A frequência do Café Africano, no Dafundo, é feita sobretudo de reformados, imigrantes, desempregados e um ou outro sem-abrigo. Ao contrário do que sucede nos outros cafés da zona, para não falar dos bairros menos pé-de-chinelo, ninguém é obrigado a consumir: todos conhecem a sensação de não se ter cinquenta cêntimos no bolso para um copo de vinho, dispensa-se justificações.
O dominó e as cartas, esses estão permanentemente à disposição de quem entre pelas portas de alumínio, não muito convidativas, é certo, mas sempre escancaradas. Há uns meses, apercebi-me de que um só conjunto de peças de dominó não chegava ao Euclides para as encomendas. Lembrei-me de que o meu pai tinha um, muito elegante, de peças cor de ébano. Quão apropriado para uma tasca que se diz africana, não é? Liguei à minha mãe e perguntei-lhe se ele se teria importado que eu desse o dominó. “Claro que não, meu querido”. Eu tinha a certeza que não, até pelo que me lembro dele, mas nestas coisas é importante ter-se uma segunda opinião. Fui a casa da senhora e contei as peças: faltava uma. O mais provável é que eu ou o meu irmão um dia a tenhamos perdido ou trocado por folhas de dossier. Fui dali ao supermercado e comprei um daqueles conjuntos da Majora – seis euros. Doze copos de vinho!
Regra geral, o primeiro a chegar senta-se a uma mesa – todos têm mesas favoritas – e espera. Não tarda muito até que alguém entre e o desafie. Faz lembrar os saloons do Oeste, mas em fórmica e mais aconchegadinho. Quando começa a contenda, um monte de gente sai de debaixo das pedras para apreciar a desteridade dos vizinhos e comentar o jogo. Sempre com muito respeito, que desconcentrar os jogadores é anátema. As zangas são tão raras que se tornam lendas contadas em sussurros. Nos raros dias em que um desafiador tarda em surgir, o próprio Euclides fica contente de se sentar à mesa de jogo e ser humilhado sem dó nem piedade pelo pessoal mais batido. É uma espécie de suplente, o Euclides. Eu, que nunca fui jogador sequer de totobola, tiro fotografias. Já ninguém se espanta de me ver subir para cima das mesas e das cadeiras para fazer retratos. Se quer saber, acho que até os envaidece um bocadinho.


Algés, é a minha terra de nascença. Pelo que, Dafundo, é a sua vizinha do lado.
Conheço o Dafundo antigo e o Dafundo que se liga a Linda-a-Velha e a Cruz-Quebrada.
Lembro-me do “Caninhas”, (se não estou errado no nome) entalado entre o Aquário e a linha do eléctrico, onde parávamos para petiscar depois dos jogos no Jamor e onde se saboreavam umas apetitosas caracoladas, no tempo próprio.
Estava aqui a pensar, se o Africano não deveria ser convertido en Centro de Dia. Foi um pensamento fugaz.
Nada pode ser convertido com sucesso. As coisas, ou são aquilo que é o resultado do tempo, ou então, descaracterizam-se.
O melhor, é pensar numa bela sardinhada à moda antiga. Chego-me já à frente e prometo que as sardinhas ficam por minha conta.
Bora?!
É quando quiser, Bartolomeu. Tenho raízes em Algés, pelo que somos assim a modos que compadres. O Africano não vai ser convertido, antes morrerá – é um centro, sim, mas de mal disfarçados desencanto e angústia. Nada ali é elegante, sequer bonito: as pessoas porventura são-no, mas isso só se percebe com insistência. Bom sítio para colocar o eixo do pêndulo e reavaliar a nossa posição no universo. Abraço
excelente ideia esta dos postais, parabens.
Ainda bem que gosta, Jorge, muito obrigado
Estou aqui calada mais je n’en pense pas moins, como dizem os franceses.
Sei proprio gentile, Isabel, como dizem os italianos
Estou a ficar teu cliente também aqui. Ferreira Fernandes
Quanta honra, Mestre. Grande abraço
mais um excelente retrato.
A gente tem que ir disparando, Luís. Obrigado