Texto de apresentação do livro que ganhou o Prémio Leya


Patrícia Reis,

Não, não sou amiga do Nuno Camarneiro de Coimbra ou da Figueira, de Florença ou de Lisboa. Somos amigos da favela do Rio de Janeiro, de uma viagem que fizemos com a Patrícia Portela, o João Ricardo Pedro e o Sandro William Junqueiro. Nessa viagem aconteceu, como acontece neste livro, uma história que é só nossa.

O meu tio-avô dizia que se tivermos quatro amigos já temos uma casa, nós podemos fazer de chão ou de tecto se, porventura, optarmos por ficar a olhar o céu estrelado. Nos nossos dias brasileiros, entre fados e canções de Chico Buarque, poemas e histórias de vida, cinco escritores construíram uma casa e, sem o dizerem – ou talvez tenha sido dito pela Patrícia Portela de uma forma tridimensional e transfigurativa – decidiram que não se largariam.

Não nos largámos. Somos, portanto, a frase que começa este belo livro do Nuno Camarneiro, frase que diz “Uma história são pessoas num lugar por algum tempo”. E durante aqueles dias nós fomos uma história feliz. Lembro-me de pensar que estávamos a viver momentos únicos, que ninguém estava a assistir ao lançamento mais comovente de todos quando, na cidade de São Paulo, fomos preteridos por uma socialite que lançava, no andar de cima da livraria, o seu livro de receitas, deixando-nos uma sala vazia.

Não, minto: a sala não estava vazia. Tínhamos dois jovens, uma mulher e um homem que deduzo serem um casal, que esperavam por nós. Por isso, pegámos no microfone e cada um de nós leu um excerto do livro do outro. Lembro-me de ter lido umas páginas do primeiro livro do Nuno, “No meu peito não cabem pássaros”.

Lembro-me da comoção de ler alto e dessa partilha e, mais tarde, nesse mesmo dia, numa mesa de um restaurante, decidimos, cinco escritores que não se conheciam, partilhar as histórias que estávamos a escrever. Foi o meu primeiro encontro com Debaixo de Algum Céu. Pensei, lembro-me de pensar, que era bom, que era bonito, saudável que cinco escritores estivessem assim, quase que em comunhão, sem qualquer pudor ou prurido em contar as histórias que nadam na nossa cabeça e que depois transportamos para o ecrã traidor e cansativo de um computador para, no fim, terminarem num livro. Assim, como este. Nessa noite, o Nuno disse: quando eu lançar o meu livro quero que estejam lá todos, quero que vocês o apresentem. E todos dissemos que sim e brindámos, o mais certo é ter sido com cerveja. A Patrícia e o Sandro estão aqui, mesmo que não estejam fisicamente, mas estão. Eu sei que estão.

Pensámos em fazer coisas loucas para o lançamento do Nuno, coisas loucas que eu deixei na mão do João Pedro que ouvirão a seguir.

Mantivemos a correspondência virtual, fomos espreitando os blogues e as páginas de facebook uns dos outros.

Quando foi feito o anúncio do vencedor do prémio Leya, recebemos todos um email do João Ricardo, também ele vencedor de um prémio Leya, que rezava assim: e o cabrão do Nuno ganha o prémio Leya e eu estou aqui farto de chorar.

Ficámos todos em êxtase. Ficámos aos pulos. O que é possível em todos.

Menos no Nuno.

O Nuno é mais reservado, mesmo que a voz se atire para o fado de Coimbra se a noite já for alta. O Nuno ficou cheio de coisas lá dentro e, na entrega oficial, leu, sem tremer a voz ou gaguejar, um belo texto e fez a homenagem justa à bisavó. Dessa vez, fui eu quem ficou com lágrimas nos olhos.

Depois, já o dia marcado, a hora, o lançamento, sabendo que o João Pedro vos arrancará várias gargalhadas, pensei que estava em desvantagem. Por não querer contar a história do livro do Nuno e, se tiver de o fazer, seria sempre um exercício menor, já que o escritor fez o favor de nos explicar quase tudo – e apenas quase tudo – no prólogo de Debaixo de Algum Céu.  Porque carga de água é que eu ia inventar o que o Nuno já escreveu tão bem? Escreve ele:

“Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.

Esta é uma história de portas adentro.

Tudo se passa numa povoação encostada ao mar a alguns quilómetros de uma cidade média. De Inverno vivem ali pouco mais de dois mil habitantes, entre pescadores, gente pobre, famílias fugidas da urbe e alguns homens estranhos, apaixonados pelo mar ou desiludidos do resto.

Um prédio chegado à praia e um Inverno pesado e frio, de cobertores húmidos e doenças nos pulmões que silvam ao respirar. O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva. Dentro do prédio procura-se calor no que há: caldeiras, fogo, corpos e alimento.

A história é contada em oito dias, os últimos sete de um ano e o primeiro de outro. Nada saberemos do futuro e pouco do passado. Nesta história o tempo é medido em medos, um a cada dia, o tempo certo para que homens tremam e mudem.

O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.

Neste Inverno as gaivotas são gritos com asas. Por estes dias o fogo é frio e anda nas ondas e anda por todo o lado.

No prédio, pessoas em cima umas das outras, divididas por tijolos e cimento, apartadas em apartamentos, para que não caiam e se baralhem as vidas de cima com as de baixo. Pessoas arrumadas como histórias em estantes; só que não é assim, quase nunca é assim.

O prédio conta-se com quem lá está, coisas que acontecem entre um antes e um depois, uma fatia do tempo dos inquilinos. É um Inverno frio encolhido num lugar, posto ali de onde não fuja.

A história é também muito que não vai contado, porque é fácil contar o que acontece, mas faltam palavras para o resto. Como os olhos de dentro para fora fixados nas formas do mar, como horas de ondas sem mais nada, olhando o movimento, olhando o tanto que é aquilo.

Quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo.

Oito dias são pouco tempo na vida de uma pessoa, mas nascer é só um dia e morrer também. Há alguns maiores e outros que nada importam, há semanas grandes como anos e horas infinitas, o tempo de uma vida é descontínuo e assimétrico.

Quem sobreviver aos dias lembrar-se-á deles. Com choro ou com a alegria toda de se ver são. Quem são se encontre, quem lhes tenha resistido sendo ainda quem foi.

A ilusão da continuidade alimenta-se de um corpo em que os braços e as pernas se contam pelo mesmo número. O cérebro conta um mais um e deita-se para dormir, mas é difícil deitar contas à cabeça feita de tantas partes.

Quantas partes tem uma cabeça? Quantas podem faltar debaixo do mesmo nome? Em que momento da queda da guilhotina passa o condenado a cadáver? Em que momento da lou- cura se ganha o direito a ser chamado louco?

Ouviremos ainda as vozes dos moradores. Falarão de si, do que temem e sonham. Não saberemos de que momento nos chegam, se estão vivos ou mortos, sob pena ou redimidos. Talvez as vozes lhes sobrevivam e se propaguem para sempre, como a luz de uma estrela que já morreu.

Neste Inverno há homens que enlouquecem e outros que se salvam. Todos caem, alguns saberão levantar-se. Pelo meio nasce Cristo e um ano novo”.

 

Estas são as palavras que dão início ao livro do Nuno. Acham que precisam de mais recomendações? Façam o favor de comprar e ler e recomendar. Quando um autor chega ao mercado é como um mergulhador que navega em águas desconhecidas. Precisa de ser acarinhado. De ser bem recebido. De ser entendido. Não precisa de críticas fáceis, mas construtivas e depois precisa de tempo. Sobre o tempo, o Nuno sabe muito. E sobre a escrita que é a sua e não o abandonará iremos nós saber. Com tempo. Parabéns Nuno.

 

15 de Maio de 2013

7 comentários em “Texto de apresentação do livro que ganhou o Prémio Leya”

    1. A bisavó do Nuno Camarneiro foi alguém que lhe ensinou a simplicidade das coisas. Não sabia ler ou escrever, mas o Nuno aprendeu com ela todas as palavras importantes. Felizmente, há pessoas assim. Bom fim-de-semana

  1. O livro promete muito, pela amostra. O teu texto é um espelho do que és, já estou como a Helena. É bom confirmar isso em cada coisa que escreves.
    Gostei muito de ambos. E vou comprar o livro do teu amigo Nuno. 🙂

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