O desacordo de perdição nacional.


Luís Menezes Leitão,

 

Sempre me pareceu que este desfecho era inevitável. É por isso óbvio que os partidos fizeram uma triste figura em aceitar a imposição do presidente para uma reunião tripartida, na qual acho que nem sequer ele acreditava. Na verdade, parece-me que tudo isto não passou de uma encenação para Cavaco demonstrar que não assinava de cruz a proposta de remodelação do Governo.

 

Como bem foi salientado por inúmeros militantes, o PS não podia aceitar agora dar a mão ao governo, a não ser que a sua direcção se quisesse suicidar. Ao contrário do que Soares afirmou, nunca esteve em causa uma cisão no PS, mas apenas a defenestração de Seguro, inevitável se este subscrevesse o acordo. A saída de inúmeros deputados depois da votação da moção de censura foi aliás um recado claro sobre o que se iria passar a seguir.

 

O PSD e o CDS também não podiam aceitar o presente envenenado que Cavaco queria dar a Seguro de marcar eleições no prazo de um ano. Efectivamente, nessas condições ninguém quereria ir para o Governo, nem o Governo teria coragem de fazer as reformas absolutamente necessárias e que já há muito deveriam ter sido feitas. Acresce que, se houvesse acordo, daqui a um ano seria provavelmente António Costa quem lideraria o PS, combatendo sem quartel os partidos da maioria a partir de Lisboa.

 

É por isso que um acordo entre os três maiores partidos seria sempre impossível, pelo menos nos termos que Cavaco queria. Os três partidos, no entanto, não quiseram ficar mal na fotografia e envolveram-se nestes últimos dias num verdadeiro jogo de sombras, simulando uma negociação que já se sabia que não iria dar em nada, apenas para tentar atirar para o outro as culpas do fracasso.

 

Custa-me ver, no entanto, o Presidente e os partidos a fazerem os eleitores de parvos. Nunca o Presidente deveria ter proposto semelhante aberração política e, se o tivesse efeito, os partidos deveriam tê-la liminarmente rejeitado. E não é por se chamar de salvação nacional que este compromisso mereceria a mínima credibilidade. A seguir ao 25 de Abril também se constituiu uma Junta de Salvação Nacional. A mesma foi logo substituída por um Conselho da Revolução que mergulhou o país no PREC.

2 comentários em “O desacordo de perdição nacional.”

  1. EM 3 TEMPOS E ENCHER PNEUS

    1º Tempo – Que não saia como piada de mau gosto mas isto faz-me lembrar a bombeiral da moda do Raul Solnado. Como é que os incendiários se organizam em corpo de salvação? O Tozé no meu disto tudo lá anda junto dos crescidos com um balde de praia entornado na areia a tropeçar nos próprios pés.

    18 DE JULHO DE 2013 ÀS 12:15

    2º Tempo -Temo bem que se trate de um teste decisivo ao que tem sido a sua falta de liderança. Tenho para mim que a reboque ou ao empurrão ele anda a ser dirigido por gatilho armado. Ou segues as instruções ou sais, até parece que é a senha.

    19 de Julho de 2013 às 08:50

    3º Tempo – Aposto na osga que aí vem. Por isso avanço com a solução de Belém perante o desacordo partidário para a salvação. O Snr . Presidente vai acatar a remodelação proposta pelo governo e siga a marcha sem eleições. Rais parta a osga.

    19.07.2013 às 18:22

    Pneumáticos – Jogo do rato
    Parecem rapazinhos nas construções lego.
    2013-07-19 09:05

  2. Much ado about nothing. Politiquice oriunda de Belém. Era necessário este espectáculo patético, que pôs o país em suspenso para afinal dar em nada? Não é necessário este estardalhaço todo para que os três partidos tenham um mínimo de coordenação no sentido de que a política económica e financeira tenha alguma continuidade, independentemente do(s) partido(s) que estejam no governo, sem que tenha de haver todo este dramatismo e que os partidos tenham de se rebaixar. Esqueçam o formato e a iniciativa cavaquista, que visava apenas pôr o Cavaco na ribalta e lixar o sistema político, que de resto, é um espelho do país. Se a classe política é impreparada e pouco produtiva, a generalidade dos portugueses também o são. Por isso é pura demagogia pôr todas as culpas pelo estado do país no sistema político e nos partidos, porque os portugueses votaram nisto. E se hoje os partidos não se entendem é porque os portugueses também não. Onde é que há o tal consenso em Portugal quanto à “troika”? Isso sempre foi uma ficção.

    Mais importante do que porem-se de acordo quanto aos credores, era saber como relançar a economia para que o país seja viável. E quanto a isto basta só recordar duas notícias que saíram recentemente que ilustram bem o que é o contexto português. A primeira referia que 45% dos portugueses seriam pobres se não tivessem apoios do Estado, a outra prende-se com os resultados catastróficos no exame de português (não tenho dúvidas que o novo acordo ortográfico contribuiu para a degradação dos resultados). Portugal tem uma enorme percentagem da população sem qualificações, logo com baixos rendimentos, que depende das ajudas do Estado para ter um mínimo de subsistência. Mas ao mesmo tempo está em risco de continuar com este padrão de baixas qualificações e dependência, como o demonstram os resultados de exames. Por outro lado, dado ter poucas vantagens comparativas e a população economicamente mais dinâmica ser muito reduzida, Portugal não tem economia para suportar os encargos sociais que a grande massa de excluídos implica. Este é um problema português, é uma crise portuguesa específica que vai para além da crise financeira europeia, mas que é agravada por esta. É nesta tensão que reside a divisão de fundo entre o PS e PSD.

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