Os salvadores da pátria


Pedro Correia,

 

Em tempos de turbulência política aparecem sempre os mesmos a defender um executivo de salvação nacional, dando ênfase a estas duas palavras, como se produzissem efeitos mágicos. São poucos, mas parecem muitos porque falam imenso nas televisões – noite após noite. Sugerindo que é uma maçada ir a votos, que a Europa vê isso com maus olhos, que dá despesa, que o resultado é incerto.
Já vi este filme. E não gosto dele.

De génios em abstracto está a política portuguesa mais que cheia. Grande parte deles já “salvou” o País. A falar. Escuto um desses enquanto escrevo estas linhas.

O Governo – todos os governos – deve sair do voto livre dos portugueses, não de arranjos palacianos. E deve congregar um apoio parlamentar claro, sem depender da tutela majestática do Chefe do Estado.

Quem queira governar o País terá de cumprir algumas formalidades, eventualmente maçadoras. Candidatar-se. Ganhar o partido. Concorrer a eleições. Ganhar as eleições. Formar governo a partir dessas eleições.

Claro que é muito mais fácil alcançar isto nos debates televisivos do que na vida real. Mas o tempo em que o salvador da pátria chegava a Lisboa montado num cavalo branco já passou.

Imagem: desfile das tropas de Sidónio Pais em Lisboa (1918)

4 comentários em “Os salvadores da pátria”

  1. A ver se eu entendi bem este dito governo de salvação nacional.
    Fiquei com a sensação que Cavaco Silva quer dar continuidade ao modelo de gestão política que se subordina às ditaduras de mercado, e que tanto têm vigorado nesta Europa e em particular em Portugal. Isto certamente deverá ter surpreendido tudo e todos, inclusivamente Angela Merkel.
    Se é certo que esta é a política que vemos sancionada um pouco por este mundo, não menos certo é que quem a sanciona gosta de dar aquele arzinho de poder, fazendo crer que as políticas são determinadas por eles. Nisto Cavaco Silva lixou e bem lixado o protagonismo de Angela Merkel e de seus mordomos, em particular os mordomos dos países intervencionados. Ela deve estar a fumegar, assim como Barroso, o mordomo de Merkozy. Impensável, dirão eles: este indíviduo, que até nem tem exército capaz, acabou por dar um xeque ao rei adversário com um simples roque. Afinal nós que queriamos parecer que ditávamos as políticas europeias ficámos sem qualquer margem de manobra porque ele acaba por fazer uma associação formal com aqueles que nos governam.
    Chegados aqui, dissertemos concretamente sobre isto: o que Cavaco propôs não é nada mais nada mesmo que a estrutura da voz de um lobby interno constituído por banqueiros, para-banqueiros, alguns empresários que vivem de crédito e pouca imaginação, e também de alguns comentadores afectos particularmente ao PSD e CDS, candidamente falando.
    Para compreender isto é necessário saber em concreto o volume de créditos, em particular os montantes de títulos de dívida, que constam na carteira do sistema bancário nacional, e não só os valores que temos que garantir antecipadamente e pagar em 2014 e 2015.
    O que Cavaco pretendeu dizer foi que qualquer política que vise a renegociação da dívida e do défice é mal vinda. Assim, um governo de iniciativa presidencial retirará toda e qualquer possibilidade de se fazer política sériamente nos próximos 10 anos.
    A democracia é um exercício de responsabilidade que exige a todos os protagonistas uma feroz imaginação no sentido de se ultrapassarem as dificuldades sem que se ponha em causa a sua existência.
    Fiquei com a sensação que Cavaco quis dizer que quer políticos quer parceiros sociais (entenda-se por parceiros sociais aqueles que constam nesta lista, o cidadão não é parceiro de nada) perderam a capacidade de imaginar, inovar e progredir.
    As forças vivas da nação estão condenadas a uma morte lenta se não tomarem em si o rumo da nação.
    Por último,
    Assisti pela TV com alguma expectativa à celebração da missa do novo patriarca de Lisboa, Manuel Clemente (perdoem-me não fazer uso do Dom, mas isto tem de começar a mudar por onde é dever mudar), e assisti também à entrevista realizada pela mesma estação. Fiquei surpreendido que alguém que em nome de Deus busca a unidade não tenha no mínimo tentado fazer representar-se nessa missa os diversos líderes partidários (saiba-se que o cristianismo também existe nas fronteiras do PS, PCP e BE, talvez mais que noutros partidos. Não, não faço campanha por ninguém, sou livre), e notei também que a solução que Cavaco nos apresenta já estava esboçada nessa entrevista. Ora, como católico que sou, sabendo que a igreja portuguesa se encontra aprisionada e confinada numa pequena elite de iluminados vindos de partidos que revelam muito pouco a face do cristianismo, deixo aqui uma mensagem a Manuel Clemente:
    Faça-se ao largo e lance as redes noutra direcção. Foi isto mesmo que Jesus aconselhou quando seus discípulos se apresentaram diante d´Ele de mãos vazias perante uma pescaria plena de insucesso.
    Senhor patriarca, a linguagem cristã, assim como a atitude, faz-se olhos nos olhos, coração a coração, e não impregnada de uma pseudo-intelectualidade. A atitude cristã é transcendente, espiritual, e não mundana. A igreja portuguesa deixe-se de armar aos intelectualismos.

      1. Obrigado, Pedro. Não obstante o desapontamente, foi o coração e a razão que escreveu este comentário. Note bem o que lhe vou dizer: ainda assistiremos ao surgimento de uma teologia da libertação na Europa Ocidental, mas esta bem mais teológica que qualquer outra teologia de libertação, isto é, bem mais livre.
        Espero que esteja a gostar da encíclica “Lumen Fidei”.
        Abraço

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