Postais de um Fotógrafo de Bairro (VIII)


Bandeira,

José Bandeira

 

A frequência do Café Africano, no Dafundo, é feita sobretudo de reformados, imigrantes, desempregados e um ou outro sem-abrigo. Ao contrário do que sucede nos outros cafés da zona, para não falar dos bairros menos pé-de-chinelo, ninguém é obrigado a consumir: todos conhecem a sensação de não se ter cinquenta cêntimos no bolso para um copo de vinho, dispensa-se justificações.

 

O dominó e as cartas, esses estão permanentemente à disposição de quem entre pelas portas de alumínio, não muito convidativas, é certo, mas sempre escancaradas. Há uns meses, apercebi-me de que um só conjunto de peças de dominó não chegava ao Euclides para as encomendas. Lembrei-me de que o meu pai tinha um, muito elegante, de peças cor de ébano. Quão apropriado para uma tasca que se diz africana, não é? Liguei à minha mãe e perguntei-lhe se ele se teria importado que eu desse o dominó. “Claro que não, meu querido”. Eu tinha a certeza que não, até pelo que me lembro dele, mas nestas coisas é importante ter-se uma segunda opinião. Fui a casa da senhora e contei as peças: faltava uma. O mais provável é que eu ou o meu irmão um dia a tenhamos perdido ou trocado por folhas de dossier. Fui dali ao supermercado e comprei um daqueles conjuntos da Majora – seis euros. Doze copos de vinho!

 

Regra geral, o primeiro a chegar senta-se a uma mesa – todos têm mesas favoritas – e espera. Não tarda muito até que alguém entre e o desafie. Faz lembrar os saloons do Oeste, mas em fórmica e mais aconchegadinho. Quando começa a contenda, um monte de gente sai de debaixo das pedras para apreciar a desteridade dos vizinhos e comentar o jogo. Sempre com muito respeito, que desconcentrar os jogadores é anátema. As zangas são tão raras que se tornam lendas contadas em sussurros. Nos raros dias em que um desafiador tarda em surgir, o próprio Euclides fica contente de se sentar à mesa de jogo e ser humilhado sem dó nem piedade pelo pessoal mais batido. É uma espécie de suplente, o Euclides. Eu, que nunca fui jogador sequer de totobola, tiro fotografias. Já ninguém se espanta de me ver subir para cima das mesas e das cadeiras para fazer retratos. Se quer saber, acho que até os envaidece um bocadinho.

10 comentários em “Postais de um Fotógrafo de Bairro (VIII)”

  1. Algés, é a minha terra de nascença. Pelo que, Dafundo, é a sua vizinha do lado.
    Conheço o Dafundo antigo e o Dafundo que se liga a Linda-a-Velha e a Cruz-Quebrada.
    Lembro-me do “Caninhas”, (se não estou errado no nome) entalado entre o Aquário e a linha do eléctrico, onde parávamos para petiscar depois dos jogos no Jamor e onde se saboreavam umas apetitosas caracoladas, no tempo próprio.
    Estava aqui a pensar, se o Africano não deveria ser convertido en Centro de Dia. Foi um pensamento fugaz.
    Nada pode ser convertido com sucesso. As coisas, ou são aquilo que é o resultado do tempo, ou então, descaracterizam-se.
    O melhor, é pensar numa bela sardinhada à moda antiga. Chego-me já à frente e prometo que as sardinhas ficam por minha conta.
    Bora?!

    1. É quando quiser, Bartolomeu. Tenho raízes em Algés, pelo que somos assim a modos que compadres. O Africano não vai ser convertido, antes morrerá – é um centro, sim, mas de mal disfarçados desencanto e angústia. Nada ali é elegante, sequer bonito: as pessoas porventura são-no, mas isso só se percebe com insistência. Bom sítio para colocar o eixo do pêndulo e reavaliar a nossa posição no universo. Abraço

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