A estranha surpresa


escafandro,

O texto que Helena Sacadura Cabral colocou no Delito há três dias pertence a uma categoria de textos que me confunde não pela informação apresentada, não pelas conclusões a que esta permite chegar, mas pela estranheza que os autores parecem revelar (e muitos leitores partilhar) perante uma e outras. É evidente que os governos alemão e francês quiseram dar tempo aos seus bancos para estes minimizarem a exposição à dívida dos países periféricos e, em particular, à dívida grega. Antes de qualquer outra, era obrigação dos governos alemão e francês protegerem as suas instituições, as suas economias, os seus cidadãos. Pode discutir-se se escolheram o modo mais eficaz de o fazer (os alemães, que são quem tem de avaliar a acção de Merkel, parecem achar que sim; há um ano, os franceses, que eram quem tinha de avaliar a acção de Sarkozy, pareceram achar que não e hoje parecem não saber o que pensar) mas é absurdo estranhar que tenham agido com tal motivação. Nenhum líder nacional, ainda que dentro de uma «união» de países «amigos» como a União Europeia, deverá defender os interesses de outras nações, expressos directamente ou por interpostas entidades, a não ser que coincidam com os interesses da sua própria.(*) Mais absurdo do que achar ilógico ou criminoso que Merkel tenha subalternizado os interesses dos gregos aos interesses dos alemães, só mesmo fazê-lo logo após recordar-lhe que não foi eleita pelos primeiros.

 

Assente este ponto, poder-se-á discutir se a reacção dos vários governos foi (é) a que melhor serviu (serve) os interesses das respectivas populações. E aqui, sim, há ampla margem para debate, discordância e estranheza. Por exemplo: teria um default grego, com subsequente colapso dos bancos alemães e franceses e quase inevitável desmembramento do euro, sido melhor para a Grécia? Ou: teria sido melhor para Portugal recusar o plano da Troika, anunciar um default que atingiria essencialmente instituições nacionais e acabar fora do euro? Ou ainda: é hoje do interesse da Alemanha avançar com as medidas de estabilização de mercados (a união bancária, os eurobonds) e de estímulo ao crescimento económico? Mas debatamos conscientes de que, por mais instituições e burocratas que amontoemos em Bruxelas, com esse pudim flan designado «Comissão Europeia» à cabeça, a União Europeia não é uma federação. (E ainda que fosse: há diferenças de rendimento gritantes entre estados de federações e até a reunificação alemã, processo interno de um único país, esteve longe de ser rápida ou indolor.) Debatamos conscientes de que o conceito de solidariedade faz pouco sentido, uma vez que a solidariedade ou é voluntária ou não é solidariedade; nenhum governo (como nenhum povo) pode forçar outros à solidariedade. Pensemos em termos de interesses. Os nossos. Os dos gregos. Os dos alemães. Os comuns. Tudo fará mais sentido, muitas desilusões serão evitadas e quiçá a economia até passe a funcionar melhor.

 


(*) É por isto que a «narrativa» que por aí corre tentando sacudir a responsabilidade da bancarrota portuguesa para os ombros da Comissão Europeia, devido às opções que esta defendeu na sequência da crise financeira de 2008, não convence: o governo português (como o grego, como o espanhol, como até o italiano e o francês) deveria ter percebido não possuir margem para fazer disparar défice e dívida; deveria ter percebido que era mantendo-os em valores razoáveis que melhor servia os interesses dos portugueses. O governo português (como o grego, como o espanhol, como até o italiano e o francês) seguiu entusiasticamente a opinião da Comissão Europeia porque era um mau governo, actuando num mundo onírico onde as fontes de dinheiro nunca secariam.

12 comentários em “A estranha surpresa”

  1. Solidariedade é emocionalismo para justificar querer o dinheiro dos outros e no nosso caso vai muito além disso: é querer ainda mais dinheiro dos outros.

    É só para isso que serve o chavão.

  2. O muito marxista “Le monde” conserva o velho hábito dos intelectuais de esquerda: explicar o mundo ao vulgo.
    Geralmente, a “verdadeira” e “última” explicação compõe-se de motivos “sórdidos”, impostos pelos interesses do capitalismo (o termo cunhado por Marx, que usam para significar “economia”).
    A sordidez consiste, a maior parte das vezes, em políticas e actos sensatos que – a táctica é conhecida e velhinha – são apontados como essencialmente perversos, na melhor tradição da grande escola de desinformação leste europeia de outrora.
    O drama é que, em Portugal, a classe política, parentes e aderentes ainda lê o Le Monde – para se informarem…

  3. Uma coisa era Portugal recusar o plano da Troika, outra era afirmar que não só era o seu programa como se devia ir “além da troika”.
    Se o plano pretendia entre outras coisas proteger os credores franceses e alemães (o que é legítimo) porque foi aceite entusiasticamente por cá?
    E se foi aceite entusiasticamente como é que agora se pretende dizer que correu mal e estava mal desenhado mas foi aceite contra vontade?

    1. porque foi aceite entusiasticamente por cá?

      O plano “da troika” em grande parte não foi feito pela troika; foi feito por portugueses que já cá andavam há muito tempo e que sabiam muito bem o que queriam.

      Ou será que os senhores da troika, que nunca tinham estado em Portugal, eram capazes de, sozinhos, chegar cá e, em duas semanas, identificar todos os problemas do país e elaborar um plano detalhado com instruções sobre tudo aquilo que o governo deveria fazer?

      É claro que não eram capazes. É claro que houve alguns portugueses que os ajudaram. É claro que os senhores da troika se limitaram a apôr o seu nome ao programa elaborado por alguns portugueses, os quais sabiam muito bem ao que vinham e o que queriam.

      Portanto: o plano foi aceite entusiasticamente porque ele era bom para alguns portugueses (poderosos). Porque ele punha esses portugueses na mó de cima. Porque ele mandatava aquilo que esses portugueses há muito desejavam (mas não conseguiam impôr).

      O problema não é só portugueses contra alemães. É também, uns portugueses contra os outros.

      Por exemplo, quando o programa da troika manda flexibilizar as leis laborais, é evidente que isso é favorável para o patronato, mas desfavorável para os sindicatos. Quando o programa da troika manda acabar com as rendas antigas, é evidente que isso é bom para os senhorios, mas mau para os inquilinos.

      1. anda um pouco distraido: pergunte aos SS ingleses ou americanos, BCE, NSA e dao-lhe o numero de arvores da rua principal de PedrogaoPequeno.

  4. Ainda não há muito tempo falei com um austríaco que se manifestou, precisamente, bastante irritado por ter as suas poupanças, que ele tinha feito para a sua reforma, colocadas em bancos que ele desconfiava que as teriam andado a aplicar em países que agora não iriam devolver o dinheiro. Para ele, era claro que era preciso fazer tudo para que a Grécia (não falou explicitamente de Portugal, mas via-se que era no que ele estava a pensar) cuspisse de volta o dinheiro que gente honesta como ele lá tinha, por intermédio dos bancos, colocado.
    É evidente que o governo austríaco tem que, antes do mais, atender aos anseios destes seus cidadãos, que não têm culpa que os bancos tenham andado a fazer borrada emprestando o dinheiro a quem não deviam (isto é: a nós), e que agora querem o seu de volta.

  5. Coloquemos também numa vertente bastante prática o tema que aqui vai versado. O que a UE e os estados até agora não conseguiram comprender é que sem UE não há possibilidade de existir estados. O amadorismo das instâncias europeias e dos govrenantes europeus não podia, de certo, concluir que num mundo que se mobiliza em blocos (EUA/CANADÁ/MÈXICO, PAÍSES SUL AMERICANOS E LATINO AMERICANOS, RÚSSIA/CHINA E ALGUNS DO ORIENTE…) não haverá lugar individual para qualquer país europeu, per si, tenha a dimensão que tiver.
    Aqui chegados é-nos também fácil concluir que essa ideia que os alemães, ou gregos, ou espanhois, ou portugueses, ou italianos, ou ou ou são efectivamente a imagem de seus (des)governantes é uma ingenuidade.
    Avançando um pouco mais, dizer que os bancos, franceses, ou alemães, ou espanhois, ou italianos, ou ou ou estão salvos porque conseguiram estruturar-se face a uma derrocada na Grécia, em Portugal e ou noutra parte qualquer, é também não compreender a importância que detêm as financeiras americanas, chinesas e até mesmo russas nos mercados mundiais; mas também é não compreender a importância que o dólar tem para chineses e japoneses, como moeda de reserva, os maiores credores dos EUA, no que respeita à sua luta no sentido de impedir que os seus stocks tenham um valor abaixo daquele a que os adquiriram (aos dólares), para além de outros factores que aqui não vão versados.
    Neste sentido e neste quadro, ingénuamente se pensa que quer a França, quer a Alemanha têm poder para controlar o que quer que seja, ainda que ambos tentem.
    Ou nos unimos todos ou morremos todos!

    1. Blocos? A Suíça? Singapura? Israel? Chile? precisam de blocos?
      Blocos é tal como a da “solidariedade” e todas as outras tendências tribais.

      1. Você tem razão nas suas afirmações: na realidade Israel é uma colónia cujo corpo, dado por franceses (o seu programa nuclear), não lhe tem garantido nada, e em si mesmo não se sustenta; a Suíssa ou Suíça é uma conveniência de todos, sempre o foi; Singapura é uma cidade-estado dependente de alianças, pois a sua população é de origem chinesa, malaia e indiana com forte influência também das economias do Sudeste Asiático; o Chile, que só agora começa a dar um ar de sua graça, está na mesma situação que todos os outros páises latino e sul-americanos que não citou. Quer convencer alguém que, no contexto em que produzi minhas afirmações, alguma país europeu, per si, sobreviverá sem união? Só os doidos que governam esta europa é que poderão pensar assim, há muitos por aí.
        A “solidariedade” e outras tendências tribais são a expressão máxima de nossa miséria. Quando começarmos a governar com cabeça compreenderemos que fazemos somente o que devemos. A solidariedade é um frete; falemos antes sobre a dívida e o dever. O que os outros países, com dimensão, têm de diferente em relação à Europa leva por nome coesão: têm uma só bandeira e uma só língua. Aqui temos muitas línguas, muitas bandeiras e pouca cabeça.
        União política nunca há-de acontecer, mas a união económica, científica, monetária… é o pão para a boca. Aguarde e verá.
        Se estes desgovernados que temos em Portugal se deixarem de lérias e derem lugar a gente crescida que saiba reconhecer a importância da política global e possa, assim, negociar com base em factos e não em cálculos mal paridos talvez possamos ter mais respeito por nós mesmos.
        O nosso problema é vivermos numa feira de vaidades proporcionada por traumas não só pequeno-burgueses como também por uma classe de campesinos que julgou ter adquirido um título nobiliárquico proporcionado por uma qualquer universidade. Por isto mesmo não nos admiremos que em regra os governos tenham subjugado os intresses dos cidadãos a uma pequena classe desta nação, é assim desde o tempo dos reis. O nosso grandioso Padre António Vieira retratou em pleno esta viciada sociedade; e mantém-se.

  6. apoiado.Mas pelos vistos a brigada das colheres(a volta dos tachos publicos) não quer nem ouvir o que diz. compreende-se nao vao os eleitores quebrar-lhes o barro(dos pés)

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