Avaliou-o, indiferente ao que dizia, tentando adivinhar o que separava aquele homem subitamente envelhecido do virginal candidato que arrematara, há dois anos, uma vitória eleitoral com 38,6% de votos. Odiado por alguns dos seus pares, representantes do poder instalado, essa circunstância era vista como um sinal de esperança até por alguma esquerda que ansiava por reformas, viessem elas de onde viessem. Louro e de olhos claros, como o próprio el-rei D. Sebastião, e acolitado pelos escudeiros do FMI, dizia-se que tinha tudo a seu favor. Até a situação desesperada do País serviria como um poderoso argumento para enfrentar os lóbis e forçá-los a ceder.
“Em dois anos envelheceu dez”, anotou com frieza, comparando a seguir a sua devastação com a dela. “Há dois anos não estava a ver televisão em casa a meio da tarde”.
Muda de canal, mas não se fixa. Faz zapping, enquanto a imagem dele a falar pausadamente a persegue. “Não há político emergente que em período de crise não sonhe ser alcandorado a salvador da pátria”, reflecte. Mas no momento em que formula esse pensamento sente uma forte impressão de déjà vu. Também em relação ao outro fizera idêntica dedução.
Quando o antecessor, que agora faz prédicas ao domingo, foi eleito pela primeira vez a expectativa era semelhante. Dizia-se então que tinha condições únicas para reformar Portugal. Ela acreditou. Sobretudo na sua vaidade. A megalomania que evidenciava leva-lo-ia pelo menos a tentar ficar para a História, pensava.
Ele e Passos, tão diferentes e tão iguais. “Nascidos e criados nos partidos do poder, terão alguma vez acreditado que seria possível reformar o sistema, ou a esperança esteve sempre e só do nosso lado?”


pois…
a pergunta é boa, mas a resposta penso que não.
Boa análise… Este, pelo menos, não é megalómano nem narcísico, o que o torna bem mais tolerável. Em teoria, claro, porque na prática não tem a segurá-lo aqueles defensores esturrados que costumam pulular em redor dos líderes psicóticos.
Na prática teve como o outro uma oportunidade de ouro para reformar e falhou. Temos prosseguido de decepção em decepção enquanto a democracia envelhece. Não sei onde isto nos vai levar, Laura.
Nunca vi ninguém envelhecer tão rapidamente e de forma tão visível, mesmo sabendo que isso acontece com todos os políticos no activo. Acho que Passos terá acreditado que podia mudar alguma coisa, sim. Não teve foi capacidade, preparação e força para isso. E nem sequer tem carisma, coisa que sobrava ao outro. Seja como for, quem mais sofre na pele as decepções e as consequências delas somos nós, não eles.
Para a falta de capacidade e preparação já não dá para haver tolerância, Ana. Mas a falta de “força” (prefiro chamar-lhe “coragem”) isso é o que menos lhe perdoo. Porque tinha apoio social, condições políticas e auxílio técnico para fazer o que era difícil. E não fez.
Houve uma imagem que deu para perceber o que se iria passar em Portugal. aura-ferreira-e-pedro-passos-coelho2/ALT ERNATES/w620h800/Laura+Ferreira+e+Pedro+P assos+Coelho
Foi tirada logo em Agosto de 2011:
http://caras.sapo.pt/famosos/2011/08/18/l
Esta foi a melhor comunicação ao país que Passos Coelho fez até hoje.
Tudo o resto é consequência de só saber o que se encontra depois de chegar ao poder.
Ao fim de algumas semanas dar-se-à conta que ninguém liga ao que ele diz. Pior, nem sequer consegue convocar uma conferência de imprensa para dizer o que quer – está tudo sob “outro” controlo.
Resultado, quando o país pensaria que nos meses seguintes ele estaria embrenhado em desatar os nós deixados por Sócrates, ele lembra-se de tirar umas “férias forçadas”, como qualquer vulgar cidadão de classe média.
Porquê?
Talvez porque seria a única maneira de explicar que não podia fazer nada, nem sequer demitir-se. Só podia mesmo fazer algumas birras, e ter teimosias como esta (ou a de viajar em classe económica).
A grande diferença face a Sócrates, é que Passos Coelho não se orgulha com a sua situação fantoche, resignou-se a ela… (“acho eu de que”)!
Concordo, Da Maia. Mas infelizmente, neste caso, nem o orgulho de um nem a resignação do outro nos adiantaram alguma coisa.
Lá se foi a auréola do loirinho de olhos claros…na verdade nunca tive grande esperança no que iria trazer para este desgraçado povo no qual me incluo.
Isto porque contrariamente ao comentado ele não mentiu em tudo, falou em muito do que veio a fazer, e que provavelmente as pessoas envolvidas na esperança não notaram…
A Ana vidal tem razão.
Dei-lhe o benefício da dúvida. Não mentiu em tudo, é verdade. Foi fiel à promessa de sacrifícios, esqueceu as reformas estruturais. Fácil.
eu não lhe dei qualquer benefício Teresa, um politico que diz que vai acabar com o Serviço Nacional de Saúde, para mim disse tudo, ou melhor, queimou-se de vez.
E, cá estamos nós para sofrer as consequências das loucuras de querer agradar a meia dúzia de tipos dos países ricos. 🙁
cr, permita-me uma correcçao: ele nunca disse que ia acabar com o SNS, pelo contrário. Sempre que foi acusado disso negou, pois bem sabia o impacto que essa assumpção teria na opinião pública.
Antes do comentário propriamente dito, quero deixar claro que sou comunista, só para não pensarem que sou do PSD.
Pessoalmente acho que Sócrates nunca quis mudar o quer que fosse no nosso país, acho que el quis apenas reforçar os seus interesses. Fez algo de bom, fez. Fez algo de mau, também fez. Não acho que o tenha feito para salvar a Nação.
Quanto a Passos, apesar de não concordar com os seus ideais, penso que foi, em tempos, alguém suficientemente utópico para acreditar que ia mudar o país. Obviamente não conseguiu, tudo lhe saiu gorado, mas concedo-lhe o respeito devido a alguém que foi fiel aos seus ideais (por mais que eu não concorde com eles).