Em criança viajava imenso, pensou molemente enquanto perturbava o sono do gato com a ponta do lápis. Sempre sozinha no meio de adultos, que remédio tinha senão voar para longe. O torpor da canícula, o zumbido das moscas, as conversas aborrecidas dos crescidos, empurravam-na docemente até às copas das árvores quando se deitava no chão de papo para o ar. Daí partia para o seu mundo.
A pata traseira do gato estremeceu. Apeteceu-lhe acordá-lo mas não que ficasse acordado, a exigir-lhe atenção. Suspendeu a tortura e ficou a vê-lo suspirar sonhos de gatinho. Reparou então na pilha de roupa, no monte de jornais e na desordem geral, tão inquisitiva. Não. Mesmo sem dinheiro iria de férias.
Soergueu-se frente ao espelho. Parecia uma daquelas mulheres da Paula Rego. Grandes e desafiadoras. O pensamento deu-lhe a energia que lhe faltava. Levantou-se, tomou duche, vestiu-se com a roupa que escolhia quando saía em viagem, pôs na mochila duas maçãs, uma garrafa de água e um chapéu. Sairia. Escolheu um livro e bateu com a porta.
Quando chegou do Haiti com Brown sentia-se cansada. Atirou-se para o sofá e adormeceu instantaneamente. No sonho ele tinha as feições do italiano que conhecera há dois anos em Praga.


Excelente romance, Teresa. Um dos livros da minha vida.
Não admira que a rapariga tivesse colocado duas maçãs na mochila. É com elas que atrai os Adãos.