É costume ouvir e ler queixumes sobre o estado actual do ensino em Portugal, críticas aos modelos pedagógicos, aos currículos, ao ordenamento estatal (ministerial), aos paradigmas vigentes (o celebrado “eduquês”). Tudo isso, diz-se, que implica um défice das capacidades dos cidadãos. Não vou discordar, ignorante que sou das múltiplas dimensões da(s) problemática(s). Mas ocorre-me, talvez mais do que nunca, que a hipotética existência desse problema assume uma dimensão histórica, o “tempo longo”, pois será uma questão de décadas, no mínimo. Deduzo isso pela constatação da generalizada iliteracia. Detecto-a agora, nestes últimos dias, na quantidade de textos vistos in-blog, in-facebook, nos sítios electrónicos dos jornais, nas tvs, em que os seus autores [gente entre os 30 e os 60 e muitos, na maioria licenciados e todos, visivelmente, com um mínimo de frequência do ensino secundário] afirmam, sonora e arreigadamente, que não são capazes de compreender a reduzida complexidade deste texto.
Não se tratará de um défice de habilidades hermenêuticas, também elas disponibilizadas pelo sistema de educação. É mesmo uma questão de iliteracia, a um nível ainda mais básico. Que remete a tal crise para décadas bem anteriores, quando esta mole agora locutora frequentou os vários níveis do ensino nacional.
Mas há um outro registo, muito positivo. Esse lamento público (potenciado agora pela avalanche da palavra pública, via redes sociais e massificação da comunicação social) denota, vigorosamente, que as pessoas já não têm vergonha de publicitarem a sua ignorância, a sua incapacidade. Assim demonstrando que a percebem já não como uma natureza (até vergonhosa, num quadro de valores culpabilizador) mas sim como um estado transitório, algo a ultrapassar. Uma extrema e saudável mutação cultural, laica, democrática. E que convoca o sistema de educação nacional a acudir a tantos excluídos, apesar dos títulos académicos e conclusões “liceais”, de uma corriqueira utilização da língua portuguesa.
A realfabetização de adultos impõe-se. Haja recursos para tal.


Não percebo este seu texto, confesso.
Não me apressaria a distinguir a hermenêutica da iliteracia, porque é algo que se confunde, tal como pode confundir a própria hermenêutica na expressão popular – porque também a há.
Um sujeito pode manifestar o seu alheamento por razões diversas, nem sempre evidentes.
É frequente ter pessoas “simples” a fazerem-se “passar por parvos”, apenas para suscitar maior informação do outro, ao mesmo tempo que analisam as variações do discurso explicativo.
De qualquer forma, o JPT teria grande dificuldade em alimentar a compreensão por via escolar, porque a incompreensão tem a sua principal origem nos meandros da literacia dos papagaios.
Por isso, acaba por ser tão problemática a iliteracia, quanto ineficaz a literacia com alterada hermenêutica… porque, por definição, a hermenêutica só Hermes a sabe decifrar.
Ora, Hermes teve o cuidado de deixar o discurso suficientemente fluido para a ambiguidade, mas também para a verdade… cada qual pode servir-se da verdade que lhe interessa, sendo certo que isso levará a um embate com uma única verdade, a do referencial, Hermes.
Porquê?
Porque Hermes é o menino da mamã.
1. Tem toda a razão em não distinguir em absoluto “iliteracia” de “hermenêutica”. Tentei, num texto deste quilate, apartá-las explicitando que remetia a iliteracia para “um nível mais básico”. A distinção valerá o que vale mas julgo ser aceitável para um contexto destes, nada ensaístico. [E não me vou por aqui a esmiuçar o que é “hermenêutica” para além das habilidades interpretativas, obviamente convocadas na leitura de um mero rótulo da garrafa de azeite ou água mineral].
2. Tem toda a razão quando convoca a dimensão estratégica dos discursos, o “fazer-se de parvo” como refere, para convocar (“picar”) os contra-argumentistas. Acontece que neste caso vi (li e ouvi) tantos a fazerem-se de parvos da mesma maneira que só me pode ocorrer que sejam incapazes. Ou seja, iletrados ou mesmo parvos. Fica a opção em aberto, eu optei pela versão mais simpática (a iliteracia ultrapassa-se, a pavoíce vive-se).
3. Hermes como menino da mamã? Não deixa de ser bem visto. Curiosa … interpretação