Por motivos que não vêm agora ao caso, nos últimos tempos tenho andado próximo de Éris. Ora conta-se que, sendo a deusa da discórdia, Éris não foi convidada para as bodas de Peleu e Tétis. Nem por isso, porém, deixou de comparecer (uma deusa é uma deusa, que diabo); e, por despeito, deixou lá uma maçã de ouro com a inscrição “à mais bela”. Acontece que Hera, Atena e Afrodite tinham sido convidadas – e cada uma reclamou logo para si a maçã dourada. Zeus, não querendo envolver-se na discussão entre as deusas (não era parvo) mas tendo de resolver o impasse de alguma forma, passou a batata quente – ou a maçã quente, se quisermos manter a metáfora mitológica – para Páris. As deusas, como é evidente, não deram parte de fracas, e cada uma tentou subornar o desgraçado do Páris de acordo com os seus dotes: Hera ofereceu poder político; Atena, proezas marciais; e Afrodite, a mulher mais bela do mundo (Helena, que por acaso até era casada). Páris deu a maçã a Afrodite, e o resto – a Guerra de Tróia – é história.
Há aqui alguns paralelismos com a nossa crises política recente (ainda que, em bom rigor, nenhum dos nossos governantes, aspirantes ou figurantes faça juz às figuras mitológicas da Grécia Antiga). Vejamos: Cavaco Silva, que não gostou de não ser convidado para as bodas políticas de Passos Coelho e Paulo Portas, puxou de uma maçã do Oeste (a troika não permite maçãs de ouro) e, na falta de um Páris para queimar no processo, atirou-a para Coelho, Portas e Seguro, dizendo: entendam-se! E zarpou para as Selvagens (pobres cagarras). Como seria de esperar, não se chegou a acordo algum, e regressado Cavaco das Selvagens (felizes cagarras), caiu-lhe a maçã de novo nas mãos. Uma vez mais, Páris sumiu-se (haja alguém que aprenda com os erros), e Cavaco lá teve de se engasgar com o raio da maçã: a solução que há umas semanas não servia afinal já serve, segue o mandato do Governo e nada de eleições para 2014 como se tinha dito antes. Se isto não parece aquela história mitológica em formato revista à portuguesa de quinta categoria, não sei o que parecerá.
E agora regresso para a ficção científica, para a banda desenhada japonesa, para os jogos de tabuleiro e de computador e para os blockbusters de Verão, infinitamente mais interessantes do que a política doméstica (pelo menos as personagens são melhores).
