (a) hitler de saias… !!!
Pelos vistos agora é se um Hitler por não querer dar ainda mais dinheiro do que aquele que já dão em subsidios. Só nos dás subsídios és um Hitler!